quinta-feira, dezembro 30, 2010

Branco total












Ele deixava as roupas de baixo dela brancas, branquinhas. Calcinhas, anáguas e sutiãs. Tirava as marcas do tempo - quanto tempo! – e da sujeira do corpo doente - quanta sujeira! Fosse o que fosse. Se a essência fosse branca, ele teria que manter assim.
Fazia por gosto. Gosto de agradar. De gostar de agradar. De gostar de agradar Dona Onofra.
Nem ela que já tivera três homens obedientes antes dele entendia bem como aquela obediência feliz se dava. Armindo nunca deixava de agradecê-la por poder ser seu servidor. Onofra calava.
Aos que, a boca pequena, comentavam tamanha dureza de coração convivendo com tanta delicadeza, só sobrava o pequeno prazer de acompanhar o dia a dia capenga daquele casal.
A mulher, já velha de idade e de encanto pela vida, amanhecia a cada dia com uma dor diferente, num pedaço diferente do corpo. Ardia, puxava, latejava, queimava, repuxava. Estropiada. Era assim que ela seguia.
O homem, não tão velho e cheio de vida, ouvia com seus olhinhos azuis as lamúrias da amada. Era tanta devoção que Armindo não via - só ouvia - a feiúra de Onofra.
Ela era muito feia. Cara grande. Cara de cavalo...
Ela era muito dura. Mal humor. Humor de cão...
Mas era assim que a vida se dava. No equilíbrio sutil da impossibilidade que a diferença escancarava.
Num dia em que o sol castigava a cabeça de todos, mas um pouco menos a de Onofre, que era protegida pelo indefectível chapéu de feltro marrom, Arminda mandou o homem aproveitar aquele bactericida natural e colocar para quarar suas peças íntimas e brancas.
Armindo não titubeou. Enquanto lidava com um conjunto de bacias de ordem decrescente, pensava na perspicácia de Arminda. Ela que rapidamente determinou o seu fazer percebeu que o calor de 37 graus seria excelente para ele manejar roupas, baldes cheios de água, plásticos e vários tipos de produtos de limpeza e tudo isso, no quintal de cimentão branco que refletia sem dó nem piedade os raios ferventes do astro rei.
Quando, num momento comercial de sabão em pó, o quintal expunha um cenário de apologia à brancura, Armindo não se conteve e gritou por Onofra. Seria um momento lindo. Um convite quase sensual para os dois, juntos, contemplarem o branco impossível.
Mas ela não foi. Não foi. E ele acabou indo. Quando chegou na sala, seu coração queimava no peito.Não era calor. Era intuição. Quase por instinto, olhou para o chão. Lá estava ela. Corpo frio. Branca. Mais branca que as peças que não pode ver. Morreu assim.
Onofre discou 190. Enquanto esperava, foi ver se já estava no tempo de recolher as bacias. No tempo de começar a viver.

sábado, novembro 20, 2010

Companhia de Dança Carole Solvay

Foto: Maria Antonia Demasi














Bailarinas prisioneiras alongavam os corpos e recostadas no vidro frio de suas almas seguiam dançando o mundo.

Coleção Carole Solvay

Foto: Maria Antonia Demasi














Vestida de alma deixou seu corpo e foi para cama.
Era noite de gala.

domingo, novembro 14, 2010

É assim que é

Foto: Maria Antonia Demasi

Sentada. Ou melhor, deitada.
Deitada na cadeira da dentista sentiu saudades de quando passava a língua pelos dentes e sentia a superfície lisa de cada um deles. Só os dentes. Só risos.
Agora a língua percorre uma sequência de acidentes periodônticos. Abalo sísmico dental, cratera ortodôntica, vales intradentes tudo envolto de cimento e resina. Muita resina.
Exausta não consegue achar razoável o ponto em que chegou. Sorri amarelo quando ouve a velha dentista dizer que tudo está ficando lindo. Acha graça de como o conceito de beleza pode ser tão largo.
Sorriso largo.
Engole seco – bem seco, pois já não tem saliva como tinha e desiste de pensar no que não pode ter de volta.

Deitada. Ou melhor, recostada.
Recostada na cama, depois de um dia duro de engolir, se prepara para o encontro esperado. Pega o livro, encontra a página marcada no dia anterior e pára. Para pegar os óculos. Bufa. Acerta o modelo que foi da avó no nariz que também é herança da avó. Grande.
Ajeita travesseiro, livro, óculos e começa. Para. Precisa pôr a placa na boca. Poe. E tira. E bufa. Volta a pôr. Desconforto duplo. Acha graça de como o conceito de desconforto pode ser tão amplo.
Ampliar horizontes.
Começa a ler – lê pouco, pois já não tem disposição como tinha e desiste de pensar no que não pode ter de volta.

