segunda-feira, abril 27, 2009

Cometão


Foto: Maria Antonia Demasi

COMETA

De: Campinas

Para: São Paulo

Bilhete: 11 7963

Data de embarque: 04/11/2008

Horário: 18:40



As demais informações contidas na passagem, nesse caso, são desnecessárias.

Assim que saímos da rodoviária, um celular tocou.
“Ah doutor tá tudo certo. Só que eu estou na estrada e hoje não vai dar pra passar aí. Qual que é o endereço? Cásper Líbero? É, não dá. Mas amanhã eu mando uma pessoa de minha confiança, uma funcionária, ir buscar o documento. Isso. Só que tem uma coisa: ela não sabe ler ...pois é, mas é de minha inteira confiança.”

Silêncio. Exclamação com volume e tom de voz aumentados.

“Que é isso doutor! 500 reais pra fazer o documento. Eu sei de sua capacidade, mas eu tenho um apartamento alugado e sei também que os custos dos papéis correm por conta do locador e os valores são bem mais baixos!”

Silêncio estendido. Volta com uma sequência de “hum, hum, há, há” e vai finalizando com visível contrariedade.

“Tudo bem doutor. De nossa parte está tudo combinado. Boa noite e obrigada.”
Final da primeira chamada: acesso a Rodovia dos Bandeirantes.

Ela estava na minha diagonal. Ocupava a poltrona da janelinha e ao seu lado, como no meu caso, o lugar estava vazio. Do meu lugar, só consegui ter uma informação visual daquela mulher: vi a tampa de sua cabeça coberta por uma vasta cabeleira vermelha. Não vermelho Fanta Laranja. Vermelho Fanta Uva.

Segunda chamada.

“Alô!"
Silêncio.
“Como é seu nome? Edna? Eva? Ah! Érica. Então Érica, o apartamento tem 60 metros. 60. Isso. Meia zero. Trezentos."

Levei um susto, quase soltei: “Puta apartamento caro!”
E a mulher, como que tivesse ouvido meus pensamentos, disparou.

“Eu não estou vendendo para pagar dívida, o apartamento é fabuloso, molduras de gesso...” Foi interrompida.Voltou com a voz cheia de ironia
“Não, é claro se você for colocar sete pessoas dentro fica apertado...Ah, mas só você e sua mãe fica ótimo.”

Silêncio. A potencial compradora deve ter perguntado a localização.

“Fica numa rua paralela a rua do Sesc Vila Mariana onde tem também o Multishopping.”

Na hora, quase falei: shopping não, entreposto de carga roubada e falsificada. Combina com o nome do bairro Paraíso...das muambas.

“Se quiser, pode vir hoje.”

Como assim, pensei. A gente vai chegar lá pelas 20:30, com sorte até chegar no imóvel, 21:00. Isso é hora de mostrar apartamento!

Para ela parece que toda hora é hora. Agendado.

Na sequência, sem tempo pra respirar. Toca de novo.

“Alô. Oi André. Tô em Campinas. Beijo”. Flap. Desligou. Típico telefonema de gente dura que não dá pra bancar interurbano de celular.

Quarto telefonema. Dessa vez ela é quem liga.

“Oi Carla. Vou atrasar. Tem gente marcada as 21:15, 21:30, tem gente até às 23:30 para ver o apartamento.”

Incrível. Era um encontro de venda atrás do outro. Não ia dar certo. Tava ficando preocupada com a colega...quase me levantei pra falar pra ela maneirar, ir de leve, afinal, hoje ela já devia estar cansada, o dia foi quente... Mas ela não tinha parada.
Vazio. Foi o celular que parou de tocar. Não sei quanto isso durou, mas foi o suficiente para eu começar a ficar aflita: já não conseguia imaginar essa viagem de 96 quilômetros sem aquela “novelinha rodoviária” de primeira categoria.

Tocou. Era o André de novo.

“Marcar o que, bem?"

(Quase morri: bem?)

“Pode sim. Já tem um outro às 22:30. Você pode vir às 22:00?”

(Meu Deus! Tá encavalando a agenda!)

“O que, bem? Fica sossegado, hoje até meia noite vai ter gente.”

Pra mim foi demais. Como assim? A mulher é uma “workaholic” louca! Não sossega nem no Cometão com ar condicionado, poltronas novas com protetor higiênico de encosto de cabeça, cinto de segurança funcionando, motor silencioso...
Aí louca fiquei eu. Não agüentei. Precisava ver a cara da loucura. Disfarcei, me levante.
Caramba! Ela era mais nova do que eu pensava, devia ter uns 45. E ainda por cima, tinha certeza de que o cabelo era curto, mas não era: era vermelho fanta uva longo. Mas o difícil foi encarar os pés que além de feios calçavam uma sandália feia e as unhas eram pintadas de uma cor indecifrável-cintilante. Osso. Eu já tava achando ela fina e chic. Os telefonemas enganam, aprendi.

Chamada. Voltei para meu lugar e de relance vi em seu colo uma agenda de telefone à moda antiga: de papel, gorda, suja, velha e lotada.

“Alô. Ida. Não, IDA. Não, com I. Ida. Isso."

(finalmente descobri o nome dela: IDA. Curto e grosso, como ela.)

“Quem é?”
Silêncio
“É que com a crise não tem o que vender e quando aparece um...quem tem imóvel não quer vender. Mas deixa eu entender: você é corretora ou particular?"

(Foi então que descobri que minha colega de viagem dividia o mundo entre corretores e particulares. Essa era corretora.)

“Ah ...então você sabe como é: os que tem interesse eu seguro, os que eu vejo que não, dispenso na hora!Eu te espero então. Até meia noite, é hoje!”

Momento de tensão. Essa doida iria atender até de madrugada? Será que o Sindicato dos Corretores permite essa jornada de trabalho? Não seria um caso típico de concorrência desleal?
Meu Deus! Minha viagem estava se transformando numa transação imobiliária virtual! Até agora, vejamos: seis contatos telefônicos.
Já estava preparada para o próximo. Mas não veio. E quando Ida percebeu que o silêncio havia chegado, levantou-se e desorientada, perguntou ao motorista:

“Onde estamos?”
“Chegando.”
“Mas falta quanto?”
“Depende do trânsito na Marginal.”
“Preciso parar numa estação de metrô.”
“Acho então melhor a senhora descer na rodoviária”.

Ida voltou para seu lugar meio que frustrada. Talvez a idéia do trabalho que seria chegar até o apartamento tivesse impactado aquela “fortaleza imobiliária”.
Sentou-se e começou a metodicamente, alisar e dobrar dois sacos plásticos. Ao final, deu um grande suspiro e balbuciou:

“Ah... Jesus, Jesus.”

Meu Deus! Assim reagi, invocando a mesma levada religiosa da colega. Isso não poderia estar acontecendo. Aquela que estava quase sendo eleita meu paradigma de mulher sacudida, tinha “jogado a toalha” já na boca da Marginal! “Reage Ida”, foi o que quase gritei do meu lugar. Mas não teve reação e ela bufou novamente.

“Ah...Jesus, Jesus”.

E calou-se. Não mais chamadas, telefonemas. Só ouvi o barulho seco da agenda se fechando.Minha parada estava chegando. Me levantei, olhei para ela na esperança de poder dar um sorrisinho amigo. Não deu. Estava absorta olhando, triste para o seu celular. Mudo.

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