quinta-feira, abril 23, 2009

Escritos Ex-ditos

Foto: Maria Antonia Demasi

Já escrevi muitos livros.
Todos na minha cabeça.
Por esse método, fica difícil contabilizar quantos, ou quantas páginas.
Acontece que escrevendo assim, toda minha obra se perdeu. E olha que é, ou melhor dizendo, foi, uma produção e tanto.
Que se perdeu. Eu me perdi. Eu na verdade nunca me achei.
Mas acabo de achar, por exemplo, uma letra adequada para transferir meu alfabeto mental para o papel.
Mesmo assim, olho e acho fora do lugar, fake, não sinto que as palavras estejam à vontade. Melhor é claro, do que se estivessem com aquelas letrinhas desunidas. Isso. Esse tipo pretensioso de letra também é um pouco irritante.
Sempre quis escrever com caneta. Caneta tinteiro. Caneta tinteiro do meu pai. Acontece que sempre que conseguia chegar até ela havia um problema.
Seca, vazando, bico entortado... Precisa de uma recauchutagem geral. Ok. Fazia. E não pegava mais nela por anos. Ficava lá de enfeite. Diga-se de passagem, um objeto lindo, cheio de charme e elegância.
Fica no armarinho de perfumes do meu quarto. Não uso nem os perfumes, nem a caneta. Pelo menos aí, certa coerência. Não faço nada com as coisas que estão à minha disposição. As desejo, as tenho e não consigo me apropriar delas.
Mas a natureza “coisa” tem a vantagem de não fugir de mim : trava, fica a minha espera. A minha espera.
Eu também espero.
Uma vez, era pequena. Pequena e cheia de grandes confusões. Lá em casa roupa rasgada, sem botão, barra por fazer e todos os etc desse universo doméstico, não tinham vez.
Minha mãe dava conta de um tanto e a Dona Maria de outro.
Dona Maria era uma mulher de não sei quantos anos que costurava em casa. Gostava dela. Ela gostava de mim. Genuinamente.
Ela tinha um cheiro de Dona Maria que não me esqueço jamais. Dona Maria era baixinha, arrumada e negra.
Um dia, entre tantos dias que ela ia para minha casa costurar, depois de provavelmente mais um saracotico meu, ela do alto de sua condição profética me disse:
“Eu tenho certeza de que você vai encontra alguém na sua vida, provavelmente um italiano, junto com quem vai conhecer o mundo e ser muito feliz com ele.”
Acreditei na hora, fiquei confortada e por aquele momento ela conseguiu aplacar minha fúria. Ela sempre entendeu o furacão que agitava minha cabeça e na simplicidade de seu mundo garantiu que eu iria longe. Eu acreditei. E fui longe. Encontrei um italiano. De quarta geração. Mas encontrei.
Acontece que continuo achando que não fui a lugar algum. E continuo esperando.
Sempre assim: espero, chega alguma coisa, vivo a coisa, abandono a coisa e espero mais uma vez, a coisa.
44.
47.
Números mágicos.
O primeiro, de agora.
O segundo, de depois.
Não sei depois de aqui, antes da onde.
Acordo na madrugada, suando e pensando neles.
Então sofro aos 44 e imagino os 47.
Exercício cruel. Preciso voltar a dormir.
Acordo e só penso que bom seria se pudesse dormir até à hora de dormir de novo. Não dá.
Acordo e fico esperando pela hora de dormir. Dormir abraçada com ele. Descanso. Tá tudo certo.
Agora choro. Nem sei bem o por que.
Não queria que fosse assim.
Vamos a verdade das coisas: sou alguém que vive a vida através da intensidade dos pensamentos.
Penso, e penso e penso. E olha que penso bem. Mas só penso. Não consigo sair do pensar.
Aliás, estou pensando agora que isso parece, ou é, estória de depressivo. Sou uma versão disso.
Teste vocacional.
Solução enviada pelo correio em pacote de presente.
Final feliz. E rápido.
Mas não é assim que funciona.
Gosto de organizar.
Arrumo armários como ninguém. E tenho orgulho disso.
Minha irmã está em Campinas me esperando para arrumar o armário dela.
Isso é motivo de orgulho para mim.
Houve um tempo em que os armários da Ana, eram motivo de orgulho de minha mãe e uma inveja despeitada de minha parte.
Hoje ela não consegue arrumar nada. Está imersa na vida real, tentando arrumá-la. Tendo que organizar seus pensamentos, amores e dores.
Nenhuma de nós contabiliza sucesso. Mas seguimos. Eu preciso dela e ela de mim.
Sabemos de nossos limites e gritamos pela outra quando estamos prestes a vazar.
Tão iguais.
Mas os seus cabelos...quanta diferença!
As costas doem, a bunda arde, as banhas aumentam, o cansaço não dá trégua, mas os cabelos...
Ah...esses voltaram a ser lisos, sedosos.
Às vezes é assim: o que eu consigo dar, são coisas. Coisas que fazem sentido.
Coisas necessárias. Coisas que julgo terem condição de amenizar o tranco.
E acerto. Acertei com os cabelos. Aplaquei a revolta dos cachos. Coloquei todos os fios nos seus devidos lugares.
Assim ela faz comigo. Preciso das palavras que vem do coração e das frágeis certezas que cultiva e que num futuro breve serão passado.
Estamos nós duas com medo.
Estou a mais tempo com medo. Porque vi antes as cores e as sombras do amanhã.
40.
Esse é o número dela.
Que vem chegando. Ela, encurvando. Permeia momentos em que o corpo fica arriado e momentos de saltos quase atléticos. Mas está pesado. Ela está pesada.
Quer perder peso. Quer não carregar peso. Quer se livra da dor desnecessária.
Mas está grudada nela. Grudada em mim.
Agora dei pra fechar as mãos em forma de pãozinho. Horror. Repito meu pai. Meu pai, minha irmã e eu.
Travamos.
Travados.
Não quero. Abro a mão cheia de raiva. A mão dói. Fico brava.
E com saudades de meu pai.

29 de maio de 2008 / quinta feira

Um comentário:

  1. Realmente tocante. Como é lindo o dom de dar vida às palavras. Lindo.

    Bjus virei fã também.

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