quinta-feira, abril 30, 2009

Buraco na cama, esparramo da vida















Foto: Maria Antonia Demasi









Quando acordou, confinada no lado esquerdo da cama, pensou: “buraco na cama, esparramo da vida”. Não sabia direito o que significava a frase, mas achou que era perfeita para o que sentia.
Sentia frio porque não estava acostumada a dormir com um buraco no meio da cama. Quando isso acontece, acabava de aprender, encana um vento dolorido pelas frestas do lençol e quem está na boca do buraco acaba tendo o corpo paralisado. Passou a noite dura como na brincadeira infantil “duro ou mole”. Havia sido tocada pela dureza da vida.
Apesar do buraco ser grande, ela conseguia ver o outro. Encolhido como um feto, enrolado num cobertor de silêncio vermelho, parecia também estar paralisado. De costas, só mostrava a cabeça, pequena, cheia de cabelos brancos, a ponta de um cotonete.
O buraco, ela sabia, além de grande, era fundo. “O buraco é fundo, acabou-se o mundo”. Quando criança entoava essa brincadeira e ao final, ficava pensando que tamanho exatamente deveria ser para caber o mundo.
Um dia descobriu o primeiro buraco fundo de sua vida. Foi na camona de seus pais. Teve medo de olhar, na verdade, não daria mesmo para enxergar o fundo. Só sabia que de tão perigoso a mãe resolveu ir dormir na rede da garagem.
Ela então pensou que deveria sair e dormir na sala ou mesmo na cama da filha que já estava na escola.Ficou com medo. Temia deixá-lo sozinho. É que no meio da noite, isso ela bem sabia, costumava se contorcer e às vezes até falar. Só que a voz que ouvia não era dele. Dava medo. Não se entendia uma só palavra. Mas dava medo. “Voz do além”, ela brincava. Voz que enquanto acordado, fazia prisioneira e durante a noite libertava embolada, para aliviar o peso de palavras tão pesadas que carregava no coração.
Decidiu levantar-se. Era melhor ficar sonada do que enjoada na cama. Altura era o ponto fraco da moça. Estar à beira de um buraco a mais de sete horas tinha sido uma experiência e tanto para ela.
Acreditava até então, que a hora de ir para cama era a hora em que automaticamente os buracos se fechavam. Pela força do carinho, da vontade do outro. Mas resignou-se. Não era assim.
Até que demorou para ela entender que quando o buraco é realmente fundo, a vida se esparrama dentro dele e aí parece ser melhor trocar de cama.

segunda-feira, abril 27, 2009

Cometão


Foto: Maria Antonia Demasi

COMETA

De: Campinas

Para: São Paulo

Bilhete: 11 7963

Data de embarque: 04/11/2008

Horário: 18:40



As demais informações contidas na passagem, nesse caso, são desnecessárias.

Assim que saímos da rodoviária, um celular tocou.
“Ah doutor tá tudo certo. Só que eu estou na estrada e hoje não vai dar pra passar aí. Qual que é o endereço? Cásper Líbero? É, não dá. Mas amanhã eu mando uma pessoa de minha confiança, uma funcionária, ir buscar o documento. Isso. Só que tem uma coisa: ela não sabe ler ...pois é, mas é de minha inteira confiança.”

Silêncio. Exclamação com volume e tom de voz aumentados.

“Que é isso doutor! 500 reais pra fazer o documento. Eu sei de sua capacidade, mas eu tenho um apartamento alugado e sei também que os custos dos papéis correm por conta do locador e os valores são bem mais baixos!”

Silêncio estendido. Volta com uma sequência de “hum, hum, há, há” e vai finalizando com visível contrariedade.

“Tudo bem doutor. De nossa parte está tudo combinado. Boa noite e obrigada.”
Final da primeira chamada: acesso a Rodovia dos Bandeirantes.

Ela estava na minha diagonal. Ocupava a poltrona da janelinha e ao seu lado, como no meu caso, o lugar estava vazio. Do meu lugar, só consegui ter uma informação visual daquela mulher: vi a tampa de sua cabeça coberta por uma vasta cabeleira vermelha. Não vermelho Fanta Laranja. Vermelho Fanta Uva.

