sábado, outubro 31, 2009

Atrás das cortinas

Foto: Maria Antonia Demasi

Cada um com seu doente.
É assim que acontece no ambulatório do hospital classe “A”.
Mas os doentes e os acompanhantes são, essencialmente, os mesmos, não importando o luxo ou a decadência que os cercam.
Para garantir privacidade, fecham-se as cortinas. Mas os ouvidos, não.
E, então, pode-se ouvir tudo.
No fechadinho da frente, uma menina-moça mimada. Falava alto, afetada e presunçosamente.
A pobre da mãe, com um tom abaixo, tentava, em vão, domar a princesa enfezada. Quando o pai chegou, a digníssima disparou a falar. Rápido. Desembestadamente. Pedia desculpas, avisava que só tinha ligado porque a mãe insistiu.
A mãe permanecia calada. Separada do marido, da filha, da vida.
O pai respondeu cortando que já havia entendido.
No cantinho ao lado, o senhor Stanislaw entendia as explicações dos enfermeiros com dificuldade, mas distribuía desculpas com singela facilidade. Pelo trabalho que estava dando, pela confusão que causara. Ria. E a mulher ao lado, tão velha como ele, só se ocupava em abrir a bolsa e soltar cheque-caução e dinheiro para a filha comprar um pão de queijo e dois sucos de pêssego. Uma delícia.
Do lado direito, um menino lindo e chorão de olhos azuis reclamava. Antes da injeção. Só por garantia. E os pais, pouco convincentes repetiam que ele já estava bem grandinho para tanto chororô.
E então, a menina- moça mimada foi embora, sem não antes o médico alertá-la de que poderia sim beber, afinal jovens fazem isso, mas com moderação para, na próxima balada, não acontecer novamente de cair troncha no chão, bater a cabeça e desmaiar. Despedidas e risinhos amarelos.
E lá se foi o senhor Stanislaw distribuindo sorrisos, gratidão e gosto pela vida. Foi se recuperar em casa. Era sempre assim.
E nós ficamos. Cheios de assunto. Da vida dos outros. Esperando ouvir notícias sobre nossas vidas.

Seco e esturricado

Foto: Maria Antonia Demasi

Ela era famosa. Ele também. Aliás, não se sabe até hoje quem alcançou maior fama, ele ou ela. Em comum, a mesma morte. De resto, naturezas distintas.
Ela generosa, ele mesquinho. Viviam na mesma terra.
Ele, mais para dentro da cerca, passava os dias a triturar, coar, e armazenar sua mesquinhez.
Ela na beira da estrada, meio cá, meio lá deixava à mostra toda sua frondosa generosidade. E por estar assim tão exposta, ela era admirada pelos que passavam pela estradinha de terra. Muitos não resistiam e acabavam se aproximando mais e mais, até conseguir tocá-la. E ela que essencialmente era um ser que alimentava corpo e espírito de toda gente, se entregava. E por isso ele não se conformava. Era tomado por um sentimento ancestral, a idéia de posse daquilo que pode ser de todos. Nessa luta muda, os dois se engalfinhavam quase que diariamente.
A cada ataque recebido ela parecia ficar mais forte, e ele, mais cruel.
A cada violência sofrida ela respondia com mais vitalidade e ele, com a ira dos infernos.
Foram doze anos assim. A estória ganhou as montanhas e os vales, voou de boca em boca e cada vez que era contada, ele era amaldiçoado por sua maldade. Ela velha ficou mais linda e convidativa. Ele, arqueado, amarelo, sem viço. Num dia de janeiro, estação das águas, imerso no seu negro rancor, resolveu que iria dar fim ao que considerava ser um martírio. Desejava uma solução definitiva. Não suportava mais ter ao seu lado a lembrança de que dentro dela não havia nada vivo. Pegou um machado e seguiu em direção ao desfecho final. Com dificuldade agarrou-se à ferramenta e quando estava pronto para dar o primeiro, do que havia planejado uma série de golpes, foi atingido por um raio. Caiu sem não antes perceber que ela também fora atingida. O raio rachou ao meio seu poderoso tronco.
Morreram os dois: o homem e a mangueira. O corpo ficou escorado num galho. Conheceu a morte ao lado daquela que havia tentado matar durante toda vida.
Dele, só restou pó.
Dela, um pedaço de tronco morto que virou banco onde quem outrora pegava manga agora se senta para contar a estória de um homem que de tão ruim, tão ruim, morreu seco e esturricado ao lado da mangueira que tanto amou.

