segunda-feira, dezembro 28, 2009

Copacabana

Foto: Maria Antonia Demasi
Conto da autora desse blog vencedor em 1º lugar do 27º Concurso Literário Yoshio Takemoto 2009 na Categoria Língua Portuguesa, promovido pela CAQUI – Revista Brasileira de Haicai.










Helena saiu do apartamento apressada. Não sabia bem porque, mas sentia uma urgência úmida no ar.

Chegando à portaria, sentiu medo. O zelador, de cara assustada, ao perceber a presença muda da velha senhora, lançou para o ar:
- Ela vai sair! Que é que faço?
Helena não ouviu nada. Já fazia alguns meses - ou seriam dias? - que ela percebia nas pessoas reações estranhas, mas em nenhum momento arriscou entender o que poderia ser apenas uma sensação passageira.
- Livre! Foi a palavra que voou de sua boca assim que alcançou a calçada.
Pisou firme e partiu guiada pelo cheiro. Cheiro trazido pelo vento que conhecia desde sempre, só que nessa manhã ela não sabia ao certo o que era o sempre, o que fora o ontem e sobre o amanhã, bem a verdade é que o amanhã não tinha mais espaço reservado em sua mente.
Duas quadras, doze amendoeiras (se é que ela não se perdeu... nas contas, é claro) e de assalto um grande barulho e uma mão segurando seu braço direito.
O guarda municipal podia considerar seu dia ganho. Se não tivesse segurado Helena quando já colocava um pé no asfalto da famosa avenida... já era!
-Bom dia madame! Posso ajudar em alguma coisa?
-Sim, claro. Quero saber se já cheguei.
-Bom, disse o homem da lei, depende de onde a senhora quer chegar.
Helena sorriu como que por misericórdia. Como aquele jovem fardado sem o menor senso de direção, poderia então “ajudá-la em alguma coisa”?
Agradeceu mesmo assim, desvencilhou-se da mão que insistia em segurá-la e como guiada agora por outra mão, a mão firme de seu protetor, São Sebastião, sentiu que poderia continuar andando.
Deu dois passos e o barulho que ouvira virou uma tempestade: raios e trovões, gente correndo em sua direção e de novo aquelas expressões que insistiam em perseguí-la.
Seus ouvidos, que até então pareciam tapados, subitamente abriram-se e ela pode ouvir frases desconexas como: “vai ser atropelada”, “como alguém sai de casa com essas roupas”, “coitada”, “cadê a família”...
Achou tudo muito confuso, mas conveniente porque foi apenas abrir os olhos que instintivamente haviam se fechado e chegar onde queria e não sabia.
-Finalmente! suspirou Helena.
Já era hora de poder se lavar. Fazia isso há sessenta e dois anos, desde o dia em que deixou para trás as Minas Gerais profunda - onde a maior água é a do velho Chico - para viver bem perto das “águas que não tem fim” como dizia alguém que agora não se lembrava quem.
Começou a tirar o que vestia e estava grudado em seu corpo tão úmido quanto o ar que respirava com dificuldade irritante.
Quase flutuando (era sempre assim) passou pelo que chamava de “colchão mais quente dessa terra tão quente” e extasiada, se deixou levar pelo abraço da água que sabia salgada.
Sabia e sentia mais.
Sabia que a água estava gelada e por isso, sentia raiva.
Sempre que essa espécie de frio cínico invadia suas entranhas, sentia raiva. Muita raiva. Gélida raiva. Mas nunca resistia. Aceitava essa invasão com altivez estudada, quase decorada por alguma parte de sua mente que se ocupava em colocar suas temperaturas emocionais num grau socialmente aceitável.
Mas agora alguma coisa parecia ter mudado.
Não sabia o que viria depois da raiva, o que deveria fazer depois dela passar, se é que ela passaria... E então veio o nada.
E Helena percebeu que o nada era um desconhecido.
Começou a mover o corpo não só para esquentá-lo, mas para poder, quem sabe, deixar o nada mais à vontade (essa era também a tática que usava para raiva).
Do nada para esquerda.
O que viu encheu seus olhos. Uma grande construção, do tempo em que o tempo apagou de sua mente. Tão grande pensou, como um grande pai, corajoso e forte. Forte. Era esse o nome que sabia daquela estrutura encravada nas pedras.
E Helena sentiu-se forte por ver e reconhecer.
Ver com sentido. Ver entendendo como parte de sua vida espaços que a cercavam.
Mas isso durou pouco. Durou duas palavras, dez letras: d u r o u p o u c o.
O nada voltou e do nada foi tirada pelo susto.
Assustou-se com uma figura jovem apoiada no que considerou ser “uma tábua de passar roupa flutuante”. Ao tentar aproximar-se percebeu que sua camisola (só agora percebia que estava com a camisola azul bebê que tanto gostava) havia se enroscado naquele estranho tipo de bóia.
-Desculpa aí! Foi mal...
E o rapaz, meio sem jeito, como que adivinhando a necessidade do outro se encontrar, enunciou mais uma vez, o que para Helena ainda fazia parte do desconhecido.
-Acho que a senhora precisa de ajuda.
Helena não entende e pensou:
“Ajuda? Não entendi. De novo. Não entendi nada.”
Puxou a ponta de seu traje longo, deu dois passos para frente e parou. Foi parada. Pelo chão que afundava bem embaixo de seus pés. Pela água, que orgulhosa de ser água, afundava aquele que não conseguia saber quem era.
“Como minha vida", pensou alto Helena.
E como já tinha feito tantas vezes em sua vida (apesar de agora não fazer a mais pálida idéia disso), decidiu reagir e seguir em frente.
Pisou novamente no “colchão quente”. Só que dessa vez tinha os pés gelados, o que facilitou o que encarava como uma verdadeira jornada para onde não sabia.
E quando estava quase chegando, reconheceu uma voz.
- Mãe!
Foi como a ducha fria, de água doce, que ela tanto gostava de tomar quando voltava para casa. Alívio. Porto seguro. Entrega.
- Mãe, eu sei aonde a senhora quer ir. Vamos lá, eu ajudo.
E assim as duas mulheres, uma tão velha e fluída e outra tão jovem e tensa, chegaram trôpegas pelo calor e pela vida, ao banco onde o silêncio as esperava.
Helena sentou-se com a elegância de uma verdadeira dama. Olhou para Drummond congelado e, exausta, balbuciou o segredo que se desvendava a cada encontro.
- Não posso mais te encontrar. Tem um homem, acho que um alemão, um tal de Alzeimeher, que não me deixa mais sozinha, tenta me prender em casa. Ele não quer que eu ande mais por .... Como é mesmo o nome dessa praia?

