sábado, outubro 03, 2009

Porque o mar é salgado

Foto: Maria Antonia Demasi

O Seu Nicolau era um velho muito velho.
Ele morava numa praia linda. A casa dele era pequena e ficava em cima de um morro bem alto.
Da janela do quarto, Seu Nicolau enxergava quase até o fim do mundo.
Ele gostava de ficar sentado numa pedra e ficar olhando o mar mudar de cor conforme o tempo passava.
Logo cedo era azul da cor de seus olhos. De tarde verde como a mata em volta de sua casa e no final do dia, preto como a noite.
A vida do Seu Nicolau era bem tranquila. Só encarava descer para a cidade quando precisava fazer compras.
Um dia, na hora de fazer o almoço, viu que o sal tinha acabado. Então, depois de comer resolveu ir ao supermercado.
Descer era fácil. O duro era subir o morro.
E como Seu Nicolau já tinha experiência de sobra desse sobe-desce, ele fez um saco de pano vermelho, bem grande para trazer tudo o que comprava.
Nesse dia, ele só comprou mesmo sal. Mas para não ser pego de surpresa de novo, comprou logo de uma vez dez quilos! Colocou tudo no saco e pegou o caminho de volta pra casa.
E que caminho legal! Ele voltava pela praia! Tirava os chinelos, suspendia a calça e caminhava sem pressa. Parava pra catar conchinhas, pulava ondinhas e até um sorvete ele tomava.
Só que nesse dia, o saco do Seu Nicolau estava tão pesado que ele logo se cansou. Então, esperto que era, tirou o saco vermelho cheio de sal do ombro, colocou na areia e começou a puxar ao invés de carregar. O problema estava resolvido.
E assim, andando devagar, curtindo o mar, o vento, a vida, Seu Nicolau seguiu feliz. Tão feliz que no pé do morro, pronto pra subir, pensou: “Nossa, uma caminhada assim é tão gostoso, que nem estou sentindo o peso do sal!”
Quando chegou em casa, encostou o saco na parede, foi tomar um copo de água fresca e voltou para guardar o sal numa grande lata.
Foi aí que o Seu Nicolau levou o maior susto de sua vida. O saco estava vazio!
Quase caiu pra trás. Precisou sentar. “Cadê meu sal?” Perguntava pra ele mesmo.
Mais calmo, pegou o saco nas mãos, ajeitou os óculos e começou a investigar o caso. Qual não foi sua surpresa quando descobriu um monte de furinhos no tecido vermelho. O saco estava todo esfolado, esfarrapado... Foi assim, saindo aos pouquinhos, que o sal tinha desaparecido.
Seu Nicolau não se deu por vencido. Desceu correndo o morro e foi tentar juntar o sal que pudesse ter sobrado.
Chegou tão cansado na praia que antes de começar a procura, resolveu tomar um banho de mar.
Ficou só de cuecão e se jogou na água morna do fim de tarde.
Foi aí que o Seu Nicolau percebeu que esse sim era o maior susto de sua vida, não o saco vazio sem os 10 quilos de sal. O mar estava salgado, muito salgado. Como assim? Até então a água era sem gosto, água doce como costumam dizer, e agora estava salgada!
Então o velhinho entendeu o que tinha acontecido. Todo o sal do saco tinha sido engolido pela água e agora todo mar estava assim, salgado.
Seu Nicolau ficou parado um tempão, sentado na areia espiando bem quieto as pessoas falarem sem parar da novidade. A água salgada do mar foi assunto pra muito tempo. Depois, deixou de ser novidade. E o Seu Nicolau nunca contou essa estória pra ninguém. Só para você.

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