Segunda chamada.

“Alô!"
Silêncio.
“Como é seu nome? Edna? Eva? Ah! Érica. Então Érica, o apartamento tem 60 metros. 60. Isso. Meia zero. Trezentos."

Levei um susto, quase soltei: “Puta apartamento caro!”
E a mulher, como que tivesse ouvido meus pensamentos, disparou.

“Eu não estou vendendo para pagar dívida, o apartamento é fabuloso, molduras de gesso...” Foi interrompida.Voltou com a voz cheia de ironia
“Não, é claro se você for colocar sete pessoas dentro fica apertado...Ah, mas só você e sua mãe fica ótimo.”

Silêncio. A potencial compradora deve ter perguntado a localização.

“Fica numa rua paralela a rua do Sesc Vila Mariana onde tem também o Multishopping.”

Na hora, quase falei: shopping não, entreposto de carga roubada e falsificada. Combina com o nome do bairro Paraíso...das muambas.

“Se quiser, pode vir hoje.”

Como assim, pensei. A gente vai chegar lá pelas 20:30, com sorte até chegar no imóvel, 21:00. Isso é hora de mostrar apartamento!

Para ela parece que toda hora é hora. Agendado.

Na sequência, sem tempo pra respirar. Toca de novo.

“Alô. Oi André. Tô em Campinas. Beijo”. Flap. Desligou. Típico telefonema de gente dura que não dá pra bancar interurbano de celular.

Quarto telefonema. Dessa vez ela é quem liga.

“Oi Carla. Vou atrasar. Tem gente marcada as 21:15, 21:30, tem gente até às 23:30 para ver o apartamento.”

Incrível. Era um encontro de venda atrás do outro. Não ia dar certo. Tava ficando preocupada com a colega...quase me levantei pra falar pra ela maneirar, ir de leve, afinal, hoje ela já devia estar cansada, o dia foi quente... Mas ela não tinha parada.
Vazio. Foi o celular que parou de tocar. Não sei quanto isso durou, mas foi o suficiente para eu começar a ficar aflita: já não conseguia imaginar essa viagem de 96 quilômetros sem aquela “novelinha rodoviária” de primeira categoria.

Tocou. Era o André de novo.

“Marcar o que, bem?"

(Quase morri: bem?)

“Pode sim. Já tem um outro às 22:30. Você pode vir às 22:00?”

(Meu Deus! Tá encavalando a agenda!)

“O que, bem? Fica sossegado, hoje até meia noite vai ter gente.”

Pra mim foi demais. Como assim? A mulher é uma “workaholic” louca! Não sossega nem no Cometão com ar condicionado, poltronas novas com protetor higiênico de encosto de cabeça, cinto de segurança funcionando, motor silencioso...
Aí louca fiquei eu. Não agüentei. Precisava ver a cara da loucura. Disfarcei, me levante.
Caramba! Ela era mais nova do que eu pensava, devia ter uns 45. E ainda por cima, tinha certeza de que o cabelo era curto, mas não era: era vermelho fanta uva longo. Mas o difícil foi encarar os pés que além de feios calçavam uma sandália feia e as unhas eram pintadas de uma cor indecifrável-cintilante. Osso. Eu já tava achando ela fina e chic. Os telefonemas enganam, aprendi.

Chamada. Voltei para meu lugar e de relance vi em seu colo uma agenda de telefone à moda antiga: de papel, gorda, suja, velha e lotada.

“Alô. Ida. Não, IDA. Não, com I. Ida. Isso."

(finalmente descobri o nome dela: IDA. Curto e grosso, como ela.)

“Quem é?”
Silêncio
“É que com a crise não tem o que vender e quando aparece um...quem tem imóvel não quer vender. Mas deixa eu entender: você é corretora ou particular?"

(Foi então que descobri que minha colega de viagem dividia o mundo entre corretores e particulares. Essa era corretora.)