Em pé. Ou melhor, arqueada.
Arqueada ao lado da cama, repassa por alguns segundos a noite que passou. Frio e calor alternados, cabeça ora com, ora sem travesseiro, sobressaltos na madrugada e sonhos. Muitos sonhos.
Ainda acorda faminta. Sempre foi assim. Só que agora tem que esperar meia hora – a mais longa meia hora de seu dia para poder comer.
Antes, o remédio. Tateando o tampo do criado mudo, alcança a caixinha de plástico com práticas divisões diárias. Vez do rosa redondo. Depois, quando se lembrar, o salmão retangular. Dupla dinâmica indispensável para manter o próprio dinamismo vivo.
Acha graça quando percebe que já se foram seis dias da semana e que já faz tempo em que o ritmo de sua vida tem sido marcado pelo cheio e/ou vazio dos quadradinhos.
Saco cheio. Vida quadrada.
Vai se vestir já não acha tanta graça em se produzir – e desiste de pensar na vida que não pode ter de volta.
Segue vivendo aquela que tem pela frente.

terça-feira, novembro 02, 2010

Quantos contos

Foto: Maria Antonia Demasi

Perdeu as contas de quantos contos tinha para escrever. Na cabeça não cabiam mais. Começou a ajeitá-los em cantos da casa. Nas quinas das paredes, nos degraus da escada, no forro pintado de branco.
Só não contou com o fato dos contos espalhados pelos cantos fossem se encantar com as fotografias que descansavam nos álbuns de sua estante.
E eram tantos álbuns, tanta vida colorida que o encontro dos contos com as imagens foi puro encanto.
Colados assim um ao outro ganharam de espanto o espaço de que tanto precisavam.
Agora são vida.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Cálculos

Foto: Maria Antonia Demasi

Fazia cálculos. A lápis. De cabeça baixa, não dava para perceber se era jovem ou velha. Mas os cabelos grisalhos denunciavam a idade.
Velha.
Capote, sapatos puídos nas pontas, meia escocesa furada. Enfiada nos cálculos.
Quando o trem parou no meio do caminho escuro, o sinal vermelho acendeu e um burburinho amedrontado tomou conta do vagão. Dela não. Aproveitou a parada do sacolejo para sacar do bolso do paletó roto, uma maçaroca de papel higiênico e uma borracha. Secou o nariz que insistia em pingar em cima dos papéis dos cálculos e apagou com força errante, muitos números errados.
Antes de chegar à estação de Nova York, uma página inteira de caderno escolar, já estava preenchida. Cálculos dificílimos que sobem que descem que entopem linhas ganham flechas, colchetes, parênteses... Olha para a página de trás, volta o olhar louco para a da frente e num ato de total desespero, saca do fundo da sacola rasgada de rodinhas, uma calculadora. Não das simples. Das compostas. Com vários sinais transcendentais da mais pura Matemática Aplicada.
Começou a apertar os botões. Com pressa. Com raiva. Com medo.
Foi quando, sem antes de chegar a algum resultado, a voz gravada do maquinista anunciou o ponto final da viagem. Pânico. Enfia todos os cálculos na sacola. Com as mãos trêmulas coloca a calculadora na boca, entre os dentes amarelados, para depois prendê-la com uma mordida de loba enfurecida.
Cambaleante, sai do vagão, solta um uivo dilacerado e começa a rir insanamente enquanto acompanha com o olhar a calculadora caindo no vão entre o trem e a plataforma.
Subitamente o silêncio se fez. A mulher, absorta, virou-se a seguir em direção ao vazio deixando para trás a calculadora que virou nada.

domingo, setembro 05, 2010

O Retorno de Madame Mim

Foto: Maria Antonia Demasi

O mundo é tarja preta, uma caixinha de papelão entulhada de comprimidos brancos presos a cápsulas de plástico que, pressionadas – pressionados que somos por soluções práticas – eclodem vitoriosos.
Encoste a barriga no balcão da farmácia que mais parece uma padaria tamanha alegria! que o cliente vivencia ao ver que a receita está completa e as duas vias, corretas. E tudo fica ainda melhor, se acrescido o fato do atendente discreto evitar te encarar frente a frente com cara de quem está te achando tão doente...
E um dia quem sabe, você se encha de forças e declare exultante: parei com essa droga! daqui por diante, só um relaxante.
Muita gente sabe que esse dia chega, enfim.
Aproveite!
Mas saiba que não é simples assim.
Você em breve voltará para o mundo tarja preta, o mundo da Madame Mim.

