sexta-feira, junho 26, 2009

Combinado

Foto: Maria Antonia Demasi

Você acaba de clicar numa pequena palavra - B L O G - e pular para o meu mundo.
Está colocado o dilema.
Se o poeta Mario Quintana estiver certo, você acaba de fugir para a realidade.
Porque poesia é realidade.
Aquela realidade custosa de entender, dura de fazer sentido, mas que gruda na gente.
Você está prestes a entrar num ambiente altamente perigoso.
Milhares de palavras, centenas de parágrafos, infinitas idéias vagando sem pé nem cabeça.
Até que em algum lugar vai esbarrar com você travestido de outro.
Se não atender a mensagem de erro e conseguir fazer aparecer as vinte histórias que contei, você vai se encontrar.
Poderá ser um encontro esquisito. Um encontro rápido. Um encontro para o qual não encontro palavras.
A tentação de dar mais um clique e sumir poderá acontecer.
Mas resista. Ao final será a sua vez de criar uma realidade. Comente. Palpite. Diga o que estiver precisando ser dito e ouvido.
Duvido que minha realidade não possa ser amiga da sua. Só preciso que mostre. É só uma amostra de sua vida.
É um risco, Eu sei. Mas arrisque. Só assim saberás.

terça-feira, junho 23, 2009

Medos divididos

Foto: Maria Antonia Demasi

Beatriz, a moça silenciosa encostada na parede, me disse.
Tenho trinta, e tantos medos.
E o maior deles, que os anos passem e eles não.

Quando já nos quarenta, deitada no sofá da sala,e perguntou:
Você não tem medo?
Não.
Você se esqueceu que me deu coragem?

Foram quarenta anos para sonhar assim.
Não sei quantos mais para entender.

sexta-feira, junho 19, 2009

De repórter para repórter

Foto: Maria Antonia Demasi

Foi enfermeira.
Olhos azuis... Perdidos.
Quando lembra... Lembra que tem Alzheimer.
Não sabe como Fátima entrou em sua vida, em sua casa.
Mas as vizinhas perceberam uma movimentação estranha da moça, pra cima e pra baixo com a senhora.
Denunciaram na promotoria.
Os investigadores começaram a investigar e logo perceberam: Fátima era uma estelionatária.
Quando cheguei, tentei conversar com a Senhora.
Desisti. Não acho correto expor alguém assim. Mas o promotor disse que poderia: ela ainda não foi interditada.
Mas será. Ele vai solicitar que uma das vizinhas seja curadora, para assim poder refazer seus registros junto ao INSS e então controlar, ao menos, a sua vida financeira.
A bandida é uma bandida.
Fria. Fumando displicentemente. Dizendo ter a “consciência limpa”.
Vai pegar de um a cinco anos de cana.
Os funcionários da promotoria que acompanham a movimentação, me disseram que dia sim dia não, aparecem casos assim.
Dia sim dia não, quem a cada dia vai ficando mais frágil, pois mais velho, cada dia também fica mais exposto a um universo de cidadãos que já perdeu o pudor e atacam todos e tudo que garante a dignidade de uma pessoa.
Fiquei muito puta com o que vi.
É isso. Espero que essas informações te ajudem na matéria.

30/03/2006

Coisa de criança

Foto: Maria Antonia Demasi



















Levou o menino de cinco anos pra escola.
Comprou detergente.
Tá indo faxinar a casa.
Uma dona de casa?
Não. Uma menina de nove anos.

Esbarra no menino que vinha das compras.
Fala oi pra quem cuida de um bebê.
Todos eles brincam com trabalho.
Todos machucados.

Zona Norte de São Paulo.
Conjunto de micro apartamentos. Cingapura.
Vizinho colado: favela com esgoto a céu aberto.
Brincadeira segura por aqui, é dentro de casa.

De boneca.
De carrinho de lata.
Ou até de pipa.
Solta pela janela.

Carinhas vão surgindo.
Uma, outra, mais uma.
Carinhas atrás das grades.
Emolduradas.

Reféns da vida dura.
Apertados nos apertamentos.
Que saco de vida.
Feita pra durar até crescerem.

Longe do cheiro do posto de reciclagem.
Que cheira mal.
Que vaza sujeira pra fora dos limites dos portões.
Que deixa água podre escorrer pela sarjeta.

