terça-feira, julho 07, 2009

Já sei

Foto: Maria Antonia Demasi




















Ele era branco
da brancura da morte.
Do tamanho
quase do tamanho do balcão de doces da padaria.

Juntos mãe e menino
tateavam.
A vida
e o balcão de vidro.

Só vi o verso.
Roupa de menino.
Cabeça com poucos fios.
Cabelos e meninice roubados.

Pela dor
de gente grande.

Usava boné
mas a cicatriz era maior.
Grande
vinha da cabeça e atacava a nuca.

No pescoço
uma fitinha amarela.
E os dedos
amarelos e quebradiços.

A mãe só carinhava.
Quando ouviu "próximo"
abaixou-se e perguntou:
o que você quer?

Pergunta dura
que me jogou pro canto

Entendeu chocolate.
e pediu mais.
Pro menino se encher de doce
e valer a pena estar ali.

Quando o menino virou-se
Parecia buscar na memória de sua breve vida
(eram apenas nove anos)
O b-a-bá do andar

Seguiu.
Com a mãe atrás.
Perto do carro ela o deixou
apertada.

Era preciso que ele entrasse no carro.
Que ele sentasse
se ajeitasse.
E que na impossibilidade, seguisse.

Conseguiu.
Mas eu não.

Não consegui não chegar bem perto
E não dizer.
Dizer
que ele estava indo muito bem.

Me fiz de seu tamanho
e fiquei de seu tamanho.
E vi.
O menino estava torto.

Como tantas vezes sou torta.
Como tantas vezes sou retorcida.

Era o lado direito.
Boca.
Olhos.
E óculos pra acompanhar esse desalinho de vida.

Pra que esses olhos tão grandes?
Grandes.
Verde amarelados.
Limão tirado do pé antes da hora.

Ardem
Queimam.

Pra dizer Ariel
nome que tanto demorei pra entender
passou o dedinho pela fitinha amarela
e apertou a garganta.

Mentira.
Não era a garganta.
Era um pino de aço
no meio da garganta.

E então ele riu.
De mim.

E dos cavalos que saltaram de minha cabeça.
Invadiram meu apartamento.
Ganharam uma fazenda.
De tanto que meu Branco gosta deles.

E dos nomes possíveis.
Para seus cavalos.
Para seu amanhã.
Falcão, Moreno...

E de dentro dele
um som
um barulho
e uma revelação.

Riu
e expulsou de dentro de sua dor
o nome de seu cavalo.
Que eu esqueci.

Rimos mais.
E precisamos nos tocar.
Minha mão
e a mão amarela do menino.

Vida e morte.
Juntas.
Vontade de viver
minha e dele.

Agora sei.
Sei.
Sei.

3 comentários:

  1. Me lembrou trechos de A menina que roubava livros.. Fabuloso. Beijos e boa quarta.

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  2. Olá Tonha.
    Andei pelo seu mundo aqui mostrado. Gostei do que já vi. Acabei me viciando e...acho que vou vir sempre por essas bandas.
    Obrigada por escrever essas palavras.
    Obrigada por me permitir estar aqui com vc.

    Abraços. Adriana.

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  3. Bestificada! Estou gostando muito que tenho lido.

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