sábado, outubro 31, 2009

Atrás das cortinas

Foto: Maria Antonia Demasi

Cada um com seu doente.
É assim que acontece no ambulatório do hospital classe “A”.
Mas os doentes e os acompanhantes são, essencialmente, os mesmos, não importando o luxo ou a decadência que os cercam.
Para garantir privacidade, fecham-se as cortinas. Mas os ouvidos, não.
E, então, pode-se ouvir tudo.
No fechadinho da frente, uma menina-moça mimada. Falava alto, afetada e presunçosamente.
A pobre da mãe, com um tom abaixo, tentava, em vão, domar a princesa enfezada. Quando o pai chegou, a digníssima disparou a falar. Rápido. Desembestadamente. Pedia desculpas, avisava que só tinha ligado porque a mãe insistiu.
A mãe permanecia calada. Separada do marido, da filha, da vida.
O pai respondeu cortando que já havia entendido.
No cantinho ao lado, o senhor Stanislaw entendia as explicações dos enfermeiros com dificuldade, mas distribuía desculpas com singela facilidade. Pelo trabalho que estava dando, pela confusão que causara. Ria. E a mulher ao lado, tão velha como ele, só se ocupava em abrir a bolsa e soltar cheque-caução e dinheiro para a filha comprar um pão de queijo e dois sucos de pêssego. Uma delícia.
Do lado direito, um menino lindo e chorão de olhos azuis reclamava. Antes da injeção. Só por garantia. E os pais, pouco convincentes repetiam que ele já estava bem grandinho para tanto chororô.
E então, a menina- moça mimada foi embora, sem não antes o médico alertá-la de que poderia sim beber, afinal jovens fazem isso, mas com moderação para, na próxima balada, não acontecer novamente de cair troncha no chão, bater a cabeça e desmaiar. Despedidas e risinhos amarelos.
E lá se foi o senhor Stanislaw distribuindo sorrisos, gratidão e gosto pela vida. Foi se recuperar em casa. Era sempre assim.
E nós ficamos. Cheios de assunto. Da vida dos outros. Esperando ouvir notícias sobre nossas vidas.

Seco e esturricado

Foto: Maria Antonia Demasi

Ela era famosa. Ele também. Aliás, não se sabe até hoje quem alcançou maior fama, ele ou ela. Em comum, a mesma morte. De resto, naturezas distintas.
Ela generosa, ele mesquinho. Viviam na mesma terra.
Ele, mais para dentro da cerca, passava os dias a triturar, coar, e armazenar sua mesquinhez.
Ela na beira da estrada, meio cá, meio lá deixava à mostra toda sua frondosa generosidade. E por estar assim tão exposta, ela era admirada pelos que passavam pela estradinha de terra. Muitos não resistiam e acabavam se aproximando mais e mais, até conseguir tocá-la. E ela que essencialmente era um ser que alimentava corpo e espírito de toda gente, se entregava. E por isso ele não se conformava. Era tomado por um sentimento ancestral, a idéia de posse daquilo que pode ser de todos. Nessa luta muda, os dois se engalfinhavam quase que diariamente.
A cada ataque recebido ela parecia ficar mais forte, e ele, mais cruel.
A cada violência sofrida ela respondia com mais vitalidade e ele, com a ira dos infernos.
Foram doze anos assim. A estória ganhou as montanhas e os vales, voou de boca em boca e cada vez que era contada, ele era amaldiçoado por sua maldade. Ela velha ficou mais linda e convidativa. Ele, arqueado, amarelo, sem viço. Num dia de janeiro, estação das águas, imerso no seu negro rancor, resolveu que iria dar fim ao que considerava ser um martírio. Desejava uma solução definitiva. Não suportava mais ter ao seu lado a lembrança de que dentro dela não havia nada vivo. Pegou um machado e seguiu em direção ao desfecho final. Com dificuldade agarrou-se à ferramenta e quando estava pronto para dar o primeiro, do que havia planejado uma série de golpes, foi atingido por um raio. Caiu sem não antes perceber que ela também fora atingida. O raio rachou ao meio seu poderoso tronco.
Morreram os dois: o homem e a mangueira. O corpo ficou escorado num galho. Conheceu a morte ao lado daquela que havia tentado matar durante toda vida.
Dele, só restou pó.
Dela, um pedaço de tronco morto que virou banco onde quem outrora pegava manga agora se senta para contar a estória de um homem que de tão ruim, tão ruim, morreu seco e esturricado ao lado da mangueira que tanto amou.

segunda-feira, outubro 26, 2009

O forte


Foto: Maria Antonia Demasi

Julio César.
Era esse seu nome. Forte. De longe, o mais forte.
Eram três irmãos. Luis Henrique o mais velho. Tobias, o mais novo. Júlio César era o do meio. O único loiro, cabelo de milho, dourado, cheio de cachos preguiçosos. Gostava de colo. Era uma criança.
Tinha um ano e meio e usava fraldas. Forte. Tudo nele tinha força. E seu olhar era múltiplo. Ele era vesgo. Totalmente vesgo.Seus olhos de jabuticabas não paravam quietos. De um lado pro outro, num ir e vir alucinado. O corpo acompanhava o ir e vir dos olhos. Ele não parava e não podia ser parado.
Quando o convidei para segurar minha mão e dar uma volta, ele não titubeou. Era uma descida de grama e terra molhada. Firme, tomou a frente e se pôs a me puxar. Ele definia o caminho. Marcava nossos passos. Imprimia a força que me guiava. Ele era forte.
O destino era o carro. Quando chegamos, peguei Julio César no colo e o coloquei no banco. Era lá que planejava estar. Olhou tudo e começou a balançar o corpo para frente e para trás. Olhava para mim de tanto em tanto. E continuava seu balanço.
Seria estrábico a vida inteira, dissera o médico da cidade. Essa era a sina daquele que era filho de pais parentes. Demora pra acontecer. Mas acontece. Ele era o premiado da vez. Não tinha jeito. Usaria óculos, faria exercícios com a vista, mas seria sempre Julio César, o vesgo.
Não. Não seria. Desde sempre era Julio César, o forte.
Desafiava cada um que encontrava com sua força. Não tinha quem depois de um olhar, não fosse tomado por sua força.
Um pequeno homem forte.
Julio César, o forte.