quinta-feira, julho 15, 2010

Doritos

Foto: Maria Antonia Demasi

Sentada no chão da sala de TV. Esparramada na dor de sei lá o que. Acompanhada de um litro de Coca aberto e sem gás. Saco de bolacha vagabunda pra enfiar a dor. Foi assim que ela aprendeu a ser parceira de si mesma. Na alegria - quase nunca -, na tristeza -, um quase sempre injusto.
Era linda. Mas não foi sempre assim.
Nasceu feia. Olho esbugalhado. Cabeça grande. E vomitando. Sempre e muito.
Cresceu como a mais nova dos três filhos querida da mamãe. Mamãe que a carregava pra cima e pra baixo, orgulhosa da menina destemida, esperta, arisca. Um cisco. Cisco Kid.
Por isso não entendia porque na hora de jogar bola na rua, não podia. Implorava em fazê-lo na posição mais oposta a sua energia: o gol. Só no gol... Deixa, mãe! Por favor... A mãe às vezes deixava – por cansaço de resistir – às vezes negava – por intuição.
Por definição da mesma mãe, um dia acordou linda. Lindíssima.
Então, saiu do gol. Mudou de posição. Passou a jogar no ataque da beleza com direito a treinadora. A mãe.
Seguia assim. Linda. Lindíssima.
Adolescente desejada. Amigas não tão lindas. A bem da verdade, não tão feias.
Sem graça, escondia das amigas o que a mãe escancarava para a família. A menina era modelo de roupas de gestante. Tão nova, mas tão linda que consegue vender até batas e batinhas. Nada que uma barriga de mentira não consiga resolver.
De mentira. Foi assim que começou a entender a mentira. Fingia que. Que era feliz assim. Que era natural assim. Que se sentia assim: modelo de feminilidade.
Foi o irmão do meio que avisou a irmã mais velha que na sala de TV, cada dia mais, se espalhava migalhas de bolachas e copos vazios com fundo negro melado de coca cola. Ficaram preocupados. E calados.
Seguia assim. Linda. Lindíssima.
Um dia disse sim. A um rapaz.
Disse que se casaria com ele. Tão nova. Tão linda.
Acostumada a fingir que era o que não era não deu conta na hora H, do cabelo, da maquiagem e do vestido de noiva.
O cabelo desmanchou. A maquiagem lavou. Mas o vestido ficou. E ela se casou.
Um filho. Dois filhos. Três filhos. Era mãe de verdade.
Um ano. Dois Anos. Dez anos. Não era mulher de verdade.
Separou. A aparência da realidade. O suportar do viver. A verdade da mentira.
E foi viver.
Sem posição oficial no jogo que acreditava perdido. Dispensou a treinadora. Mas não o desejo de voltar a fazer parte daquele time primeiro, da infância, da rua. Nem que fosse pra começar na reserva pra depois chegar ao gol. Depois.
Encontrou uma antiga amiga. Que jogava bola. Que se lembrava dos sacos de bolacha e da coca cola e que achou graça em saber que as bolachas foram trocadas – influência dos filhos – por Doritos.
Seguia assim. Linda. Lindíssima.
Acertou sua posição. Revezava com a amiga o meio de campo e o ataque. Na defesa, só se necessário.
Um ano. Dois anos. Nove anos.
Era uma mulher de verdade.
E então foi separada. Da alegria de conhecer. Do desejo de ter. Da vontade de ser. Ficou sem a amiga.
E foi viver. Tentar viver.
E enquanto não consegue, continua esparramando em qualquer sala de TV, copos de coca cola, sacos de Doritos e dor.

sábado, julho 10, 2010

Dedicatória

Foto: Maria Antonia Demasi

...E nesse seu aniversário quero dizer de meu amor por você. Luz de minha vida, razão de meu viver...
Corta! Parou! Olha só: vocês precisam ficar sorrindo, boca arreganhada, de tanto em tanto dão uma viradinha e olham um pro outro. Sorrindo. Sempre sorrindo. Vamo lá? Valendo! Gravando!

...E por você, tesouro de meus dias, fazer hoje aniversário, ofereço-te essas palavras e acima de tudo meu coração...
Corta, corta! Olha aí, to entendendo que vocês são amigos do casal aqui, vieram pra comemorar o aniversário da Deusinha, dá aquela força, mas é o seguinte: se continuarem nessa zona aí de fundo, o vídeo vai ficar uma bosta! Tem que fazer cara de quem tá achando linda a homenagem surpresa, a música do Wando de fundo, senão fode tudo e o amigo vai ter gastado dinheiro à toa. Então é o seguinte. Agora vem a parte que eles vão se beijar. Eu vou soltar três rojões, vocês tem que bater palma e não falar merda. Esse vídeo é coisa fina e ainda vai poder dá uma chance pro Everaldo mandar pra algum programa de televisão pra ganhar prêmio, bufunfa. Então, colaboration!
Gravando, pau na máquina!