segunda-feira, outubro 26, 2009

O forte


Foto: Maria Antonia Demasi

Julio César.
Era esse seu nome. Forte. De longe, o mais forte.
Eram três irmãos. Luis Henrique o mais velho. Tobias, o mais novo. Júlio César era o do meio. O único loiro, cabelo de milho, dourado, cheio de cachos preguiçosos. Gostava de colo. Era uma criança.
Tinha um ano e meio e usava fraldas. Forte. Tudo nele tinha força. E seu olhar era múltiplo. Ele era vesgo. Totalmente vesgo.Seus olhos de jabuticabas não paravam quietos. De um lado pro outro, num ir e vir alucinado. O corpo acompanhava o ir e vir dos olhos. Ele não parava e não podia ser parado.
Quando o convidei para segurar minha mão e dar uma volta, ele não titubeou. Era uma descida de grama e terra molhada. Firme, tomou a frente e se pôs a me puxar. Ele definia o caminho. Marcava nossos passos. Imprimia a força que me guiava. Ele era forte.
O destino era o carro. Quando chegamos, peguei Julio César no colo e o coloquei no banco. Era lá que planejava estar. Olhou tudo e começou a balançar o corpo para frente e para trás. Olhava para mim de tanto em tanto. E continuava seu balanço.
Seria estrábico a vida inteira, dissera o médico da cidade. Essa era a sina daquele que era filho de pais parentes. Demora pra acontecer. Mas acontece. Ele era o premiado da vez. Não tinha jeito. Usaria óculos, faria exercícios com a vista, mas seria sempre Julio César, o vesgo.
Não. Não seria. Desde sempre era Julio César, o forte.
Desafiava cada um que encontrava com sua força. Não tinha quem depois de um olhar, não fosse tomado por sua força.
Um pequeno homem forte.
Julio César, o forte.

sábado, outubro 17, 2009

Parada

Foto: Maria Antonia Demasi

Na esquina, um ponto de táxi.
Em pé, conversando com o sorridente taxista, lá estava ela.
Puro lilás. Meias pretas e cabelo branco. Muito arrumada. Bom de ver.
Eu, dentro do carro, só a via de costas. De frente, o taxista sorridente. O tempo inteiro sorridente.
Ela falava sem parar.
Tinha tempo de falar sem parar. Quando se tem tanto tempo já vivido, ganhamos uma permissão especial para falar e falar e os com menos tempo, escutar e escutar. Sem ouvir.
É aí que entra o sorriso do taxista. Ouvir ele não ouvia. Mas sabia que dela, a mulher de lilás, tinha que escutar. Não se tratava exatamente de uma conversa. A parte que lhe cabia se resumia a estar. E se sorrisse então, puro deleite.
Um pouco antes de o sinal abrir, joguei meus olhos para rua. Acho que queria checar o que a esperava.
Dei de cara com uma menina de colo rindo. Rindo muito. E a mãe ria junto enquanto corria fugindo dos carros.
Elas pisaram na calçada no exato momento em que a mulher de lilás se despedia do taxista e tocava a vida pra frente. Mas ela também teve o olhar roubado pela menina risonha. Pararam todas. A velha, a mãe e a menina. E a velha começou a falar. De novo.
Que encontro. Um encontro de iguais. Velha e menina sorrindo. As duas com permissão de falar e falar. E a mãe, síntese do meio tempo, ali parada testemunhando o encontro de dois extremos.
As duas tão semelhantes. O buraco de tempo entre elas, era igual a zero. As duas se olhavam e riam encantadas, uma com a outra, unidas por aquele fio de vida que atado, não se sabia mais onde havia começado e onde terminaria.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Dominó

Foto: Maria Antonia Demasi





















Tudo começou
Num jogo de dominó
Meu pai como sempre
Chegou em casa depois do trabalho
Tirou o paletó
Se jogou na cama
Me jogou pro alto
E gritou com vozeirão
É hoje que vou ganhar sem dó!

