segunda-feira, dezembro 28, 2009

Copacabana

Foto: Maria Antonia Demasi
Conto da autora desse blog vencedor em 1º lugar do 27º Concurso Literário Yoshio Takemoto 2009 na Categoria Língua Portuguesa, promovido pela CAQUI – Revista Brasileira de Haicai.










Helena saiu do apartamento apressada. Não sabia bem porque, mas sentia uma urgência úmida no ar.

Chegando à portaria, sentiu medo. O zelador, de cara assustada, ao perceber a presença muda da velha senhora, lançou para o ar:
- Ela vai sair! Que é que faço?
Helena não ouviu nada. Já fazia alguns meses - ou seriam dias? - que ela percebia nas pessoas reações estranhas, mas em nenhum momento arriscou entender o que poderia ser apenas uma sensação passageira.
- Livre! Foi a palavra que voou de sua boca assim que alcançou a calçada.
Pisou firme e partiu guiada pelo cheiro. Cheiro trazido pelo vento que conhecia desde sempre, só que nessa manhã ela não sabia ao certo o que era o sempre, o que fora o ontem e sobre o amanhã, bem a verdade é que o amanhã não tinha mais espaço reservado em sua mente.
Duas quadras, doze amendoeiras (se é que ela não se perdeu... nas contas, é claro) e de assalto um grande barulho e uma mão segurando seu braço direito.
O guarda municipal podia considerar seu dia ganho. Se não tivesse segurado Helena quando já colocava um pé no asfalto da famosa avenida... já era!
-Bom dia madame! Posso ajudar em alguma coisa?
-Sim, claro. Quero saber se já cheguei.
-Bom, disse o homem da lei, depende de onde a senhora quer chegar.
Helena sorriu como que por misericórdia. Como aquele jovem fardado sem o menor senso de direção, poderia então “ajudá-la em alguma coisa”?
Agradeceu mesmo assim, desvencilhou-se da mão que insistia em segurá-la e como guiada agora por outra mão, a mão firme de seu protetor, São Sebastião, sentiu que poderia continuar andando.
Deu dois passos e o barulho que ouvira virou uma tempestade: raios e trovões, gente correndo em sua direção e de novo aquelas expressões que insistiam em perseguí-la.
Seus ouvidos, que até então pareciam tapados, subitamente abriram-se e ela pode ouvir frases desconexas como: “vai ser atropelada”, “como alguém sai de casa com essas roupas”, “coitada”, “cadê a família”...
Achou tudo muito confuso, mas conveniente porque foi apenas abrir os olhos que instintivamente haviam se fechado e chegar onde queria e não sabia.
-Finalmente! suspirou Helena.
Já era hora de poder se lavar. Fazia isso há sessenta e dois anos, desde o dia em que deixou para trás as Minas Gerais profunda - onde a maior água é a do velho Chico - para viver bem perto das “águas que não tem fim” como dizia alguém que agora não se lembrava quem.
Começou a tirar o que vestia e estava grudado em seu corpo tão úmido quanto o ar que respirava com dificuldade irritante.
Quase flutuando (era sempre assim) passou pelo que chamava de “colchão mais quente dessa terra tão quente” e extasiada, se deixou levar pelo abraço da água que sabia salgada.
Sabia e sentia mais.
Sabia que a água estava gelada e por isso, sentia raiva.
Sempre que essa espécie de frio cínico invadia suas entranhas, sentia raiva. Muita raiva. Gélida raiva. Mas nunca resistia. Aceitava essa invasão com altivez estudada, quase decorada por alguma parte de sua mente que se ocupava em colocar suas temperaturas emocionais num grau socialmente aceitável.
Mas agora alguma coisa parecia ter mudado.
Não sabia o que viria depois da raiva, o que deveria fazer depois dela passar, se é que ela passaria... E então veio o nada.
E Helena percebeu que o nada era um desconhecido.
Começou a mover o corpo não só para esquentá-lo, mas para poder, quem sabe, deixar o nada mais à vontade (essa era também a tática que usava para raiva).
Do nada para esquerda.
O que viu encheu seus olhos. Uma grande construção, do tempo em que o tempo apagou de sua mente. Tão grande pensou, como um grande pai, corajoso e forte. Forte. Era esse o nome que sabia daquela estrutura encravada nas pedras.
E Helena sentiu-se forte por ver e reconhecer.
Ver com sentido. Ver entendendo como parte de sua vida espaços que a cercavam.
Mas isso durou pouco. Durou duas palavras, dez letras: d u r o u p o u c o.
O nada voltou e do nada foi tirada pelo susto.
Assustou-se com uma figura jovem apoiada no que considerou ser “uma tábua de passar roupa flutuante”. Ao tentar aproximar-se percebeu que sua camisola (só agora percebia que estava com a camisola azul bebê que tanto gostava) havia se enroscado naquele estranho tipo de bóia.
-Desculpa aí! Foi mal...
E o rapaz, meio sem jeito, como que adivinhando a necessidade do outro se encontrar, enunciou mais uma vez, o que para Helena ainda fazia parte do desconhecido.
-Acho que a senhora precisa de ajuda.
Helena não entende e pensou:
“Ajuda? Não entendi. De novo. Não entendi nada.”
Puxou a ponta de seu traje longo, deu dois passos para frente e parou. Foi parada. Pelo chão que afundava bem embaixo de seus pés. Pela água, que orgulhosa de ser água, afundava aquele que não conseguia saber quem era.
“Como minha vida", pensou alto Helena.
E como já tinha feito tantas vezes em sua vida (apesar de agora não fazer a mais pálida idéia disso), decidiu reagir e seguir em frente.
Pisou novamente no “colchão quente”. Só que dessa vez tinha os pés gelados, o que facilitou o que encarava como uma verdadeira jornada para onde não sabia.
E quando estava quase chegando, reconheceu uma voz.
- Mãe!
Foi como a ducha fria, de água doce, que ela tanto gostava de tomar quando voltava para casa. Alívio. Porto seguro. Entrega.
- Mãe, eu sei aonde a senhora quer ir. Vamos lá, eu ajudo.
E assim as duas mulheres, uma tão velha e fluída e outra tão jovem e tensa, chegaram trôpegas pelo calor e pela vida, ao banco onde o silêncio as esperava.
Helena sentou-se com a elegância de uma verdadeira dama. Olhou para Drummond congelado e, exausta, balbuciou o segredo que se desvendava a cada encontro.
- Não posso mais te encontrar. Tem um homem, acho que um alemão, um tal de Alzeimeher, que não me deixa mais sozinha, tenta me prender em casa. Ele não quer que eu ande mais por .... Como é mesmo o nome dessa praia?
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