...E espero que você aceite o meu beijo como prova de meu mais sincero amor e dedicação. Que nosso casamento continue por muitos e muitos anos para que juntos a gente possa comemorar todos os seus aniversários. Minha linda te amo, te adoro e vou te beijar...
Que porra é essa que tá acontecendo aqui? Meia noite, hora de silêncio e vocês com essa porra desse som nessa puta altura... Desliga essa merda agora!
Chefia dá só mais um tempinho, é a cena do beijo, só falta o beijo...
Que beijo que porra nenhuma. Quer fazer festinha vai pra motel, aqui é centro da cidade. Os caras que moram aqui tão putos, ligando direto pro 190. Circulando!
Mas chefia o Mané ali já pagou 150 reais pra esse show particular pra patroa. Deixa pelo menos gravar o beijo!
Já falei. Se beijou, beijou. Se não beijou, beija em casa!
Olha aí Everaldo: fica sussa. Eu vou fazer um desconto de 50 paus pra você por causa dessa treta com a autoridade. Mas fica sussa. Ficou da hora a gravação. Você leva jeito pra coisa. E você Dona Deusinha, tá de parabéns pelo marido, pela boa forma e sorriso bonito. A fita eu mando semana que vem e os balões que a gente ia soltar na hora do beijo tá no desconto que dei.
Vamo embora Cidoca, tem outra parada lá em Itaquera. Lá é beleza. Não tem nego invejoso pra miá a festa de Mané nenhum.

terça-feira, junho 22, 2010

Lamúria embaçada

Foto: Maria Antonia Demasi

Já perdi a compostura. Choro onde tiver que chorar. Ainda não existe legislação restritiva ao ato anti-social de chorar. Então choro. E assim presto um serviço à sociedade. Não o óbvio de abrir as portas dos espaços públicos para o choro. Um mais nobre.
O de pensar, quando flagrar alguém chorando, a razão de tal desatino e depois, de tanto pensar, sem ao menos perceber, começar também a chorar. Ao perceber o quão miserável é a sua vida. O quanto o pote está até aqui de mágoa. E quando formos finalmente perguntados (sim, porque choramos em público para acionar a compaixão curiosa do outro):
Porque está chorando assim? A gente passa a mão desajeitadamente pelo rosto, dá uma fungada e responde: Nada não. Tá tudo bem.
E lá vai o outro, aliviado pela missão cumprida. E lá fico eu. Menos fungante. Menos encharcada.

E quando tudo aconteceu ela ...

chorava tanto e tão chorado que até o par de óculos que descansava em seu colo, ficou ensopado. Ensopado não. Melado. Lágrimas com creme para as mãos e cutículas. Um embaço.
Pegou o lenço do marido emprestado. Lenço de pano Presidente com um pequeno coração vermelho pintado há muito por ela.
Enxugou primeiro o rosto também ensopado, melado, embaçado.
Sem desejar, mas já prevendo o estrago, verificou que a base líquida deixara o rosto para cobrir outras manchas, as do lenço.
Esfregou o tecido já gasto – e por isso macio – como se fosse uma esponja tirando sujeira grossa de um corpo sujo imerso na banheira.
Faltavam os óculos.
Com o lenço já molhado, imaginou que seria adequado usá-lo para secar as lentes e ao mesmo tempo tentar remover o tal embaço.
Ledo engano. Quanto mais esfregava, pior ficava. Julgou que não adiantaria insistir. Tem embaço que só é vencido com limpeza mais profunda. Soluções provisórias não dão conta desse trabalho.
Deixou assim. Ao menos estavam secos. Mas tecnicamente embaçados.
Devolveu os óculos para a caixinha vermelha. Checou se o rosto já estava completamente seco. Suspirou. Bufou. E seguiu como se nada tivesse acontecido. Afinal, despencar num choro é algo muito natural. Muito.

sexta-feira, junho 18, 2010

Encontro de magos

Fotomontagem: Maria Antonia Demasi














Quando tentou lembrar-se há quanto tempo o conhecia, não conseguiu. Buscou na memória algum acontecimento importante que ligasse fato à pessoa. Não conseguiu. Só vinham sensações. Falta de ar. Incômodo. Aprisionamento.

