segunda-feira, outubro 26, 2009

O forte


Foto: Maria Antonia Demasi

Julio César.
Era esse seu nome. Forte. De longe, o mais forte.
Eram três irmãos. Luis Henrique o mais velho. Tobias, o mais novo. Júlio César era o do meio. O único loiro, cabelo de milho, dourado, cheio de cachos preguiçosos. Gostava de colo. Era uma criança.
Tinha um ano e meio e usava fraldas. Forte. Tudo nele tinha força. E seu olhar era múltiplo. Ele era vesgo. Totalmente vesgo.Seus olhos de jabuticabas não paravam quietos. De um lado pro outro, num ir e vir alucinado. O corpo acompanhava o ir e vir dos olhos. Ele não parava e não podia ser parado.
Quando o convidei para segurar minha mão e dar uma volta, ele não titubeou. Era uma descida de grama e terra molhada. Firme, tomou a frente e se pôs a me puxar. Ele definia o caminho. Marcava nossos passos. Imprimia a força que me guiava. Ele era forte.
O destino era o carro. Quando chegamos, peguei Julio César no colo e o coloquei no banco. Era lá que planejava estar. Olhou tudo e começou a balançar o corpo para frente e para trás. Olhava para mim de tanto em tanto. E continuava seu balanço.
Seria estrábico a vida inteira, dissera o médico da cidade. Essa era a sina daquele que era filho de pais parentes. Demora pra acontecer. Mas acontece. Ele era o premiado da vez. Não tinha jeito. Usaria óculos, faria exercícios com a vista, mas seria sempre Julio César, o vesgo.
Não. Não seria. Desde sempre era Julio César, o forte.
Desafiava cada um que encontrava com sua força. Não tinha quem depois de um olhar, não fosse tomado por sua força.
Um pequeno homem forte.
Julio César, o forte.

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