Minha mãe logo apareceu
Com a caixa verde na mão
Um tesouro de pedras brancas
Com pintinhas pretas
Que só de ver
Acelerava meu coração

Só que naquele dia minha mãe
Com a cara triste
Falou baixinho
Hoje eu não quero jogar não!

Jogamos eu e meu pai
Mas diferente do que prometeu
Eu ganhei todas as partidas
E ele até se esqueceu
De me deixar prisioneiro
Em cima do armário
Como vingança de um jogador
Que de mim
Só perdeu

De noitão
Não conseguia dormir
Levantei da minha cama
Fui pro quarto deles
E perguntei
O que precisava descobrir

O que aconteceu
Com nosso jogo
Você mãe, não jogou
E você pai, perdeu

Os dois
Fizeram cara de espanto
Me puxaram pro meio deles
Disseram que não era nada
Que estavam cansados
Preocupados
Problemas de gente grande
Pra eu ficar tranquilo
E ir dormir no meu canto

Nosso dominó
Desde esse dia
Não foi mais o mesmo
Meu pai só chegava tarde
Minha mãe vivia chorando pelos cantos
Minha casa ficou vazia e sem alegria

Comecei a jogar sozinho
Não queria incomodar
Mas até isso era difícil
Eles não paravam de gritar

Achei então
Que melhor seria
Se jogasse no lixo
As vinte e oito pedrinhas brancas
Do meu tesouro
Sem ter o dominó
para atrapalhar
Sem ter que comigo brincar
Com certeza
Eles iriam parar de brigar

Armei meu plano secreto
Fiz sumir a caixinha
Agora era só esperar
Que tudo voltasse a ser
Como antes
Vinha

Um dia
Dois dias
Três dias
E nada

Os dois cada vez
Mais estranhos
E cheios de mania
Minha mãe dormia na rede
Meu pai ficava só no computador
E eu que não tinha mais dominó
Agora não tinha também
Meu pai e minha mãe
Estava só

Até que um dia
Me convidaram
Pra comer pizza
Quase não acreditei
Sair com os dois juntos
Que alegria!

M
as durou pouco
Logo que sentamos
Os dois já avisaram
Que nossa vida mudaria

Começaram explicando
Que tudo o que estava acontecendo
Não tinha na a ver comigo
Que me amavam muito
Que eu era um bom amigo
Mas que não se amavam como antes
Por isso não podiam viver juntos
Agora cada um em uma casa
E então senti o perigo

Onde eu iria morar?
Com quem almoçar?
Ter que escolher
Com quem brincar
E se não desse certo
Com quem eu iria ficar?

Mas antes de começar a chorar
Os dois me abraçaram
E disseram
Que nunca iriam me abandonar

Que eu teria agora
Duas casas pra morar
Dois quartos pra dormir
Mas o amor seria o mesmo
As broncas também
Que no começo poderia até ser difícil
Mas que estariam sempre ao meu lado
E prometeram jamais mentir
O que me deixou mais sossegado

Depois de nossa conversa
Começamos a comer
Foi a melhor pizza do mundo
Eu que andava com dor de barriga
Sem vontade de comer
Do prato vi até o fundo

E antes da gente ir embora
Veio a grande surpresa
Um presente apareceu
Em cima da mesa

Abri o pacote feito louco
E quase morri de susto
Dentro de uma caixa verde
As peças de dominó mais brilhantes
Que já tinha visto!
E foi então que me disseram
Isso é para você saber que será
Sempre nosso parceiro
E amigo preferido

