terça-feira, setembro 29, 2009

Dona Baratinha

Foto: Maria Antonia Demasi

Lourdes era uma mulher magra. Sempre foi. Agora, aos 82 anos, continuava magra e feia. Sempre feia.
Mas era rica. Sempre foi rica. E por causa disso, figura conhecida na minúscula cidade do sul de Minas. Mas riqueza que é riqueza nunca anda sozinha. Junto caminha a esquisitice. E essa Lourdes era muito esquisita.
Solteira e sem filhos nunca conseguiu ter amigos. As pessoas apenas a suportavam. Não por caridade, mas por medo. Sim porque Lourdes tinha fama de ser uma velha má. Sua maior arma era o dinheiro e com ele fazia e desfazia-se de quem arbitrariamente escolhia.
As estórias eram sempre iguais. Lourdes se aproximava de uma pessoa, oferecia o ombro amigo e o bolso cheio. Arrumava a vida da vítima e depois fazia dela gato e sapato.
Suas irmãs, Mimita e Anitinha moravam juntas em outra casa. Elas sofriam involuntariamente as consequências dessa irmandade desastrosa. Queriam morrer de vergonha do comportamento vil da irmã, mas, assim como o resto da cidade, não ousavam mexer com ela.
O tempo foi passando, a lista de estragos de Lourdes aumentando, até que ela começou a dar sinais de arrefecimento. Parecia que deixara os seus investimentos humanitários para trás.
Sossegou por alguns meses. Saía pouco de casa. Quando finalmente começou a dar o ar de sua sem gracesa senil, os vizinhos repararam que sua aparência apresentava mudanças. A começar pelas roupas. As saias subiram consideravelmente de comprimento. Agora estavam quase um palmo acima dos joelhos e eram rodadas. As blusas, mais justas ao corpo. Os sapatos ganharam saltos altos e finos.
Seu corpo também mudara. Os seios estavam mais avantajados, sua bunda mais arrebitada e o rosto repuxado.
Repulsa. Espanto. Ironia. Assim reagiram os moradores da cidadezinha que gastavam horas de seus dias estendidos tentando adivinhar quais seriam as próximas investidas da velha.
Aos poucos Lourdes voltou a circular. Andava por toda cidade, de sombrinha rendada em punho, num andar que mais parecia o de uma gazela manca. De tanto em tanto, ajeitava um lugar para sentar e aí então, fazia seu grande número: dava uma puxadinha na saia e cruzava as perninhas. Assim ficava. Paralisada. Olhando freneticamente para os lados a procura de platéia. E isso ela tinha. Era impossível não olhar. E ela só captava o olhar. O resto, as reações cruéis das pessoas, isso passava ao largo daquele corpo bizarro.
Depois de certificar-se de que já havia sido notada, levantava-se e partia.
Quando os passeios de Lourdes já não eram novidade, surgiu o que ninguém, por mais criativo que fosse, poderia imaginar.
Na primeira página do semanário da cidade, um anúncio de meia página, onde se lia:
“Procura-se jovem de até 25 anos, com boa aparência, dentição completa e alfabetizado para compromisso matrimonial imediato”.
Logo abaixo, endereço e assinatura.
Lourdes M.
O alvoroço foi grande. Filas se formavam diariamente em frente a casa da anunciante.
Jovens da roça vinham em pencas. Esses entravam e saiam rapidamente. Forasteiros se arriscavam e engrossavam a fila, mas logo voltavam cabisbaixos para suas cidades.
Passaram-se semanas. A cena já fazia parte da paisagem do município. Até que em uma manhã, a fila empacou. Ninguém se lembrava exatamente quem fora o último candidato a entrar. O fato é que ele não saíra.
Aos poucos a fila foi minguando. Cansaram de esperar.
Foi apenas no final do dia que a porta se abriu dando passagem para Belmiro.
Os curiosos que ficaram esperando a saída daquele que parecia ser o eleito, tiveram dificuldades para reconhecer o rapaz. Pequeno, muito pequeno, um triz para não ser anão.
Rosto comum, roupas comuns.
Quando abriu o portão e ganhou a calçada, alguém gritou: “É o mudinho!”
Espanto geral. Teria aquele moleque ganho a velha rica? Sim. Ganhou.
Em dois meses estavam casados. Com pompa e circunstância.
E então, Lourdes sumiu. Só se via o mudinho circulando faceiro pelas ruas. De carro novo. Roupa nova. Jeito novo. Perguntado sobre a esposa, respondia que ia bem e estava descansando.
As irmãs, preocupadas, foram conferir. Realmente Lourdes estava bem. Só estava descansando.
Até hoje, não se sabe muito bem o porquê da velha precisar de tanto descanso. Desconfia-se.
Isso durou pouco.
Um domingo, Belmiro de terno de linho e Lourdes de saia curta e sombrinha de renda, saíram de mãos dadas para a missa. Sentaram-se no primeiro banco da Igreja, bem próximo ao altar.
Ela - cruz credo!- ela de pernas cruzadas.
Quando o padre anunciou: “todos de pé”, Lourdes não se moveu. Continuou sentada. Catatônica. Morta. Morreu sentada. De pernas cruzadas.
O mudo ficou. Rico. E assim que se desfez o luto, anunciou no mesmo semanário onde Lourdes o encontrou:
"Procura-se mulher com mais de 80 anos, boa aparência, dentição completa e alfabetizada para compromisso imediato".
Belmiro M. (de mudo)

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