Medo escondido.
Toque de recolher.
Tráfico de drogas.
Gente pequena levando vida aprisionada de gente grande.

segunda-feira, junho 08, 2009

Mais uma vez


Foto: Maria Antonia Demasi



















São só algumas horas.

Que separam
Que nos separam.

São só algumas palavras
Que me deixam continuar
Ou que avisam
Que novamente podemos nos separar.

E na espera, o medo
Vestido de gala
Risonho
Irônico.

Quando tudo terminar
A espera e o medo
Vão ficar de castigo.

No mesmo escuro que fiquei
No mesmo tempo suspenso que experimentei
No mesmo buraco escuro do fim.

sexta-feira, junho 05, 2009

Simonal

Foto: Maria Antonia Demasi



















Acabou.

Dei de cara com uma mulher encostada na parede acarpetada da sala de exibição bacana.
Ela dançava. E acompanhada. Da vassoura que ia pra lá e pra cá com ela.
E a sacudida vestia azul. Uniforme azul de faxineira.
E cantava junto.

Levantei, grudei nela e perguntei:
E aí, já assistiu?
Só pedaços, cê sabe entro e saio, fico só bicando. Mas o cara é bom, sei todas as músicas dele...
Olhamos as duas pra telona onde rodavam muitos e muitos nomes.
Que ela não conhece. Nem eu. Mas a gente olha. Dançando. As duas.

Ela que viu pedaços do documentário.
Eu que sabia só pedaços da vida do cara.
Nós que na hora de falar "tchau", concordamos: o cara deu azar, mas era foda!
Ela partiu pra limpeza animada.
Sorte dela que vestia azul poder trabalhar com o Simonal na orelha.
Sorte dele que agora quem sabe, pode ter a sorte mudada.

quinta-feira, junho 04, 2009

Assombro

Foto: Maria Antonia Demasi



















A casa é um espanto.
Casa do espanto.
Declaradamente espantada.

Quem está preso é livre para ver quem está fora.
Quem está fora é convidado a permanecer assim. Fora.

Grades. Oito. Pretas.
Portas de ferro. Duas. Pretas.
Laje suspensa.

Um cachorro. Preto.
Um galo cantando. Fora de hora.

Uma trepadeira de chuchu. Verde.
De costas para o mundo.
Camuflagem do muro azul.

Mais um portão. Preto.
Outro enorme. Definitivo. Preto.

E tem mais.

Um velho pai que chega à casa do espanto.
Uma velha filha que o recebe.
Uma jovem acompanhante que sentencia.
Ele está morrendo.

Espantados.
Voltam todos pra prisão.

quarta-feira, junho 03, 2009

Cabelobelobelo

Foto: Maria Antonia Demasi



















Andou de lenço na cabeça
Por um bom tempo.

Em um ano
O cabelo cresceu
Um cabelo grosso e pintado
Curto e repicado.

Pelos cabelos
Suas mãos deslizam
Errantes
Agora sabe que sobreviveu
.

terça-feira, junho 02, 2009

Receita Andina


Foto: Maria Antonia Demasi

Foto: Maria Antonia Demasi

Pronto!
O que era impraticável foi removido.
Antes, porém, tentativas para amenizar o incômodo.
Não dando certo, aplica-se o método "cortar o mal pela raiz".
Arrancam-se os olhos.
Três pares.
Seis buracos.
E pronto.
Próximo!