sábado, outubro 17, 2009

Parada

Foto: Maria Antonia Demasi

Na esquina, um ponto de táxi.
Em pé, conversando com o sorridente taxista, lá estava ela.
Puro lilás. Meias pretas e cabelo branco. Muito arrumada. Bom de ver.
Eu, dentro do carro, só a via de costas. De frente, o taxista sorridente. O tempo inteiro sorridente.
Ela falava sem parar.
Tinha tempo de falar sem parar. Quando se tem tanto tempo já vivido, ganhamos uma permissão especial para falar e falar e os com menos tempo, escutar e escutar. Sem ouvir.
É aí que entra o sorriso do taxista. Ouvir ele não ouvia. Mas sabia que dela, a mulher de lilás, tinha que escutar. Não se tratava exatamente de uma conversa. A parte que lhe cabia se resumia a estar. E se sorrisse então, puro deleite.
Um pouco antes de o sinal abrir, joguei meus olhos para rua. Acho que queria checar o que a esperava.
Dei de cara com uma menina de colo rindo. Rindo muito. E a mãe ria junto enquanto corria fugindo dos carros.
Elas pisaram na calçada no exato momento em que a mulher de lilás se despedia do taxista e tocava a vida pra frente. Mas ela também teve o olhar roubado pela menina risonha. Pararam todas. A velha, a mãe e a menina. E a velha começou a falar. De novo.
Que encontro. Um encontro de iguais. Velha e menina sorrindo. As duas com permissão de falar e falar. E a mãe, síntese do meio tempo, ali parada testemunhando o encontro de dois extremos.
As duas tão semelhantes. O buraco de tempo entre elas, era igual a zero. As duas se olhavam e riam encantadas, uma com a outra, unidas por aquele fio de vida que atado, não se sabia mais onde havia começado e onde terminaria.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Dominó

Foto: Maria Antonia Demasi





















Tudo começou
Num jogo de dominó
Meu pai como sempre
Chegou em casa depois do trabalho
Tirou o paletó
Se jogou na cama
Me jogou pro alto
E gritou com vozeirão
É hoje que vou ganhar sem dó!

Minha mãe logo apareceu
Com a caixa verde na mão
Um tesouro de pedras brancas
Com pintinhas pretas
Que só de ver
Acelerava meu coração

Só que naquele dia minha mãe
Com a cara triste
Falou baixinho
Hoje eu não quero jogar não!

Jogamos eu e meu pai
Mas diferente do que prometeu
Eu ganhei todas as partidas
E ele até se esqueceu
De me deixar prisioneiro
Em cima do armário
Como vingança de um jogador
Que de mim
Só perdeu

De noitão
Não conseguia dormir
Levantei da minha cama
Fui pro quarto deles
E perguntei
O que precisava descobrir

O que aconteceu
Com nosso jogo
Você mãe, não jogou
E você pai, perdeu

Os dois
Fizeram cara de espanto
Me puxaram pro meio deles
Disseram que não era nada
Que estavam cansados
Preocupados
Problemas de gente grande
Pra eu ficar tranquilo
E ir dormir no meu canto

Nosso dominó
Desde esse dia
Não foi mais o mesmo
Meu pai só chegava tarde
Minha mãe vivia chorando pelos cantos
Minha casa ficou vazia e sem alegria

Comecei a jogar sozinho
Não queria incomodar
Mas até isso era difícil
Eles não paravam de gritar

Achei então
Que melhor seria
Se jogasse no lixo
As vinte e oito pedrinhas brancas
Do meu tesouro
Sem ter o dominó
para atrapalhar
Sem ter que comigo brincar
Com certeza
Eles iriam parar de brigar

Armei meu plano secreto
Fiz sumir a caixinha
Agora era só esperar
Que tudo voltasse a ser
Como antes
Vinha

Um dia
Dois dias
Três dias
E nada

Os dois cada vez
Mais estranhos
E cheios de mania
Minha mãe dormia na rede
Meu pai ficava só no computador
E eu que não tinha mais dominó
Agora não tinha também
Meu pai e minha mãe
Estava só

Até que um dia
Me convidaram
Pra comer pizza
Quase não acreditei
Sair com os dois juntos
Que alegria!

M
as durou pouco
Logo que sentamos
Os dois já avisaram
Que nossa vida mudaria

Começaram explicando
Que tudo o que estava acontecendo
Não tinha na a ver comigo
Que me amavam muito
Que eu era um bom amigo
Mas que não se amavam como antes
Por isso não podiam viver juntos
Agora cada um em uma casa
E então senti o perigo

Onde eu iria morar?
Com quem almoçar?
Ter que escolher
Com quem brincar
E se não desse certo
Com quem eu iria ficar?

Mas antes de começar a chorar
Os dois me abraçaram
E disseram
Que nunca iriam me abandonar

Que eu teria agora
Duas casas pra morar
Dois quartos pra dormir
Mas o amor seria o mesmo
As broncas também
Que no começo poderia até ser difícil
Mas que estariam sempre ao meu lado
E prometeram jamais mentir
O que me deixou mais sossegado

Depois de nossa conversa
Começamos a comer
Foi a melhor pizza do mundo
Eu que andava com dor de barriga
Sem vontade de comer
Do prato vi até o fundo

E antes da gente ir embora
Veio a grande surpresa
Um presente apareceu
Em cima da mesa

Abri o pacote feito louco
E quase morri de susto
Dentro de uma caixa verde
As peças de dominó mais brilhantes
Que já tinha visto!
E foi então que me disseram
Isso é para você saber que será
Sempre nosso parceiro
E amigo preferido

Voltamos a ser uma família
Só que agora diferente
Tinha minha mãe
E a namorada do meu pai
O meu pai
E o namorado da minha mãe

Ganhei dois irmãos
Agora somos três meninos
Ensinei os dois a jogar dominó
E a gente nunca está só