Voltamos a ser uma família
Só que agora diferente
Tinha minha mãe
E a namorada do meu pai
O meu pai
E o namorado da minha mãe

Ganhei dois irmãos
Agora somos três meninos
Ensinei os dois a jogar dominó
E a gente nunca está só

sábado, outubro 03, 2009

Porque o mar é salgado

Foto: Maria Antonia Demasi

O Seu Nicolau era um velho muito velho.
Ele morava numa praia linda. A casa dele era pequena e ficava em cima de um morro bem alto.
Da janela do quarto, Seu Nicolau enxergava quase até o fim do mundo.
Ele gostava de ficar sentado numa pedra e ficar olhando o mar mudar de cor conforme o tempo passava.
Logo cedo era azul da cor de seus olhos. De tarde verde como a mata em volta de sua casa e no final do dia, preto como a noite.
A vida do Seu Nicolau era bem tranquila. Só encarava descer para a cidade quando precisava fazer compras.
Um dia, na hora de fazer o almoço, viu que o sal tinha acabado. Então, depois de comer resolveu ir ao supermercado.
Descer era fácil. O duro era subir o morro.
E como Seu Nicolau já tinha experiência de sobra desse sobe-desce, ele fez um saco de pano vermelho, bem grande para trazer tudo o que comprava.
Nesse dia, ele só comprou mesmo sal. Mas para não ser pego de surpresa de novo, comprou logo de uma vez dez quilos! Colocou tudo no saco e pegou o caminho de volta pra casa.
E que caminho legal! Ele voltava pela praia! Tirava os chinelos, suspendia a calça e caminhava sem pressa. Parava pra catar conchinhas, pulava ondinhas e até um sorvete ele tomava.
Só que nesse dia, o saco do Seu Nicolau estava tão pesado que ele logo se cansou. Então, esperto que era, tirou o saco vermelho cheio de sal do ombro, colocou na areia e começou a puxar ao invés de carregar. O problema estava resolvido.
E assim, andando devagar, curtindo o mar, o vento, a vida, Seu Nicolau seguiu feliz. Tão feliz que no pé do morro, pronto pra subir, pensou: “Nossa, uma caminhada assim é tão gostoso, que nem estou sentindo o peso do sal!”
Quando chegou em casa, encostou o saco na parede, foi tomar um copo de água fresca e voltou para guardar o sal numa grande lata.
Foi aí que o Seu Nicolau levou o maior susto de sua vida. O saco estava vazio!
Quase caiu pra trás. Precisou sentar. “Cadê meu sal?” Perguntava pra ele mesmo.
Mais calmo, pegou o saco nas mãos, ajeitou os óculos e começou a investigar o caso. Qual não foi sua surpresa quando descobriu um monte de furinhos no tecido vermelho. O saco estava todo esfolado, esfarrapado... Foi assim, saindo aos pouquinhos, que o sal tinha desaparecido.
Seu Nicolau não se deu por vencido. Desceu correndo o morro e foi tentar juntar o sal que pudesse ter sobrado.
Chegou tão cansado na praia que antes de começar a procura, resolveu tomar um banho de mar.
Ficou só de cuecão e se jogou na água morna do fim de tarde.
Foi aí que o Seu Nicolau percebeu que esse sim era o maior susto de sua vida, não o saco vazio sem os 10 quilos de sal. O mar estava salgado, muito salgado. Como assim? Até então a água era sem gosto, água doce como costumam dizer, e agora estava salgada!
Então o velhinho entendeu o que tinha acontecido. Todo o sal do saco tinha sido engolido pela água e agora todo mar estava assim, salgado.
Seu Nicolau ficou parado um tempão, sentado na areia espiando bem quieto as pessoas falarem sem parar da novidade. A água salgada do mar foi assunto pra muito tempo. Depois, deixou de ser novidade. E o Seu Nicolau nunca contou essa estória pra ninguém. Só para você.
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