terça-feira, junho 02, 2009

Verônica spicata


Foto: Maria Antonia Demasi

Verônica da farmácia.
Não tinha jeito.
Depois de trabalhar por dezoito anos na única farmácia de Parral, assim que Verônica era conhecida.
Agora aos 40, parecia tarde para mudar, mas estava duro de aguentar.
Por isso, decidiu que iria estudar Línguas.
Decisão interessante para quem falava pouco. Era econômica nas letras e nos sons. E há de se considerar que além do espanhol, já dominava com maestria outra idioma, o farmacológico. Para os desavisados poderia soar como uma língua morta. Ledo engano. Cuida antes de traduzir as dores dos quase mortos...
Nome, sobrenome, apelido. Um mundo repleto de sons.
Exil-egil-orox-prox-anil-exil-ginas-ites-nites... Para ela, descendente do povo indígena Mapuche, nada demais.
Aliás, dos ancestrais herdou além do bom ouvido para sonoridades ímpares, sua baixa estatura. 1,47mt que diariamente eram alterados para 1,51mt com ajuda de indefectíveis sapatos pretos de saltos quadrados.
Era alçada às alturas que Verônica, todo final de expediente, ou seja, sagradamente às 18h00, saía a passos ligeiros, mas miúdos, para La Parca, cidade vizinha, onde havia uma boa escola de inglês.
Posto que o trajeto durasse 45 minutos, aproveitava esse tempo para didaticamente pensar na vida.
Vida solitária. Sem irmãos. Desde os 22 anos, órfã de pai e mãe (a respeito desse episódio trágico, Verônica não pensava e muito menos falava sobre).
Nessa altura de sua reflexão, pulava em sua mente a figura de Don Armindo. E com razão. Fora nesse momento de sua existência que ela dissera sim aos apelos desse respeitável senhor com o apelido não tão respeitável assim de “La Orca”.
Necessário aqui uma ligeira explicação.
O apelido referia-se nem tanto ao tamanho, que era sim avantajado, mas a uma característica fisiológica que carregava desde sempre. Seu nariz espargia com freqüência indesejável, jorros de água.
Apenas para constar, fora essa a maior e única razão para Dom Armindo entrar para o ramo dos fármacos.
Acreditava que estando sempre em contato com os avanços da indústria farmacêutica, encontraria um dia, solução para sua sina. Mas não encontrou remédio para conter seu furor nasal.
Depois de 15 anos estabelecido e reconhecido como o dono da melhor e única farmácia na cidadezinha, teve a sorte de contratar Verônica como sua assistente.
Perfecto! Bradava Don Armindo.
Não se cabia de regozijo ao ver que Verônica era um esmero de funcionária. A cada dia o desempenho da pequena e ligeira Verônica, melhorava.
Perfecto para ela também que gostava de ouvir os lamentos dos clientes, assim acabava sempre achando que as suas próprias dores eram menores.
Gostava de trocar idéias sobre formas de aliviar dores de quem aflito, encostava a barriga no balcão a espera de solução imediata para sua dor. Assim, naturalmente, conseguia pensar nas suas por caminhos enviesados.
E nesse andar da carruagem crescia em Verônica um orgulho secreto. Nunca havia tomado um medicamento sequer, se bem que as dores que a acompanhavam eram de outra natureza, intraduzíveis. Nem mesmo quando seus estudos da língua inglesa já estavam adiantados conseguia achar palavra para nominar a dor que carregava.
Ficou feliz quando descobriu que solidão em inglês e espanhol - solitude e soledad - são palavras parecidas. Nem precisava. Mas aprendeu.
Um dia, dentre tantos e iguais dias, voltando para Parral, Verônica já sabida no inglês, viu nos classificados de um jornal deixado por um passageiro no banco ao lado, uma oferta de emprego “in english”. Mas o emprego era no Chile mesmo, na Patagônia profunda, lugar de onde só tinha uma informação: é lá que existia uma planta com o mesmo nome dela.
Mandou o currículo. Em inglês.
Fez entrevista. Em inglês.
Veio a resposta. Em espanhol.
Sí. Apesar de não ser moça tão nova, parecia a pessoa ideal para o cargo de responsável pela loja do Lounge Patagônico, um hotel mil estrelas!
Adios remédios (lá venderia no máximo, aspirina), adios Verônica da farmácia.
Mas dizer adeus para Don Armindo foi um sofrimento, mais um na sua lista. Ficou sem palavras. Não as achava em nenhuma língua.
Então preferiu partir em silêncio. Sem maiores explicações, nem menores explicações.
Quando percebeu que Verônica não mais voltaria, La Orca apenas deu um profundo suspiro e um jorro nasal.
Foi-se.
Tarde. Afinal seu conterrâneo, Pablo Neruda, foi-se aos seis anos.
Mas foi-se.
E no Chile mais profundo juntou sua solidão à solidão Patagônica e fez-se final e somente, Verônica.

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