“Ah ...então você sabe como é: os que tem interesse eu seguro, os que eu vejo que não, dispenso na hora!Eu te espero então. Até meia noite, é hoje!”

Momento de tensão. Essa doida iria atender até de madrugada? Será que o Sindicato dos Corretores permite essa jornada de trabalho? Não seria um caso típico de concorrência desleal?
Meu Deus! Minha viagem estava se transformando numa transação imobiliária virtual! Até agora, vejamos: seis contatos telefônicos.
Já estava preparada para o próximo. Mas não veio. E quando Ida percebeu que o silêncio havia chegado, levantou-se e desorientada, perguntou ao motorista:

“Onde estamos?”
“Chegando.”
“Mas falta quanto?”
“Depende do trânsito na Marginal.”
“Preciso parar numa estação de metrô.”
“Acho então melhor a senhora descer na rodoviária”.

Ida voltou para seu lugar meio que frustrada. Talvez a idéia do trabalho que seria chegar até o apartamento tivesse impactado aquela “fortaleza imobiliária”.
Sentou-se e começou a metodicamente, alisar e dobrar dois sacos plásticos. Ao final, deu um grande suspiro e balbuciou:

“Ah... Jesus, Jesus.”

Meu Deus! Assim reagi, invocando a mesma levada religiosa da colega. Isso não poderia estar acontecendo. Aquela que estava quase sendo eleita meu paradigma de mulher sacudida, tinha “jogado a toalha” já na boca da Marginal! “Reage Ida”, foi o que quase gritei do meu lugar. Mas não teve reação e ela bufou novamente.

“Ah...Jesus, Jesus”.

E calou-se. Não mais chamadas, telefonemas. Só ouvi o barulho seco da agenda se fechando.Minha parada estava chegando. Me levantei, olhei para ela na esperança de poder dar um sorrisinho amigo. Não deu. Estava absorta olhando, triste para o seu celular. Mudo.