sábado, outubro 03, 2009

Porque o mar é salgado

Foto: Maria Antonia Demasi

O Seu Nicolau era um velho muito velho.
Ele morava numa praia linda. A casa dele era pequena e ficava em cima de um morro bem alto.
Da janela do quarto, Seu Nicolau enxergava quase até o fim do mundo.
Ele gostava de ficar sentado numa pedra e ficar olhando o mar mudar de cor conforme o tempo passava.
Logo cedo era azul da cor de seus olhos. De tarde verde como a mata em volta de sua casa e no final do dia, preto como a noite.
A vida do Seu Nicolau era bem tranquila. Só encarava descer para a cidade quando precisava fazer compras.
Um dia, na hora de fazer o almoço, viu que o sal tinha acabado. Então, depois de comer resolveu ir ao supermercado.
Descer era fácil. O duro era subir o morro.
E como Seu Nicolau já tinha experiência de sobra desse sobe-desce, ele fez um saco de pano vermelho, bem grande para trazer tudo o que comprava.
Nesse dia, ele só comprou mesmo sal. Mas para não ser pego de surpresa de novo, comprou logo de uma vez dez quilos! Colocou tudo no saco e pegou o caminho de volta pra casa.
E que caminho legal! Ele voltava pela praia! Tirava os chinelos, suspendia a calça e caminhava sem pressa. Parava pra catar conchinhas, pulava ondinhas e até um sorvete ele tomava.
Só que nesse dia, o saco do Seu Nicolau estava tão pesado que ele logo se cansou. Então, esperto que era, tirou o saco vermelho cheio de sal do ombro, colocou na areia e começou a puxar ao invés de carregar. O problema estava resolvido.
E assim, andando devagar, curtindo o mar, o vento, a vida, Seu Nicolau seguiu feliz. Tão feliz que no pé do morro, pronto pra subir, pensou: “Nossa, uma caminhada assim é tão gostoso, que nem estou sentindo o peso do sal!”
Quando chegou em casa, encostou o saco na parede, foi tomar um copo de água fresca e voltou para guardar o sal numa grande lata.
Foi aí que o Seu Nicolau levou o maior susto de sua vida. O saco estava vazio!
Quase caiu pra trás. Precisou sentar. “Cadê meu sal?” Perguntava pra ele mesmo.
Mais calmo, pegou o saco nas mãos, ajeitou os óculos e começou a investigar o caso. Qual não foi sua surpresa quando descobriu um monte de furinhos no tecido vermelho. O saco estava todo esfolado, esfarrapado... Foi assim, saindo aos pouquinhos, que o sal tinha desaparecido.
Seu Nicolau não se deu por vencido. Desceu correndo o morro e foi tentar juntar o sal que pudesse ter sobrado.
Chegou tão cansado na praia que antes de começar a procura, resolveu tomar um banho de mar.
Ficou só de cuecão e se jogou na água morna do fim de tarde.
Foi aí que o Seu Nicolau percebeu que esse sim era o maior susto de sua vida, não o saco vazio sem os 10 quilos de sal. O mar estava salgado, muito salgado. Como assim? Até então a água era sem gosto, água doce como costumam dizer, e agora estava salgada!
Então o velhinho entendeu o que tinha acontecido. Todo o sal do saco tinha sido engolido pela água e agora todo mar estava assim, salgado.
Seu Nicolau ficou parado um tempão, sentado na areia espiando bem quieto as pessoas falarem sem parar da novidade. A água salgada do mar foi assunto pra muito tempo. Depois, deixou de ser novidade. E o Seu Nicolau nunca contou essa estória pra ninguém. Só para você.

terça-feira, setembro 29, 2009

Dona Baratinha

Foto: Maria Antonia Demasi

Lourdes era uma mulher magra. Sempre foi. Agora, aos 82 anos, continuava magra e feia. Sempre feia.
Mas era rica. Sempre foi rica. E por causa disso, figura conhecida na minúscula cidade do sul de Minas. Mas riqueza que é riqueza nunca anda sozinha. Junto caminha a esquisitice. E essa Lourdes era muito esquisita.
Solteira e sem filhos nunca conseguiu ter amigos. As pessoas apenas a suportavam. Não por caridade, mas por medo. Sim porque Lourdes tinha fama de ser uma velha má. Sua maior arma era o dinheiro e com ele fazia e desfazia-se de quem arbitrariamente escolhia.
As estórias eram sempre iguais. Lourdes se aproximava de uma pessoa, oferecia o ombro amigo e o bolso cheio. Arrumava a vida da vítima e depois fazia dela gato e sapato.
Suas irmãs, Mimita e Anitinha moravam juntas em outra casa. Elas sofriam involuntariamente as consequências dessa irmandade desastrosa. Queriam morrer de vergonha do comportamento vil da irmã, mas, assim como o resto da cidade, não ousavam mexer com ela.
O tempo foi passando, a lista de estragos de Lourdes aumentando, até que ela começou a dar sinais de arrefecimento. Parecia que deixara os seus investimentos humanitários para trás.
Sossegou por alguns meses. Saía pouco de casa. Quando finalmente começou a dar o ar de sua sem gracesa senil, os vizinhos repararam que sua aparência apresentava mudanças. A começar pelas roupas. As saias subiram consideravelmente de comprimento. Agora estavam quase um palmo acima dos joelhos e eram rodadas. As blusas, mais justas ao corpo. Os sapatos ganharam saltos altos e finos.
Seu corpo também mudara. Os seios estavam mais avantajados, sua bunda mais arrebitada e o rosto repuxado.
Repulsa. Espanto. Ironia. Assim reagiram os moradores da cidadezinha que gastavam horas de seus dias estendidos tentando adivinhar quais seriam as próximas investidas da velha.
Aos poucos Lourdes voltou a circular. Andava por toda cidade, de sombrinha rendada em punho, num andar que mais parecia o de uma gazela manca. De tanto em tanto, ajeitava um lugar para sentar e aí então, fazia seu grande número: dava uma puxadinha na saia e cruzava as perninhas. Assim ficava. Paralisada. Olhando freneticamente para os lados a procura de platéia. E isso ela tinha. Era impossível não olhar. E ela só captava o olhar. O resto, as reações cruéis das pessoas, isso passava ao largo daquele corpo bizarro.
Depois de certificar-se de que já havia sido notada, levantava-se e partia.
Quando os passeios de Lourdes já não eram novidade, surgiu o que ninguém, por mais criativo que fosse, poderia imaginar.
Na primeira página do semanário da cidade, um anúncio de meia página, onde se lia:
“Procura-se jovem de até 25 anos, com boa aparência, dentição completa e alfabetizado para compromisso matrimonial imediato”.
Logo abaixo, endereço e assinatura.
Lourdes M.
O alvoroço foi grande. Filas se formavam diariamente em frente a casa da anunciante.
Jovens da roça vinham em pencas. Esses entravam e saiam rapidamente. Forasteiros se arriscavam e engrossavam a fila, mas logo voltavam cabisbaixos para suas cidades.
Passaram-se semanas. A cena já fazia parte da paisagem do município. Até que em uma manhã, a fila empacou. Ninguém se lembrava exatamente quem fora o último candidato a entrar. O fato é que ele não saíra.
Aos poucos a fila foi minguando. Cansaram de esperar.
Foi apenas no final do dia que a porta se abriu dando passagem para Belmiro.
Os curiosos que ficaram esperando a saída daquele que parecia ser o eleito, tiveram dificuldades para reconhecer o rapaz. Pequeno, muito pequeno, um triz para não ser anão.
Rosto comum, roupas comuns.
Quando abriu o portão e ganhou a calçada, alguém gritou: “É o mudinho!”
Espanto geral. Teria aquele moleque ganho a velha rica? Sim. Ganhou.
Em dois meses estavam casados. Com pompa e circunstância.
E então, Lourdes sumiu. Só se via o mudinho circulando faceiro pelas ruas. De carro novo. Roupa nova. Jeito novo. Perguntado sobre a esposa, respondia que ia bem e estava descansando.
As irmãs, preocupadas, foram conferir. Realmente Lourdes estava bem. Só estava descansando.
Até hoje, não se sabe muito bem o porquê da velha precisar de tanto descanso. Desconfia-se.
Isso durou pouco.
Um domingo, Belmiro de terno de linho e Lourdes de saia curta e sombrinha de renda, saíram de mãos dadas para a missa. Sentaram-se no primeiro banco da Igreja, bem próximo ao altar.
Ela - cruz credo!- ela de pernas cruzadas.
Quando o padre anunciou: “todos de pé”, Lourdes não se moveu. Continuou sentada. Catatônica. Morta. Morreu sentada. De pernas cruzadas.
O mudo ficou. Rico. E assim que se desfez o luto, anunciou no mesmo semanário onde Lourdes o encontrou:
"Procura-se mulher com mais de 80 anos, boa aparência, dentição completa e alfabetizada para compromisso imediato".
Belmiro M. (de mudo)

