quarta-feira, maio 13, 2009

Vida em carmesim


Foto: Maria Antonia Demasi

Foto: Maria Antonia Demasi




















Era um sonho recorrente. Não.
Era uma experiência de regressão pela qual Ana tinha passado.
Deitada numa caixa retangular. Não. Não era um caixão. A menina estava deitada numa cama tosca, forrada de branco. A menina era careca.
Totalmente. A cabeça pequena, o rosto magro. Muito magro. Vestia um conjunto de sarja cru: camisão abotoado na frente, gola olímpica e saia na altura do tornozelo. Calçava um par de botas preto, bico fino, que eram presas às esqueléticas pernas por um cordão.
Na cintura um cinto de couro muito largo. Era assim que era. Por algum tempo, muito ou pouco, tanto faz, essa imagem ficou congelada, como que para dar tempo suficiente de ser sentida. Só depois a cena continuava. Junto aos pés da menina morta-viva, uma figura que não era vista, mas era sabido que se tratava de uma mulher. Uma mulher má.
A maldade era previamente declarada pela capa vermelho carmesim que usava. Longa e com um gorro que deixava na sombra o seu rosto.

Corta.

Só agora é explicitado o horror. Ao lado da menina, uma criança embrulhada numa maçaroca de lençol branco, era roubada pela horrível mulher de vermelho carmesim. Desespero. A menina morta viva, de súbito ganha vida e com ela, dor.
No silêncio, no rosto embalsamado, na paralisia de seus músculos, o desespero daquela repentina ausência. A mulher de capa vermelho carmesim levava embora a razão de sua morte.
E foi assim, desse jeito, que a mulher má e sem rosto apareceu na vida de Ana. Ou melhor, grudou na vida dela e passou a ser uma obsessão. E dessa obsessão ela tinha medo. Medo até de pensar. Mas não dava para fugir do fato de que ela se reconhecia na menina. Era ela. Era Ana. De sabe lá onde, de sabe lá quando, de sabe lá por que. Mas era Ana.
E com essa intrusa fazendo morada em seus devaneios e fantasias, nos seus sonhos e na sua vigília, Ana foi vivendo. Assim. Acompanhada.
Quando na faculdade de artes plásticas teve que desenvolver a criação de um figurino, na hora resolveu dar vida à roupa da sua má companheira. Comprou numa loja de tecidos para sofás um veludo pesado, daquela cor, aquela mesma. Colocou no papel a imagem que morava na sua cabeça.
Mas foi quando começou a cortar e costurar a capa que Ana pensou em buscar nos sacos de plásticos ressecados que herdara de sua avó elementos que compusessem melhor esse tormento feminino.
Revirou o armário e achou. Eram dezenas de sacos, saquinhos e sacões cheios de fitas, zíper, laços, viés, retalhos, lantejoulas, botões. Tudo em preto. A cor que não via mais sentia na alma cada vez que pensava no que estava fazendo. Escolheu sete botões rendados. Pretos. Uma flor bordada. Preta. Uma tira de franja, também de veludo. Preta. E por último descobriu outra tira, essa de couro, medindo noventa centímetros. Era originalmente a correia da velha máquina de costura Singer da avó.
Quando viu, lembrou-se de imediato da roupa e da bota da menina morta viva. Eram da mesma cor. Cru. E crua, pensou Ana, deveria ser a morte por enforcamento com uma tira de couro. E resolveu que iria fazer parte da capa Pegou tudo, o cheiro de tudo, e começou a costurar. Em dois dias, a capa estava pronta. Pesada. De toque áspero. Elegante. Mas não era uma roupa. Nem um figurino. Tinha construído um disfarce. E pronto. Sem comentários. Não quis proximidade. Não quis mais ver o que fizera.
Colocou a capa numa mala velha, sem cuidado, fechou e desejou esquecer de vez aquela história. Mas não conseguiu. E então aconteceu outra história. Essa palpável. De carne e osso. De poder pegar e sentir. Sentir raiva. Sentir tristeza. Sentir o mundo desabar. E desabou. O casamento de Ana tinha desabado.
Precisou de um tempo para se levantar e outro tempo para reagir. E foi assim, nesse movimento, que ela decidiu ir atrás do marido que havia se refugiado numa distante e solitária praia. Foi de surpresa. Foi sem avisar. Foi sozinha. Ela e sua dor. Mentira. Sozinha não. Levou junto a capa vermelho carmesim que havia se materializado pelas suas mãos.
Enfiou aquele peso morto dentro de um saco de pano, socou no porta malas e foi remoendo uma idéia que a muito acalentava. Foi bom. Foi o reencontro com o amor de sua vida e a possibilidade de abandonar aquilo que a aterrorizava, mas não conseguia se afastar.
Na noite em que chegou, deixou o saco na varanda da casa. Na manhã seguinte, antes do marido acordar, pegou a caixa de fósforos, o litro de álcool e em silêncio saiu da casa. Pegou o saco e levou para longe.
Desamarrou o nó que tinha feito e o virou de cabeça para baixo. E como num parto, um rato foi expulso das entranhas vermelhas sufocadas no saco. Um rato. Um rato ligeiro, desnorteado, tão apavorado quanto Ana. E ela que já tinha medo, agora tinha nojo. De tudo. Ficou paralisada. E enjoada. Correu para casa e vomitou. Pensava em como a possibilidade de por fim ao que a consumia estava distante e que o rato já deveria sim, fazer parte daquele espectro. Parte viva. Subterraneamente viva. Tinha calafrios. Acovardou-se frente a uma conjunção tão mórbida de forças. Do mal.
Chamou o caseiro e pediu que não perguntasse nada, apenas fizesse o que ela estava pedindo: que pegasse “aquela panaiada”, levasse para bem longe e pusesse fogo. Seis meses depois, Ana voltou. Junto, uma imensa angústia: teria o homem feito o que ela não conseguiu? Fez. Mas ficou intrigado com o fato do fogo ter demorado tanto para consumir tão pouco tecido. Para ele, pouco. Para ela, muito.
O avesso e o direito daquele tecido vermelho carmesim chamado vida.

2 comentários:

  1. Apenas um bom começo para uma história.

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  2. Arrepiou-me o teu texto! Imagens forte, alegorias intensas! Parebéns!

    Um abraço

    Elis

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