Verônica spicata


Foto: Maria Antonia Demasi

Verônica da farmácia.
Não tinha jeito.
Depois de trabalhar por dezoito anos na única farmácia de Parral, assim que Verônica era conhecida.
Agora aos 40, parecia tarde para mudar, mas estava duro de aguentar.
Por isso, decidiu que iria estudar Línguas.
Decisão interessante para quem falava pouco. Era econômica nas letras e nos sons. E há de se considerar que além do espanhol, já dominava com maestria outra idioma, o farmacológico. Para os desavisados poderia soar como uma língua morta. Ledo engano. Cuida antes de traduzir as dores dos quase mortos...
Nome, sobrenome, apelido. Um mundo repleto de sons.
Exil-egil-orox-prox-anil-exil-ginas-ites-nites... Para ela, descendente do povo indígena Mapuche, nada demais.
Aliás, dos ancestrais herdou além do bom ouvido para sonoridades ímpares, sua baixa estatura. 1,47mt que diariamente eram alterados para 1,51mt com ajuda de indefectíveis sapatos pretos de saltos quadrados.
Era alçada às alturas que Verônica, todo final de expediente, ou seja, sagradamente às 18h00, saía a passos ligeiros, mas miúdos, para La Parca, cidade vizinha, onde havia uma boa escola de inglês.
Posto que o trajeto durasse 45 minutos, aproveitava esse tempo para didaticamente pensar na vida.
Vida solitária. Sem irmãos. Desde os 22 anos, órfã de pai e mãe (a respeito desse episódio trágico, Verônica não pensava e muito menos falava sobre).
Nessa altura de sua reflexão, pulava em sua mente a figura de Don Armindo. E com razão. Fora nesse momento de sua existência que ela dissera sim aos apelos desse respeitável senhor com o apelido não tão respeitável assim de “La Orca”.
Necessário aqui uma ligeira explicação.
O apelido referia-se nem tanto ao tamanho, que era sim avantajado, mas a uma característica fisiológica que carregava desde sempre. Seu nariz espargia com freqüência indesejável, jorros de água.
Apenas para constar, fora essa a maior e única razão para Dom Armindo entrar para o ramo dos fármacos.
Acreditava que estando sempre em contato com os avanços da indústria farmacêutica, encontraria um dia, solução para sua sina. Mas não encontrou remédio para conter seu furor nasal.
Depois de 15 anos estabelecido e reconhecido como o dono da melhor e única farmácia na cidadezinha, teve a sorte de contratar Verônica como sua assistente.
Perfecto! Bradava Don Armindo.
Não se cabia de regozijo ao ver que Verônica era um esmero de funcionária. A cada dia o desempenho da pequena e ligeira Verônica, melhorava.
Perfecto para ela também que gostava de ouvir os lamentos dos clientes, assim acabava sempre achando que as suas próprias dores eram menores.
Gostava de trocar idéias sobre formas de aliviar dores de quem aflito, encostava a barriga no balcão a espera de solução imediata para sua dor. Assim, naturalmente, conseguia pensar nas suas por caminhos enviesados.
E nesse andar da carruagem crescia em Verônica um orgulho secreto. Nunca havia tomado um medicamento sequer, se bem que as dores que a acompanhavam eram de outra natureza, intraduzíveis. Nem mesmo quando seus estudos da língua inglesa já estavam adiantados conseguia achar palavra para nominar a dor que carregava.
Ficou feliz quando descobriu que solidão em inglês e espanhol - solitude e soledad - são palavras parecidas. Nem precisava. Mas aprendeu.
Um dia, dentre tantos e iguais dias, voltando para Parral, Verônica já sabida no inglês, viu nos classificados de um jornal deixado por um passageiro no banco ao lado, uma oferta de emprego “in english”. Mas o emprego era no Chile mesmo, na Patagônia profunda, lugar de onde só tinha uma informação: é lá que existia uma planta com o mesmo nome dela.
Mandou o currículo. Em inglês.
Fez entrevista. Em inglês.
Veio a resposta. Em espanhol.
Sí. Apesar de não ser moça tão nova, parecia a pessoa ideal para o cargo de responsável pela loja do Lounge Patagônico, um hotel mil estrelas!
Adios remédios (lá venderia no máximo, aspirina), adios Verônica da farmácia.
Mas dizer adeus para Don Armindo foi um sofrimento, mais um na sua lista. Ficou sem palavras. Não as achava em nenhuma língua.
Então preferiu partir em silêncio. Sem maiores explicações, nem menores explicações.
Quando percebeu que Verônica não mais voltaria, La Orca apenas deu um profundo suspiro e um jorro nasal.
Foi-se.
Tarde. Afinal seu conterrâneo, Pablo Neruda, foi-se aos seis anos.
Mas foi-se.
E no Chile mais profundo juntou sua solidão à solidão Patagônica e fez-se final e somente, Verônica.

segunda-feira, junho 01, 2009

Cardenitos Chilenos III - Ilusión

Fotomontagem: Maria Antonia Demasi




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