Conseguiu dar forma e lugar para tanto estranhamento. Um quarto frio de Pousada simples. Seu corpo esparramado na cama e o coração espremido por milhares de palavras. Não conseguia sair dali.
Tudo se resumia a conseguir.
Imaginava como um homem conseguia falar de outros homens, todos os homens, com tanta precisão. Fazia um esforço tremendo para conseguir descobrir como ele tirava da alma desses homens tanto horror, tanta coragem, tanta vida.
Invejava a crença de quem não crê em que todos crêem.
Por isso quando naquela manhã – mais uma manhã – ouviu que ele estava morto, só conseguiu chorar.
Como tão distante dele, tão paralisada por nada poder fazer, começou a pedir ajuda.
Pediu para o camarada Leon recebê-lo como manda o figurino de um bom partido. Avisou Frida que ele era meio carrancudo, mas que bastaria uma boa gargalhada para ele desmontar. Diego também poderia seduzí-lo com o calor de seus discursos virulentos.
Achou que precisava de música, afinal tê-lo tão perto é algo que merece festa. Chamou Astor e alertou que ele talvez estivesse cansado, afinal vinha doente há algum tempo. Mas nada que seu bandeon não resolvesse.
Sentiu-se aliviada por garantir conforto ao amigo (nem percebeu que já o chamava de amigo), e quando enxugava o rosto lembrou-se de Fernando. Não precisou pedir nada. Já estavam a conversar.
Só conseguiu ouvir a voz rouca de um...
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
E o sussurro do outro...
“O essencial é saber ver.
Saber vem sem estar a pensar.
Saber ver quando se vê.
E nem pensar quando se vê.
Nem ver quando se pensa.”

Sentiu-se aliviada. Era o encontro que faltava. Seguiu tranquila. Já haviam se reconhecido. Dois magos que deixaram a magia dos livros para nós que ainda estamos aqui.

quinta-feira, junho 17, 2010

Nas alturas

Foto: Maria Antonia Demasi














Apareceu pela esquerda. No meio da rua. Um homem de preto. Um vara-pau.
Magrelo.Magricelo.Impossível não olhar. Vinha caminhando no desengonço que seu tamanho imprimia. Alto. Muito alto. Cabelo de lado. Com gel. Óculos Ray Ban. Camiseta básica de mangas curtas apesar do vento frio da manhã paulistana. Mas era imperioso que fosse assim. Do contrário, como mostraria as tatuagens que cobriam todo seu braço esquerdo? Braços magrelos. Magricelos. Calça preta. Justa. Na mão direita carregava uma jaqueta - just in case – e uma pasta poliondas de plástico azul.

O ciclista que vinha na contramão virou-se para ver aquele homem que de sua altura parecia estar acima do bem, do mal e do normal.
Olhou uma vez. Continuou pedalando. Olhou outra, só que dessa vez, precisou apostar numa manobra perigosa: continuar pedalando e virar o pescoço para trás. Passou o semáforo no amarelo, ainda na contramão e mais uma vez, parecendo não acreditar no que via, manobrou pescoço e cabeça. Quase que por inércia do espanto diminuiu a velocidade e seguiu. Sem não antes, balançar a cabeça num movimento da direita para esquerda e da esquerda para direita como que estivesse sua boca dizendo: “isso não tá certo...”
Há três quadras dali, outro homem alto. Muito alto. Magro. Magricelo. Parado ao lado de um conjunto de telefones públicos – três dispostos em cacho, sendo que um deles mais baixinho, para cadeirantes ou crianças – parecendo esperar sua vez, apesar de apenas um aparelho estar ocupado. Em frente ao homem uma parede de vidro espelhado. Perfeita para sua vaidade. Não resistiu ao encanto de narciso e numa virada de corpo ligeira ficou cara a cara com a sua imagem. Languida. Checou os cabelos. Pareceu avaliar perfeitos em seu tom caju. Em sua textura peruca. Passou rapidamente o olhar pela jaqueta branca que usava. Pareceu aprovar. Mas foi então que veio um mal estar explícito. A calça jeans. Com as duas enormes mãos começou a puxar a parte traseira das pernas da calça. Sim, sobrava tecido. Ele estava muito magro. Magrelo. Ficou incomodado. Puxava mais, como se quisesse fazer uma prega imaginária. Olhava para trás. Olhava para o espelho. Olhava de novo para trás. Parecia procurar uma maneira de alinhavar mais carne à suas longas pernas. Suspirou. Bufou. Desistiu.
Foi então que passou por ele um igual. Magro. Magrelo. Só que mais jovem. Trocaram olhares fortuitos. Tiraram medidas. Sorriram discretamente aliviados pela semelhança e seguiram caminhando nas alturas.

quarta-feira, junho 09, 2010

Sala de espera

Foto: Maria Antonia Demasi

As orelhas aumentaram. Ficaram finas. Nas extremidades, finas como papel.
Ela está impaciente. Não se encosta na poltrona. O corpo tenta acompanhar a cabeça aflita. Não pára de falar.
O filho, meninão de 40 anos tatuado e de bermuda, está silencioso ao lado dela.
Ela vai. Ela volta. Ele exercita uma espera carinhosa.
Deve ter sido uma mulher bonita. O filho é um homem bonito.
Silêncio. Ela olha a menina que está aprendendo a andar e a falar. A menina, o começo. Ela, o fim.