quarta-feira, setembro 23, 2009

Ira

Foto: Maria Antonia Demasi















Como uma mola
De banco de carro
Que a cada curva
Range

Como o dono do carro
Que ignora o defeito e
Considera mola ranger
Normal

Assim
Vou descendo a serra
Afundada meio ao ranger
De molas e
Dentes

sábado, setembro 12, 2009

Identidade

Foto: Maria Antonia Demasi



















Ele disse
Você é um pêndulo
Eu pensei
Que imagem linda
Que vai
Que vem

Oscilei
Imaginando
Com que regularidade
Esse movimento pendente
Denunciava
Insanidade

No vaivém
Das ondas mentais
Fiquei sem rumo
Fora do prumo
Dormi de roupa
Pura ansiedade

Ainda assim
Sorrio
Sozinha
Quando penso ser
Pêndulo
Minha mais nova
Identidade

quinta-feira, setembro 10, 2009

O retorno de Madame Mim

Foto: Maria Antonia Demasi

O mundo é tarja preta, uma caixinha de papelão entulhada de comprimidos brancos presos a cápsulas de plástico que, pressionadas – pressionados que somos por soluções práticas – eclodem vitoriosos.
Encoste a barriga no balcão da farmácia que mais parece uma padaria tamanha alegria! que o cliente vivencia ao ver que a receita está completa e as duas vias, corretas. E tudo fica ainda melhor, se acrescido o fato do atendente discreto evitar te encarar frente a frente com cara de quem está te achando tão doente...
E um dia quem sabe, você se encha de forças e declare exultante: parei com essa droga! daqui por diante, só um relaxante.
Muita gente sabe que esse dia chega, enfim.
Aproveite!
Mas saiba que não é simples assim.
Você em breve voltará para o mundo tarja preta, o mundo da Madame Mim.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Lado direito

Foto: Maria Antonia Demasi














Meu lado direito
Parou
Parado
Assustado

Revoltado
Começou a dar provas
De absoluta autonomia

Gemia
De desconforto
E pavor
De que todo meu lado direito
Estivesse morto

Aos poucos percebi
Que não poderia
Subjugá-lo
Seguiria assim
Torto

Escorriam os dias
E eu
Fingia que não sabia
Que meu lado direito
A cada dia
Me definia

Quando finalmente
Aceitei tamanha
Fatalidade
Percebi que de nada valia
O lado direito reto
Se o resto do corpo
Morto

quinta-feira, setembro 03, 2009

Asilo

Foto: Maria Antonia Demasi

Quando menina, de cabelo loiro e escorrido, me acostumaram a um passeio delicado.
Íamos a um asilo visitar o Tio Cleso.
Ele era o irmão de minha avó. O irmão que aos sete anos teve meningite e parou no tempo. Beirando os 70, era uma criança simpática, educada, inteligente e surda.
Ele, um homem grande, bonito e parado no tempo.
Eu, uma menina pequena, bonita, que corria com o tempo.
Uma vez por semana. Essa era a frequência de nossas visitas. Íamos de ônibus, cheias de sacolas cheias de doces, frutas, roupa de cama limpa e jornais velhos.
Tio Cleso era um homem bem informado. O fato dos jornais trazerem notícias com uma semana de atraso, não era um problema.
Ele se ocupava por horas a fio lendo e comentando cada uma delas com os colegas e funcionários do asilo. Aprendeu a ler antes de a doença o atingir e depois, aprimorou sua escrita. Orgulhava-se de escrever rápido e corretamente de trás para frente.
Nossa chegada ao asilo era um evento, uma farra. Quando nos avistava descendo a alameda de entrada, vinha ao nosso encontro falando, cantando marchinhas sem ritmo e, ao mesmo tempo, fazendo peripécias com as mãos grandes de dedos finos.
Falava meu nome alto, como que anunciando uma ilustre convidada e abraçava desajeitadamente a irmã enquanto tirava as sacolas de suas mãos.
Esperar minha avó fazer a limpeza e arrumação do quarto era uma delícia.
Ficava conversando com vários senhores, sentados em roda, me deixando no centro de suas cadeiras e por apenas minutos, no centro de suas vidas.
Tinha ali um velho que eu adorava. O Seu Carlos. Inteligente. Bom. É isso que me lembro dele. Sempre tinha algo pra me contar e eu pra ouvir. Até a hora que minha avó me chamava pra dentro.
Entrar no corredor que levava ao quarto era a preparação para o quarto em si. O cheiro de xixi era forte e pesado, mas ao vencer esses 10 ou 12 metros, chegava ao quarto firme e pronta pra lá ficar.
Tio Cleso era um colecionador, hoje sei. Colecionava o que a vida lhe dava, usando um especial critério que definia o que era bom ou não. E o critério dele era bastante elástico. Útil e desejável poderia ser um elástico mesmo.
Quando minha avó abria a porta do armário e sua vasta coleção despencava no chão, sentia uma mistura de constrangimento e responsabilidade.
Ficava constrangida por ela disparar palavras duras, ralhar com o irmão, fazer acusações que iam de apropriação indébita passando por manutenção em cativeiro de pequenos insetos, e não raro tinha a arrogância de lançar dúvidas sobre a qualidade dos objetos colecionados.
E não tinha choro nem vela. Catava o que não passava por seu crivo estético e utilitário e jogava fora. Ele ficava uma fera. Ele era sim um velho-criança, mas bobo não e sabia que aquilo era uma invasão de privacidade.
Mas eu achava muita graça daquela cena protagonizada por dois irmãos-crianças. Naqueles momentos, era a adulta que apartava a briga, contemporizava colocando de volta no armário os itens que conseguia tirar do foco de minha avó e depois da coisa toda acalmar, pegava o tio pela mão e saia para dar uma volta.
Eram voltas pelo asilo. Uma vez me levou à parte pobre. Muito pobre. Onde o cheiro de xixi ganhava a área externa do pavilhão e atingia quem passava por perto.
Ali via o que deveria ser invisível para a menina loira e boazinha. Vi tudo em preto e branco.
E ele, como um tio convencional que precisa proteger a sobrinha, apressava o passo meio avexado, e me tirava dali.
Obedecia ao seu comando, mas virava o pescoço até não mais poder para poder ver. Vi tanto e com tanta dor, que nunca me esqueci.
Na descida para a ala em que morava, ia catando coisas no chão. Tudo. Nada.
Coletava para poder rapidamente preencher o vazio de sentidos que a irmã lhe impusera roubando, isso mesmo, roubando pedaços de suas horas, seus dias, sua vida.
Ele era uma figura elegante. Quando usava calça e paletó brancos de linho, era um evento. Fazia charme pra todos e todas.
Uma vez pediu pra minha avó uma camisa vermelha. Ela nem deu tempo para ele argumentar e lançou um sonoro não!
Disse que jamais o deixaria passar ridículo, que um homem naquela idade não usava vermelho, que ele não era palhaço. Disse. E ele calou . Mas a estória da camisa vermelha pulou o muro do asilo e ganhou a família inteira.
Minha mãe, que tinha um carinho genuíno pelo tio de seu marido, atravessou a autoridade da sogra e deu para o Tio Cleso a tal camisa vermelha. Foi uma alegria. Ele ria sozinho e minha avó cedeu feliz por outra pessoa fazer o que desejava, mas que de seu lugar de guardiã, não poderia permitir.
Edit, a irmã do Cleso, sogra da Regina, avó da Maria Antonia amava de um jeito particular o irmão. Por A mais B ficou para ela a missão de zelar por Cleso, apesar de ter mais dez irmãs.
Lutou para o marido aceitá-lo em temporadas estratégicas e necessárias em sua casa, o fez entender que as “bobajadas” que falava deviam ser relevadas afinal, “era uma criança grande” .
E assim numa luta de vida inteira foi a melhor e mais amorosa amiga que Cleso poderia e merecia ter.
E eu fui a Toninha. A neta da Edit que aprendeu a velhice com o tio avô-criança.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Nossas palavras

