quinta-feira, setembro 03, 2009

Asilo

Foto: Maria Antonia Demasi

Quando menina, de cabelo loiro e escorrido, me acostumaram a um passeio delicado.
Íamos a um asilo visitar o Tio Cleso.
Ele era o irmão de minha avó. O irmão que aos sete anos teve meningite e parou no tempo. Beirando os 70, era uma criança simpática, educada, inteligente e surda.
Ele, um homem grande, bonito e parado no tempo.
Eu, uma menina pequena, bonita, que corria com o tempo.
Uma vez por semana. Essa era a frequência de nossas visitas. Íamos de ônibus, cheias de sacolas cheias de doces, frutas, roupa de cama limpa e jornais velhos.
Tio Cleso era um homem bem informado. O fato dos jornais trazerem notícias com uma semana de atraso, não era um problema.
Ele se ocupava por horas a fio lendo e comentando cada uma delas com os colegas e funcionários do asilo. Aprendeu a ler antes de a doença o atingir e depois, aprimorou sua escrita. Orgulhava-se de escrever rápido e corretamente de trás para frente.
Nossa chegada ao asilo era um evento, uma farra. Quando nos avistava descendo a alameda de entrada, vinha ao nosso encontro falando, cantando marchinhas sem ritmo e, ao mesmo tempo, fazendo peripécias com as mãos grandes de dedos finos.
Falava meu nome alto, como que anunciando uma ilustre convidada e abraçava desajeitadamente a irmã enquanto tirava as sacolas de suas mãos.
Esperar minha avó fazer a limpeza e arrumação do quarto era uma delícia.
Ficava conversando com vários senhores, sentados em roda, me deixando no centro de suas cadeiras e por apenas minutos, no centro de suas vidas.
Tinha ali um velho que eu adorava. O Seu Carlos. Inteligente. Bom. É isso que me lembro dele. Sempre tinha algo pra me contar e eu pra ouvir. Até a hora que minha avó me chamava pra dentro.
Entrar no corredor que levava ao quarto era a preparação para o quarto em si. O cheiro de xixi era forte e pesado, mas ao vencer esses 10 ou 12 metros, chegava ao quarto firme e pronta pra lá ficar.
Tio Cleso era um colecionador, hoje sei. Colecionava o que a vida lhe dava, usando um especial critério que definia o que era bom ou não. E o critério dele era bastante elástico. Útil e desejável poderia ser um elástico mesmo.
Quando minha avó abria a porta do armário e sua vasta coleção despencava no chão, sentia uma mistura de constrangimento e responsabilidade.
Ficava constrangida por ela disparar palavras duras, ralhar com o irmão, fazer acusações que iam de apropriação indébita passando por manutenção em cativeiro de pequenos insetos, e não raro tinha a arrogância de lançar dúvidas sobre a qualidade dos objetos colecionados.
E não tinha choro nem vela. Catava o que não passava por seu crivo estético e utilitário e jogava fora. Ele ficava uma fera. Ele era sim um velho-criança, mas bobo não e sabia que aquilo era uma invasão de privacidade.
Mas eu achava muita graça daquela cena protagonizada por dois irmãos-crianças. Naqueles momentos, era a adulta que apartava a briga, contemporizava colocando de volta no armário os itens que conseguia tirar do foco de minha avó e depois da coisa toda acalmar, pegava o tio pela mão e saia para dar uma volta.
Eram voltas pelo asilo. Uma vez me levou à parte pobre. Muito pobre. Onde o cheiro de xixi ganhava a área externa do pavilhão e atingia quem passava por perto.
Ali via o que deveria ser invisível para a menina loira e boazinha. Vi tudo em preto e branco.
E ele, como um tio convencional que precisa proteger a sobrinha, apressava o passo meio avexado, e me tirava dali.
Obedecia ao seu comando, mas virava o pescoço até não mais poder para poder ver. Vi tanto e com tanta dor, que nunca me esqueci.
Na descida para a ala em que morava, ia catando coisas no chão. Tudo. Nada.
Coletava para poder rapidamente preencher o vazio de sentidos que a irmã lhe impusera roubando, isso mesmo, roubando pedaços de suas horas, seus dias, sua vida.
Ele era uma figura elegante. Quando usava calça e paletó brancos de linho, era um evento. Fazia charme pra todos e todas.
Uma vez pediu pra minha avó uma camisa vermelha. Ela nem deu tempo para ele argumentar e lançou um sonoro não!
Disse que jamais o deixaria passar ridículo, que um homem naquela idade não usava vermelho, que ele não era palhaço. Disse. E ele calou . Mas a estória da camisa vermelha pulou o muro do asilo e ganhou a família inteira.
Minha mãe, que tinha um carinho genuíno pelo tio de seu marido, atravessou a autoridade da sogra e deu para o Tio Cleso a tal camisa vermelha. Foi uma alegria. Ele ria sozinho e minha avó cedeu feliz por outra pessoa fazer o que desejava, mas que de seu lugar de guardiã, não poderia permitir.
Edit, a irmã do Cleso, sogra da Regina, avó da Maria Antonia amava de um jeito particular o irmão. Por A mais B ficou para ela a missão de zelar por Cleso, apesar de ter mais dez irmãs.
Lutou para o marido aceitá-lo em temporadas estratégicas e necessárias em sua casa, o fez entender que as “bobajadas” que falava deviam ser relevadas afinal, “era uma criança grande” .
E assim numa luta de vida inteira foi a melhor e mais amorosa amiga que Cleso poderia e merecia ter.
E eu fui a Toninha. A neta da Edit que aprendeu a velhice com o tio avô-criança.

Um comentário:

  1. Eu também coleciono o que a vida me dá e faço dela, dessa coleção, a minha vida. Adorei!

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...