Você não quer ir almoçar? Eu fico te esperando.
Que horas são?
São onze e quinze.

Não. Claro que ele não quer almoçar.
Coloca a mão no queixo. Olha para um lado. Olha para o outro lado. Aflita. Ajeita. Encosta. Cruza as mãos. Olha para o filho.
Aviso sonoro. Senha número oitenta.
Me levanto. E quando do meu guichê de atendimento volto o olhar para procurá-la, ela já não está.
Assim. No instante de minha precária ausência, levantou-se e foi ser atendida.
Deverá ser assim no dia em que morrer. Num instante aqui. Noutro lá.

terça-feira, junho 08, 2010

Eu só queria tirar a penteadeira do quarto

Foto: Maria Antonia Demasi














Quando a conversa começou, a penteadeira estava longe, bem longe dali.

Ficava exatamente na frente da cama do casal. Não era usada como tal. Era um móvel antigo, modelo Patente. Em cima do tampo, agora de vidro, desfilavam todos os santos-dela e budas-dele. Eram assim, complementares.
Naquele dia estavam na casa que construíram e elegeram para ser o refúgio. Dos dois. Juntos. Ao menos de corpo.
Jogados na sala da lareira, sentiam-se tão vazios que não sustentavam nem o fogo que teimava morrer. Morreu. E eles quase mortos, nem repararam. Estavam imersos numa banheira de vazio.
Ela bebia vinho tinto numa das dezenas de taças de cristal levemente rachadas. Não corria risco, sabia exatamente onde colocar os lábios para não cortá-los. Só não sabia, nunca soube, onde colocar as palavras que cortavam e insistiam em sair rasgando de sua boca.
Pra evitar o pior, escolheu um assunto desconexo, fachada de sua dor.
Ele começou a dedilhar as cordas novas do violão. Ele sempre usava esse escudo para se proteger do que vinha dela.
Deixou-a falar, se enroscar, tropeçar e cair na velha armadilha que armava a cada confronto. O silêncio. Velho e imbatível silêncio.
Se ainda fumasse, seria ao momento de se arrastando, sair à procura de um cigarro, acendê-lo, e voltar ao lugar de origem. Isso serviria para checar se ainda estava viva. Mas não fumava mais. Menos mal. Menos culpa. Menos margem para manobrar o desespero que sentia esquentar seu peito. Ou seria o vinho?
O que seria, não importava. O fato é que lá estava ela de novo, encharcada de tristeza quente, e desarmada. Sua última proteção era a frase úmida que de tempo em tempo escorria de sua boca: “eu não vou brigar com você, não vou...”
Resistência curta. Desmoronou. Com a mão direita sobre o rosto começou a verter lágrimas ardidas. Exausta levantou-se, pegou a cachorra que dormia em seu colo sem se importar com o que acontecia de humano entre aqueles dois humanos e falou:

-E aí, vamos dormir?

Ele devolveu o que considerou quase uma ironia com um seco “não”.
Melhor assim, pensou. Seguiu sozinha para o quarto que ficava separado da casa. Passou pelo frio atrevido, pela chuva fina, pela escuridão apertada e depois de subir os mais longos quatro degraus de que se tem notícia pelas bandas da Serra da Mantiqueira, alcançou a cama.
Se dependesse dela, só acordaria quando conseguisse finalmente explicar que só queria mesmo era tirar a penteadeira do quarto.

sábado, maio 29, 2010

Ritmos

Foto: Maria Antonia Demasi

Pressapressapressapressapressapressaspressapressapressapressapre.
Praque?
Corracorra Lucinha!
Corracorra Lalá!
No caminho encontraram uma vovozinha.
Sempressasempressasempressasempressasempressasempressasem.
Morramorra vovozinha!
Morramorra vovozinha!
Não conseguimos te acompanhar.

segunda-feira, maio 24, 2010

A importância de ser RIta

Fotos: Maria Antonia Demasi


Rita limpava que limpava que limpava.
Aspirava o chão, aspirava os cantos que pra seu desencanto, desconhecia.
Instalada no silêncio percorria o grande galpão empurrando com vontade a credencial barulhenta que a permitia estar, aspirar.
Rita não parava.
Pára Rita. Pára Rita. Paralisa.
Cercada de letras, reconhecia nenhuma delas, porque de letras nunca soube muito e aquelas, eram desaforentas, atrapalhadas, desconfiava até, erradas.
Enquanto aspirava Rita só pensava que aquilo tudo era muito importante. O chão limpo, tudo que estava pendurado nas paredes e ela que aspirava somente e tanto, ser Rita.

