sábado, outubro 31, 2009

Seco e esturricado

Foto: Maria Antonia Demasi

Ela era famosa. Ele também. Aliás, não se sabe até hoje quem alcançou maior fama, ele ou ela. Em comum, a mesma morte. De resto, naturezas distintas.
Ela generosa, ele mesquinho. Viviam na mesma terra.
Ele, mais para dentro da cerca, passava os dias a triturar, coar, e armazenar sua mesquinhez.
Ela na beira da estrada, meio cá, meio lá deixava à mostra toda sua frondosa generosidade. E por estar assim tão exposta, ela era admirada pelos que passavam pela estradinha de terra. Muitos não resistiam e acabavam se aproximando mais e mais, até conseguir tocá-la. E ela que essencialmente era um ser que alimentava corpo e espírito de toda gente, se entregava. E por isso ele não se conformava. Era tomado por um sentimento ancestral, a idéia de posse daquilo que pode ser de todos. Nessa luta muda, os dois se engalfinhavam quase que diariamente.
A cada ataque recebido ela parecia ficar mais forte, e ele, mais cruel.
A cada violência sofrida ela respondia com mais vitalidade e ele, com a ira dos infernos.
Foram doze anos assim. A estória ganhou as montanhas e os vales, voou de boca em boca e cada vez que era contada, ele era amaldiçoado por sua maldade. Ela velha ficou mais linda e convidativa. Ele, arqueado, amarelo, sem viço. Num dia de janeiro, estação das águas, imerso no seu negro rancor, resolveu que iria dar fim ao que considerava ser um martírio. Desejava uma solução definitiva. Não suportava mais ter ao seu lado a lembrança de que dentro dela não havia nada vivo. Pegou um machado e seguiu em direção ao desfecho final. Com dificuldade agarrou-se à ferramenta e quando estava pronto para dar o primeiro, do que havia planejado uma série de golpes, foi atingido por um raio. Caiu sem não antes perceber que ela também fora atingida. O raio rachou ao meio seu poderoso tronco.
Morreram os dois: o homem e a mangueira. O corpo ficou escorado num galho. Conheceu a morte ao lado daquela que havia tentado matar durante toda vida.
Dele, só restou pó.
Dela, um pedaço de tronco morto que virou banco onde quem outrora pegava manga agora se senta para contar a estória de um homem que de tão ruim, tão ruim, morreu seco e esturricado ao lado da mangueira que tanto amou.

2 comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...