Foto: Maria Antonia Demasi



















A moça dos dentes
Lindos e brancos

Leu
A moça dos
Cabelos de cachos

E por terem as duas
Tantos cachos
Armou-se um emaranhado

De pensar
De reconhecer
Erráticos

Então a moça dos dentes brancos
Escreveu
Para mim

"Por um momento pensei: "não vou dizer." Dizer enfim. Por um momento. Que fossem pra mim. Mas no final. Afinal não me reconheço. Suas palavras não foram pra mim! Por um momento ousei. Senti a alegria guardada. Enrolada em meus cachos E são tantos cachos... Mas a risada... um espetáculo? Talvez. Você é mesmo exagerada. Exagerada de achares e dizeres. Exageradésima! Pensamento em beleza. Bem que transformo. Abri um sorriso e pensei de novo: "são para mim!". Sobretudo as cores. Mas quando entraram as confusões, os destemperos, pulsação e transbordamento. Novamente me desreconheci. Não que não os tenha. Mas estão tão bem guardados que não é possível que os houvesse visto, reconhecido, classificado e anunciado! Será? Você me conhece tão bem... Coisa de santo. Aaah isso é e sempre foi. Coisa de santo. Se terminassem aí suas palavras. Teriam sido pra mim! Mas no final. Não uso lenço e nunca te disse do orgulho que sinto por você. Deveria ter dito. Eu sinto. Mas lenço? Não, não foram pra mim..." B.L.

Então
Mais uma vez
Então
Vou contar dessa moça

Ela tem nome
De música
De filha
De alegria

Ai...
Mas a moça dos cachos também

Ela tem o silêncio
Mais barulhento
Que uma alma
Inquieta
Pode ter

As mãos que agora
Andam e se mexem
Coloridas
Dizem sim para o belo
Cli clic clic

Ai...mas a moça dos cachos também

Na minha folhinha
Que é grande e
Atrapalhada
Lá está ela
Achando graça de minha braveza
Escancarada

Só que
A moça dos dentes mais brancos
Se esqueceu
Ela já disse de seu orgulho
Do meu eu

E se a moça dos cachos
E se a moça dos dentes mais brancos
E se a moça que escreve das moças
Estão assim a se confundir

É porque
Não tem distância entre elas
Tem a proximidade
Do existir

terça-feira, setembro 01, 2009

Pretérito

Foto: Maria Antonia Demasi













Ela guardava a alegria
Enrolada em cachos
E eram tantos cachos

Tinha um depósito dessa preciosa matéria
Dentro de seus pulmões
Sua risada era um espetáculo
Pelo qual aguardava ansiosa

Nas mãos
Escondia um número especial
Transformava pensamento
Em beleza

Nunca vi ninguém conseguir fazer o que fazia
Não precisava
Bastava assistí-la
E sentir-se dona do belo

Gostava de ter pedaços dela em minha vida
Cores. Confusões. Destemperos.
Tudo nela pulsava
Às vezes transbordava

Tantos anos assim
Já não posso
Virar a folhinha da minha vida
Sem ter uma página
Só para ela

Coisa de Santo
Que a religião que um dia teve
Não considerava

E agora me pego dizendo no passado

Justo no dia
Em que percebi
Que ela de lenço
Sem cachos
Vive outro tipo de felicidade

Justo no dia em que ela
Com as mãos de mágica
Segurou as minhas
Para contar seu orgulho
De mim

Do justo
Tamanho
De nós

sexta-feira, agosto 28, 2009

Posturas

Foto: Maria Antonia Demasi



















Jogava o corpo para trás
E a existência
Para frente

Na dúvida
Segurava a vida pelas ancas
Com as duas mãos
Com os dois braços

No rosto
O maior vão do buraco
Do mundo

Quando os outros
Não conseguiam fazê-lo entender
A vida ou detalhes técnicos dela
Falavam alto
E ele
Ouvia baixo

Quando não entendia absolutamente nada
Parava
Aprumava as ancas
E esperava
Os outros

E de tanto seguir
Nesse sacolejo frouxo
De existir
Encostado em si mesmo
Um dia desancou
E caiu

domingo, agosto 23, 2009

101 anos

Foto: Maria Antonia Demasi

Sei que hoje é seu aniversário. Sei que penso muito em você. Tenho pensado nas suas casas. Nossas casas. Foram muitos anos escondida no aconchego de seus cantos. Vem o cheiro de sua cozinha. O chamado do seu café de bule. De tarde. Já no entardecer de sua vida. Vem o cheiro de porão. De passar. De costurar. Roupa. Nossas roupas. Agora minhas. Que você descosturou. E me deu. E eu fiquei aqui. Abrindo saco. Juntando trapos. Tentando reconstruir nossa estória. E agora, exatamente agora. Eu que pensava não ter saudades. Encharco o teclado. Ardo meus olhos
E te vejo.
No lado de fora.
De sua última casa.
Me esperando chegar. Chegarei vó. Não sei se chegarei logo. Mas chegarei.
Por hoje. Penso em você assim. Perto de mim.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Poeta nua