sexta-feira, maio 21, 2010

Arrazoado

Foto: Maria Antonia Demasi

Ser razoável, não dói.
Se você conseguir não se lembrar que está sendo razoável, melhor ainda. Ser razoável atrai simpatia e elogios velados ao seu contido estar.
Sendo razoável o tempo passa mais depressa e assim consigo desviar do paralelepípedo que insiste em mirar minha cabeça.
Sendo razoável posso rabiscar meu dia com lápis tão macios quanto a maldita sensação de ter sido razoável.
E quando o lápis virar toco e o dia virar noite, volto para o meu ser nada razoável.
Volto para mim.

quinta-feira, maio 20, 2010

Confusão de palavras

Foto: Maria Antonia Demasi

Elas que sempre serviram para rasgar o verbo, estão a me trair. E justo a mim que sempre as tratei com a maior deferência. E justo a mim que sempre cuidei de deixá-las fortes, claras, coloridas. Injusto.
Não percebi logo a confusão. Ela foi se instalando - isso sim, confesso ter percebido - devagarzinho.
Mas sempre fui apaixonada por elas e paixão, vocês bem sabem, cega.
Avaliei que seria apenas uma fase; que palavras não costumam mudar de cara de uma hora para outra, que... Confusão.
Agora, enquanto escrevo, as deixo trancadas dentro de mim. Mas as palavras são de morte, ou melhor, de vida. Negam o silêncio, avançam para fora. Fora.
Parece ingenuidade culpar as palavras pela tristeza muda que sinto. Sei que sou cada palavra e sei também que elas tentaram - e como tentaram - tomar outro rumo.
Não deu.
E agora, pobre de nós. Eu e elas habitando o pior lugar que poderia nos ser destinado, o vazio.
Penso que se as deixasse serem essencialmente o que são, poderia me salvar. Nos salvar. Mas não.
Então espero pelo dia em que formos tomadas de assalto.

segunda-feira, maio 10, 2010

Loira gelada

Foto: Maria Antonia Demasi

Agora ela só espera o frio.
Para quem garante que ele está longe, sorri maliciosamente.
Finge não ouvir e segue temendo a sua chegada.
Tremendo, repete e repete o frio
Chora o dia inteiro. Sem lágrimas. Congelaram.
Frio gelado. Não vai haver manta nem chinelos para aquecê-la.
Seguirá assim até chegar o dia em que seu corpo sucumbirá ao frio.
Até lá, vai testando o inferno.

sexta-feira, abril 30, 2010

Sob o jugo do verbo julgar

Foto: Maria Antonia Demasi

Julgou ser oportuno usar a palavra julgou.
Julgou não. Foi impelida a.
Os olhos já ardiam e pediam cama.
As costas também ardiam e pediam ficar na horizontal.
Mas então, surgiu o verbo julgar. Na forma passada.
Ela já estava passada. Mas inundada do som e da fúria de Faulkner.
Então cedeu. Julgou que mal não causaria se grudasse no papel, nos últimos minutos do dia 30 de abril de 2010, um julgamento.

Conversa no escuro

Foto: Maria Antonia Demasi

Não que buscasse a resposta definitiva. Não.
Precisava apenas escutar. Sabia que não era aquele o lugar nem aquela era a hora. Mas precisava escutar.
Enquanto escutava, acariciava o aparelho celular. Queria decifrar a cor de cada palavra.
Escutou por quase uma hora. Não se incomodou com o barulho do bar.
E de repente a voz se calou. Ela chacoalhou o aparelho. Depois o acariciou. Por fim tateou a roupa e encontrou o bolso para guardá-lo.
Já podia ir embora. Entendeu que o suco tinha acabado. Não adiantava mais chupar fundo o canudinho.
Levantou, tateou o balcão, virou-se e foi embora.
De olhos bem fechados.

quarta-feira, abril 14, 2010

Sem título

Foto: Maria Antonia Demasi

Início.
No início era só solidão. Contornável. Foram anos assim. Depois que ele se foi, sobraram apenas bugigangas a espera de sentido, uma nuvem de seu vozeirão esparramada pelo apartamento e no boletim da menina, a assinatura do pai.
Quando não tinha mais onde se grudar para viver, a menina resolveu que grudaria em seu corpo o que acreditava ser o mais palpável do pai.
Tatuou a assinatura do morto em sua nuca. Bonito de ver. Confortável de conviver posto que ela mesma não visse. E os outros, todos os outros, também não. Porque ela escondia. Com cabelo. Com gola. Com lenço.
Assim era a menina. Queria se mostrar. Mas se escondia.
Um dia resolveu escancarar seu amor. Sua paixão. Sua loucura. Escancarou sua vida numa queda. Foi salva pelas asas tatuadas nas costas.
O corpo da menina, agora marcado, espera o tempo do esquecer.

