sábado, outubro 17, 2009

Parada

Foto: Maria Antonia Demasi

Na esquina, um ponto de táxi.
Em pé, conversando com o sorridente taxista, lá estava ela.
Puro lilás. Meias pretas e cabelo branco. Muito arrumada. Bom de ver.
Eu, dentro do carro, só a via de costas. De frente, o taxista sorridente. O tempo inteiro sorridente.
Ela falava sem parar.
Tinha tempo de falar sem parar. Quando se tem tanto tempo já vivido, ganhamos uma permissão especial para falar e falar e os com menos tempo, escutar e escutar. Sem ouvir.
É aí que entra o sorriso do taxista. Ouvir ele não ouvia. Mas sabia que dela, a mulher de lilás, tinha que escutar. Não se tratava exatamente de uma conversa. A parte que lhe cabia se resumia a estar. E se sorrisse então, puro deleite.
Um pouco antes de o sinal abrir, joguei meus olhos para rua. Acho que queria checar o que a esperava.
Dei de cara com uma menina de colo rindo. Rindo muito. E a mãe ria junto enquanto corria fugindo dos carros.
Elas pisaram na calçada no exato momento em que a mulher de lilás se despedia do taxista e tocava a vida pra frente. Mas ela também teve o olhar roubado pela menina risonha. Pararam todas. A velha, a mãe e a menina. E a velha começou a falar. De novo.
Que encontro. Um encontro de iguais. Velha e menina sorrindo. As duas com permissão de falar e falar. E a mãe, síntese do meio tempo, ali parada testemunhando o encontro de dois extremos.
As duas tão semelhantes. O buraco de tempo entre elas, era igual a zero. As duas se olhavam e riam encantadas, uma com a outra, unidas por aquele fio de vida que atado, não se sabia mais onde havia começado e onde terminaria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...