quinta-feira, abril 23, 2009

Escritos Ex-ditos

Foto: Maria Antonia Demasi

Já escrevi muitos livros.
Todos na minha cabeça.
Por esse método, fica difícil contabilizar quantos, ou quantas páginas.
Acontece que escrevendo assim, toda minha obra se perdeu. E olha que é, ou melhor dizendo, foi, uma produção e tanto.
Que se perdeu. Eu me perdi. Eu na verdade nunca me achei.
Mas acabo de achar, por exemplo, uma letra adequada para transferir meu alfabeto mental para o papel.
Mesmo assim, olho e acho fora do lugar, fake, não sinto que as palavras estejam à vontade. Melhor é claro, do que se estivessem com aquelas letrinhas desunidas. Isso. Esse tipo pretensioso de letra também é um pouco irritante.
Sempre quis escrever com caneta. Caneta tinteiro. Caneta tinteiro do meu pai. Acontece que sempre que conseguia chegar até ela havia um problema.
Seca, vazando, bico entortado... Precisa de uma recauchutagem geral. Ok. Fazia. E não pegava mais nela por anos. Ficava lá de enfeite. Diga-se de passagem, um objeto lindo, cheio de charme e elegância.
Fica no armarinho de perfumes do meu quarto. Não uso nem os perfumes, nem a caneta. Pelo menos aí, certa coerência. Não faço nada com as coisas que estão à minha disposição. As desejo, as tenho e não consigo me apropriar delas.
Mas a natureza “coisa” tem a vantagem de não fugir de mim : trava, fica a minha espera. A minha espera.
Eu também espero.
Uma vez, era pequena. Pequena e cheia de grandes confusões. Lá em casa roupa rasgada, sem botão, barra por fazer e todos os etc desse universo doméstico, não tinham vez.
Minha mãe dava conta de um tanto e a Dona Maria de outro.
Dona Maria era uma mulher de não sei quantos anos que costurava em casa. Gostava dela. Ela gostava de mim. Genuinamente.
Ela tinha um cheiro de Dona Maria que não me esqueço jamais. Dona Maria era baixinha, arrumada e negra.
Um dia, entre tantos dias que ela ia para minha casa costurar, depois de provavelmente mais um saracotico meu, ela do alto de sua condição profética me disse:
“Eu tenho certeza de que você vai encontra alguém na sua vida, provavelmente um italiano, junto com quem vai conhecer o mundo e ser muito feliz com ele.”
Acreditei na hora, fiquei confortada e por aquele momento ela conseguiu aplacar minha fúria. Ela sempre entendeu o furacão que agitava minha cabeça e na simplicidade de seu mundo garantiu que eu iria longe. Eu acreditei. E fui longe. Encontrei um italiano. De quarta geração. Mas encontrei.
Acontece que continuo achando que não fui a lugar algum. E continuo esperando.
Sempre assim: espero, chega alguma coisa, vivo a coisa, abandono a coisa e espero mais uma vez, a coisa.
44.
47.
Números mágicos.
O primeiro, de agora.
O segundo, de depois.
Não sei depois de aqui, antes da onde.
Acordo na madrugada, suando e pensando neles.
Então sofro aos 44 e imagino os 47.
Exercício cruel. Preciso voltar a dormir.
Acordo e só penso que bom seria se pudesse dormir até à hora de dormir de novo. Não dá.
Acordo e fico esperando pela hora de dormir. Dormir abraçada com ele. Descanso. Tá tudo certo.
Agora choro. Nem sei bem o por que.
Não queria que fosse assim.
Vamos a verdade das coisas: sou alguém que vive a vida através da intensidade dos pensamentos.
Penso, e penso e penso. E olha que penso bem. Mas só penso. Não consigo sair do pensar.
Aliás, estou pensando agora que isso parece, ou é, estória de depressivo. Sou uma versão disso.
Teste vocacional.
Solução enviada pelo correio em pacote de presente.
Final feliz. E rápido.
Mas não é assim que funciona.
Gosto de organizar.
Arrumo armários como ninguém. E tenho orgulho disso.
Minha irmã está em Campinas me esperando para arrumar o armário dela.
Isso é motivo de orgulho para mim.
Houve um tempo em que os armários da Ana, eram motivo de orgulho de minha mãe e uma inveja despeitada de minha parte.
Hoje ela não consegue arrumar nada. Está imersa na vida real, tentando arrumá-la. Tendo que organizar seus pensamentos, amores e dores.
Nenhuma de nós contabiliza sucesso. Mas seguimos. Eu preciso dela e ela de mim.
Sabemos de nossos limites e gritamos pela outra quando estamos prestes a vazar.
Tão iguais.
Mas os seus cabelos...quanta diferença!
As costas doem, a bunda arde, as banhas aumentam, o cansaço não dá trégua, mas os cabelos...
Ah...esses voltaram a ser lisos, sedosos.
Às vezes é assim: o que eu consigo dar, são coisas. Coisas que fazem sentido.
Coisas necessárias. Coisas que julgo terem condição de amenizar o tranco.
E acerto. Acertei com os cabelos. Aplaquei a revolta dos cachos. Coloquei todos os fios nos seus devidos lugares.
Assim ela faz comigo. Preciso das palavras que vem do coração e das frágeis certezas que cultiva e que num futuro breve serão passado.
Estamos nós duas com medo.
Estou a mais tempo com medo. Porque vi antes as cores e as sombras do amanhã.
40.
Esse é o número dela.
Que vem chegando. Ela, encurvando. Permeia momentos em que o corpo fica arriado e momentos de saltos quase atléticos. Mas está pesado. Ela está pesada.
Quer perder peso. Quer não carregar peso. Quer se livra da dor desnecessária.
Mas está grudada nela. Grudada em mim.
Agora dei pra fechar as mãos em forma de pãozinho. Horror. Repito meu pai. Meu pai, minha irmã e eu.
Travamos.
Travados.
Não quero. Abro a mão cheia de raiva. A mão dói. Fico brava.
E com saudades de meu pai.

29 de maio de 2008 / quinta feira
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