Foto: Maria Antonia Demasi














"Poeta nua"
Não fui eu quem disse
Disseram
E com tanto diz que me diz
Cá estou eu a desvendar
Tamanha esquisitice

Se escrevo acreditando só eu entender
Me surpreendo a cada esquina
Olhares e meninas
Tentando me descrever

Se ao contrário
Escancaro minha comportada loucura
Sou acusada de expor um sofrer
Que pouca
Pouquíssima gente procura

Leitores conhecidos
São investigadores de meu ser
Leitores anônimos
Procuram e procuram finalmente, me ver

Não me mostro
Finjo que mostro
Não me conto
Blefo que conto

E assim
No que escrevo
Com nomes de sei lá o que
Deixo pra trás tanto assunto
Que seria melhor até
Parar de escrever

domingo, agosto 16, 2009

A moça que fotografa a vida

Foto: Maria Antonia Demasi















A moça que fotografou
A outra moça distraída
Sempre soube que por aquela cabeça
Passavam histórias bem doídas

Mas quem fotografa assim
Quase displicentemente
Leva a vida e a dor do outro
De modo bem diferente

Se é pra clicar
Que clique
Se é pra fazer
Que faça

Sem ensaios de bons ângulos
Sem demora pra decidir
Assim fazendo
Assim vivendo

E depois que fotografado for
E depois que vivido também
A moça que fotografa
Fica numa alegria que só faz bem

sábado, agosto 08, 2009

Ledice

Foto: Maria Antonia Demasi



















Leda sempre me pergunta
Se sou eu mesma
Que sofro
Quando escrevo

Digo que
Digo

Ledo engano Leda
Pensar que aludir vidas alheias
Traz sofrimento
A quem ousa fazer seu o que é nosso

quinta-feira, julho 30, 2009

Já deu

Foto: Maria Antonia Demasi














Toda vez que chego ao fundo do poço
acho que meu mundo vai se acabar.

O buraco é fundo
acabou-se o mundo.

Já cheguei tantas
tantas vezes a esse tal de fundo de buraco
e ainda estou aqui, nesse mundo.

O buraco é fundo
acabou-se o mundo.

Mas o meu mundo se acaba a cada queda.
Antes acreditava que fosse um acabar definitivo.
Acabar acabado.

Mas não.
É um arremedo de acabar.
Arremedo preparatório para o fim.

E assim a cada queda
a cada encontro com o fundo,
emerjo, pasmem!
mais morta.

quinta-feira, julho 16, 2009

Palavras em fuga

Foto: Maria Antonia Demasi














Elas, as palavras
saíram tão rápidas
tão firmes.
Tão tão.

Encontraram o branco

se esparramaram.
Ganharam corpos
tão fortes.
Tão tão.


Foram com meu clique
para o mundo.
Se assustaram.
Se perderam.
Não não.

Então assustada
gritei.
Coloquem-se!
Emendem-se!
Grito mudo.
Vão vão.

sexta-feira, julho 10, 2009

Testemunhas

Foto: Maria Antonia Demasi



















Esses cachorros que andam por aí.
Por aqui.
Perdidos.
Ávidos por olhares mancos.

Esses dessa natureza me arrebatam.
Já não fui assim
.
Era dura
.
Pra cachorros e pra meninos perdidos.


Amoleci pra vida.
Cansei de usar coleira.
De encoleirar o outro.
Cansei de cansar.

Agora confesso a todos
(cachorros e meninos perdidos).
Que amoleci.
Que entreguei.

E eles
(cachorros e meninos perdidos)
Sabem.
Agora sabem.

Que demorou.
Mas amoleci.

terça-feira, julho 07, 2009

Já sei

Foto: Maria Antonia Demasi




















Ele era branco
da brancura da morte.
Do tamanho
quase do tamanho do balcão de doces da padaria.

Juntos mãe e menino
tateavam.
A vida
e o balcão de vidro.

Só vi o verso.
Roupa de menino.
Cabeça com poucos fios.
Cabelos e meninice roubados.

Pela dor
de gente grande.

Usava boné
mas a cicatriz era maior.
Grande
vinha da cabeça e atacava a nuca.

No pescoço
uma fitinha amarela.
E os dedos
amarelos e quebradiços.

A mãe só carinhava.
Quando ouviu "próximo"
abaixou-se e perguntou:
o que você quer?

Pergunta dura
que me jogou pro canto

Entendeu chocolate.
e pediu mais.
Pro menino se encher de doce
e valer a pena estar ali.

Quando o menino virou-se
Parecia buscar na memória de sua breve vida
(eram apenas nove anos)
O b-a-bá do andar

Seguiu.
Com a mãe atrás.
Perto do carro ela o deixou
apertada.

Era preciso que ele entrasse no carro.
Que ele sentasse
se ajeitasse.
E que na impossibilidade, seguisse.

Conseguiu.
Mas eu não.

Não consegui não chegar bem perto
E não dizer.
Dizer
que ele estava indo muito bem.

Me fiz de seu tamanho
e fiquei de seu tamanho.
E vi.
O menino estava torto.

Como tantas vezes sou torta.
Como tantas vezes sou retorcida.

Era o lado direito.
Boca.
Olhos.
E óculos pra acompanhar esse desalinho de vida.

Pra que esses olhos tão grandes?
Grandes.
Verde amarelados.
Limão tirado do pé antes da hora.

Ardem
Queimam.

Pra dizer Ariel
nome que tanto demorei pra entender
passou o dedinho pela fitinha amarela
e apertou a garganta.

Mentira.
Não era a garganta.
Era um pino de aço
no meio da garganta.

E então ele riu.
De mim.

E dos cavalos que saltaram de minha cabeça.
Invadiram meu apartamento.
Ganharam uma fazenda.
De tanto que meu Branco gosta deles.

E dos nomes possíveis.
Para seus cavalos.
Para seu amanhã.
Falcão, Moreno...

E de dentro dele
um som
um barulho
e uma revelação.

Riu
e expulsou de dentro de sua dor
o nome de seu cavalo.
Que eu esqueci.

Rimos mais.
E precisamos nos tocar.
Minha mão
e a mão amarela do menino.

Vida e morte.
Juntas.
Vontade de viver
minha e dele.

Agora sei.
Sei.
Sei.

quarta-feira, julho 01, 2009

Esse hábito de sofrer que tanto me diverte

Fotomontagem: Maria Antonia Demasi



















Aquela Tonha lá
Que botou a cara pra apanhar
Agora sofre
Se retorce
Sem saber quando gritar.

Aquela Tonha lá
Que fica sem graça de falar
De noite rola na cama
Se retorce
Sem saber como se salvar.

