quinta-feira, julho 30, 2009

Já deu

Foto: Maria Antonia Demasi














Toda vez que chego ao fundo do poço
acho que meu mundo vai se acabar.

O buraco é fundo
acabou-se o mundo.

Já cheguei tantas
tantas vezes a esse tal de fundo de buraco
e ainda estou aqui, nesse mundo.

O buraco é fundo
acabou-se o mundo.

Mas o meu mundo se acaba a cada queda.
Antes acreditava que fosse um acabar definitivo.
Acabar acabado.

Mas não.
É um arremedo de acabar.
Arremedo preparatório para o fim.

E assim a cada queda
a cada encontro com o fundo,
emerjo, pasmem!
mais morta.

quinta-feira, julho 16, 2009

Palavras em fuga

Foto: Maria Antonia Demasi














Elas, as palavras
saíram tão rápidas
tão firmes.
Tão tão.

Encontraram o branco

se esparramaram.
Ganharam corpos
tão fortes.
Tão tão.


Foram com meu clique
para o mundo.
Se assustaram.
Se perderam.
Não não.

Então assustada
gritei.
Coloquem-se!
Emendem-se!
Grito mudo.
Vão vão.

sexta-feira, julho 10, 2009

Testemunhas

Foto: Maria Antonia Demasi



















Esses cachorros que andam por aí.
Por aqui.
Perdidos.
Ávidos por olhares mancos.

Esses dessa natureza me arrebatam.
Já não fui assim
.
Era dura
.
Pra cachorros e pra meninos perdidos.


Amoleci pra vida.
Cansei de usar coleira.
De encoleirar o outro.
Cansei de cansar.

Agora confesso a todos
(cachorros e meninos perdidos).
Que amoleci.
Que entreguei.

E eles
(cachorros e meninos perdidos)
Sabem.
Agora sabem.

Que demorou.
Mas amoleci.

terça-feira, julho 07, 2009

Já sei

Foto: Maria Antonia Demasi




















Ele era branco
da brancura da morte.
Do tamanho
quase do tamanho do balcão de doces da padaria.

Juntos mãe e menino
tateavam.
A vida
e o balcão de vidro.

Só vi o verso.
Roupa de menino.
Cabeça com poucos fios.
Cabelos e meninice roubados.

Pela dor
de gente grande.

Usava boné
mas a cicatriz era maior.
Grande
vinha da cabeça e atacava a nuca.

No pescoço
uma fitinha amarela.
E os dedos
amarelos e quebradiços.

A mãe só carinhava.
Quando ouviu "próximo"
abaixou-se e perguntou:
o que você quer?

Pergunta dura
que me jogou pro canto

Entendeu chocolate.
e pediu mais.
Pro menino se encher de doce
e valer a pena estar ali.

Quando o menino virou-se
Parecia buscar na memória de sua breve vida
(eram apenas nove anos)
O b-a-bá do andar

Seguiu.
Com a mãe atrás.
Perto do carro ela o deixou
apertada.

Era preciso que ele entrasse no carro.
Que ele sentasse
se ajeitasse.
E que na impossibilidade, seguisse.

Conseguiu.
Mas eu não.

Não consegui não chegar bem perto
E não dizer.
Dizer
que ele estava indo muito bem.

Me fiz de seu tamanho
e fiquei de seu tamanho.
E vi.
O menino estava torto.

Como tantas vezes sou torta.
Como tantas vezes sou retorcida.

Era o lado direito.
Boca.
Olhos.
E óculos pra acompanhar esse desalinho de vida.

Pra que esses olhos tão grandes?
Grandes.
Verde amarelados.
Limão tirado do pé antes da hora.

Ardem
Queimam.

Pra dizer Ariel
nome que tanto demorei pra entender
passou o dedinho pela fitinha amarela
e apertou a garganta.

Mentira.
Não era a garganta.
Era um pino de aço
no meio da garganta.

E então ele riu.
De mim.

E dos cavalos que saltaram de minha cabeça.
Invadiram meu apartamento.
Ganharam uma fazenda.
De tanto que meu Branco gosta deles.

E dos nomes possíveis.
Para seus cavalos.
Para seu amanhã.
Falcão, Moreno...

E de dentro dele
um som
um barulho
e uma revelação.

Riu
e expulsou de dentro de sua dor
o nome de seu cavalo.
Que eu esqueci.

Rimos mais.
E precisamos nos tocar.
Minha mão
e a mão amarela do menino.

Vida e morte.
Juntas.
Vontade de viver
minha e dele.

Agora sei.
Sei.
Sei.

quarta-feira, julho 01, 2009

Esse hábito de sofrer que tanto me diverte

Fotomontagem: Maria Antonia Demasi



















Aquela Tonha lá
Que botou a cara pra apanhar
Agora sofre
Se retorce
Sem saber quando gritar.

Aquela Tonha lá
Que fica sem graça de falar
De noite rola na cama
Se retorce
Sem saber como se salvar.

Aquela Tonha cá
Que só queria se calar
Ficar quieta e sossegar
Agora se retorce
Sem saber
Sem saber
Sem saber.
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