Aquela Tonha cá
Que só queria se calar
Ficar quieta e sossegar
Agora se retorce
Sem saber
Sem saber
Sem saber.

sexta-feira, junho 26, 2009

Combinado

Foto: Maria Antonia Demasi

Você acaba de clicar numa pequena palavra - B L O G - e pular para o meu mundo.
Está colocado o dilema.
Se o poeta Mario Quintana estiver certo, você acaba de fugir para a realidade.
Porque poesia é realidade.
Aquela realidade custosa de entender, dura de fazer sentido, mas que gruda na gente.
Você está prestes a entrar num ambiente altamente perigoso.
Milhares de palavras, centenas de parágrafos, infinitas idéias vagando sem pé nem cabeça.
Até que em algum lugar vai esbarrar com você travestido de outro.
Se não atender a mensagem de erro e conseguir fazer aparecer as vinte histórias que contei, você vai se encontrar.
Poderá ser um encontro esquisito. Um encontro rápido. Um encontro para o qual não encontro palavras.
A tentação de dar mais um clique e sumir poderá acontecer.
Mas resista. Ao final será a sua vez de criar uma realidade. Comente. Palpite. Diga o que estiver precisando ser dito e ouvido.
Duvido que minha realidade não possa ser amiga da sua. Só preciso que mostre. É só uma amostra de sua vida.
É um risco, Eu sei. Mas arrisque. Só assim saberás.

terça-feira, junho 23, 2009

Medos divididos

Foto: Maria Antonia Demasi

Beatriz, a moça silenciosa encostada na parede, me disse.
Tenho trinta, e tantos medos.
E o maior deles, que os anos passem e eles não.

Quando já nos quarenta, deitada no sofá da sala,e perguntou:
Você não tem medo?
Não.
Você se esqueceu que me deu coragem?

Foram quarenta anos para sonhar assim.
Não sei quantos mais para entender.

sexta-feira, junho 19, 2009

De repórter para repórter

Foto: Maria Antonia Demasi

Foi enfermeira.
Olhos azuis... Perdidos.
Quando lembra... Lembra que tem Alzheimer.
Não sabe como Fátima entrou em sua vida, em sua casa.
Mas as vizinhas perceberam uma movimentação estranha da moça, pra cima e pra baixo com a senhora.
Denunciaram na promotoria.
Os investigadores começaram a investigar e logo perceberam: Fátima era uma estelionatária.
Quando cheguei, tentei conversar com a Senhora.
Desisti. Não acho correto expor alguém assim. Mas o promotor disse que poderia: ela ainda não foi interditada.
Mas será. Ele vai solicitar que uma das vizinhas seja curadora, para assim poder refazer seus registros junto ao INSS e então controlar, ao menos, a sua vida financeira.
A bandida é uma bandida.
Fria. Fumando displicentemente. Dizendo ter a “consciência limpa”.
Vai pegar de um a cinco anos de cana.
Os funcionários da promotoria que acompanham a movimentação, me disseram que dia sim dia não, aparecem casos assim.
Dia sim dia não, quem a cada dia vai ficando mais frágil, pois mais velho, cada dia também fica mais exposto a um universo de cidadãos que já perdeu o pudor e atacam todos e tudo que garante a dignidade de uma pessoa.
Fiquei muito puta com o que vi.
É isso. Espero que essas informações te ajudem na matéria.

30/03/2006

Coisa de criança

Foto: Maria Antonia Demasi



















Levou o menino de cinco anos pra escola.
Comprou detergente.
Tá indo faxinar a casa.
Uma dona de casa?
Não. Uma menina de nove anos.

Esbarra no menino que vinha das compras.
Fala oi pra quem cuida de um bebê.
Todos eles brincam com trabalho.
Todos machucados.

Zona Norte de São Paulo.
Conjunto de micro apartamentos. Cingapura.
Vizinho colado: favela com esgoto a céu aberto.
Brincadeira segura por aqui, é dentro de casa.

De boneca.
De carrinho de lata.
Ou até de pipa.
Solta pela janela.

Carinhas vão surgindo.
Uma, outra, mais uma.
Carinhas atrás das grades.
Emolduradas.

Reféns da vida dura.
Apertados nos apertamentos.
Que saco de vida.
Feita pra durar até crescerem.

Longe do cheiro do posto de reciclagem.
Que cheira mal.
Que vaza sujeira pra fora dos limites dos portões.
Que deixa água podre escorrer pela sarjeta.

Medo escondido.
Toque de recolher.
Tráfico de drogas.
Gente pequena levando vida aprisionada de gente grande.

segunda-feira, junho 08, 2009

Mais uma vez


Foto: Maria Antonia Demasi



















São só algumas horas.

Que separam
Que nos separam.

São só algumas palavras
Que me deixam continuar
Ou que avisam
Que novamente podemos nos separar.

E na espera, o medo
Vestido de gala
Risonho
Irônico.

Quando tudo terminar
A espera e o medo
Vão ficar de castigo.

No mesmo escuro que fiquei
No mesmo tempo suspenso que experimentei
No mesmo buraco escuro do fim.

sexta-feira, junho 05, 2009

Simonal

Foto: Maria Antonia Demasi



















Acabou.

Dei de cara com uma mulher encostada na parede acarpetada da sala de exibição bacana.
Ela dançava. E acompanhada. Da vassoura que ia pra lá e pra cá com ela.
E a sacudida vestia azul. Uniforme azul de faxineira.
E cantava junto.

Levantei, grudei nela e perguntei:
E aí, já assistiu?
Só pedaços, cê sabe entro e saio, fico só bicando. Mas o cara é bom, sei todas as músicas dele...
Olhamos as duas pra telona onde rodavam muitos e muitos nomes.
Que ela não conhece. Nem eu. Mas a gente olha. Dançando. As duas.

Ela que viu pedaços do documentário.
Eu que sabia só pedaços da vida do cara.
Nós que na hora de falar "tchau", concordamos: o cara deu azar, mas era foda!
Ela partiu pra limpeza animada.
Sorte dela que vestia azul poder trabalhar com o Simonal na orelha.
Sorte dele que agora quem sabe, pode ter a sorte mudada.

quinta-feira, junho 04, 2009

Assombro

Foto: Maria Antonia Demasi



















A casa é um espanto.
Casa do espanto.
Declaradamente espantada.

Quem está preso é livre para ver quem está fora.
Quem está fora é convidado a permanecer assim. Fora.

Grades. Oito. Pretas.
Portas de ferro. Duas. Pretas.
Laje suspensa.

Um cachorro. Preto.
Um galo cantando. Fora de hora.

Uma trepadeira de chuchu. Verde.
De costas para o mundo.
Camuflagem do muro azul.

Mais um portão. Preto.
Outro enorme. Definitivo. Preto.

E tem mais.

Um velho pai que chega à casa do espanto.
Uma velha filha que o recebe.
Uma jovem acompanhante que sentencia.
Ele está morrendo.

Espantados.
Voltam todos pra prisão.
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