quinta-feira, março 18, 2010

Quebradeira

Foto: Maria Antpnia Demasi

Quando chegar de patins na Praça da Matriz era o maior desafio de Melina, a sua grande família, a boca pequena, já dizia que aquela menina era um caso sério.
Diferente de todas as irmãs, Melina já se acostumara com as censuras caladas, olhares de reprovação e um lugar de escanteio naquele complexo tabuleiro familiar.
A mãe era portuguesa. Prendada, prezada e autoritária.
O pai, italiano. Manso e sábio.
Penúltima da prole de sete mulheres, Melina menina não tinha nem de longe o encanto das demais. Aconteceu ser a filha gerada durante a doença nervosa da mãe. Tempos difíceis para aquela gente que tinha na figura da matriarca a segurança necessária pra tocar o que se configuravam ser duas empresas: uma doméstica e outra mercantil, um respeitável armazém de secos e molhados.
Temporadas de internação depois e um arsenal pesado de remédios durante toda gravidez, nascia Melina. E foi. Como foram todas as cinco antes dela.
Logo que deixou de ser chorona, passou a ser rabugenta. E diferente. Não se assemelhava em nada com nenhuma das irmãs. Não se misturava. Não tinha afinidade com nenhuma das meninas e o pior, manifestava sem o menor pudor seu mais solene desprezo por tudo que era caro a família.
Não ligava para o sorvete de domingo, o passeio no Jipe do pai até a chácara, as férias na casa das primas, as roupas que ganhava, e para preocupação dos pais declarava achar a escola perda de tempo. Só tinha uma alegria: sentar na máquina de costura Singer da mãe e costurar. Costurava o que vestia e vestia as coisas mais bizarras que a sua família e conhecidos já tinham visto.
No final dos anos 50, Melina já tinha deixado as saias para usar somente calças compridas e blusas coladas ao corpo. Tudo muito, muitíssimo colorido. E estampado.
As irmãs debochavam. O pai suspirava. E a mãe gritava. Alto. Gritava que aquilo ia dar o que falar que não era gosto e sim uma provocação barata, roupas sem eira nem beira e... falava, falava.
Melina ouvia atentamente e depois que a mãe, exaurida, terminava, pedia licença, calçava os patins e deixava a casa.
Melina que não era mais menina, agora não ia mais para a praça. Seguia longe a moça que tentava deixar pra trás uma imensa raiva e uma profunda e dolorida rejeição. Ia de encontro à estrada que estava sendo construída na parte nova da pequena cidade e lá, somente lá, sentia que nada precisava ser para sempre do jeito que conhecia. Era por lá que deixaria tudo que era maior que ela, para trás.
Ficava horas sentada embaixo de uma mangueira observando máquinas, tratores e operários num fazer interminável. Inebriada Melina sentia-se fortalecida para voltar para a encruzilhada que sentia ser sua vida.
Em casa, sem constrangimento ou medo respondia as perguntas de onde estivera por tanto tempo e em resposta ouvia que nunca mais poderia lá voltar. Voltava.
Quando chegou o tempo de Melina escolher o que ser na vida, além de diferente, decidiu cursar a Faculdade de artes plásticas em São Paulo. A mãe disse não. O pai, talvez. As irmãs, vai tarde. E ela foi.
Foi sozinha. De ônibus. Pela estrada nova, recém inaugurada. Seguiu firme, sentindo o conforto de parecer conhecer cada quilômetro daquele caminho que ia dar no lugar onde poderia finalmente, ser Melina.
Na cidade, que não lhe pareceu tão grande quanto sua imensa imaginação desenhara, instalou-se num pensionato de meninas dirigido por freiras e escolhido pela mãe.
Em uma semana foi expulsa do lugar.
Não se abalou. Avisou aos pais, que a bem da verdade, não puderam afirmar estarem surpresos com a notícia, e na sequência comunicou que já tinha um novo endereço. Era um apartamento na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, que dividiria com uma amiga de Campinas que havia conhecido na Faculdade.
Durante os quatro anos do curso Melina pouco voltava para casa. Respeitava as grandes festas e evitava finais de semana e férias prolongadas.
Arrumou um namorado do interior de Minas, um jovem advogado tímido na medida de sua extroversão.
No final da década de 60, estava formada e grávida.
Casou-se com um vestido que ela mesma havia feito. Uma colagem colorida de todos os tecidos com os quais já havia feito roupas para ela. Azul cobalto, vermelho carmim, renda branca, organdi amarelo, seda violeta e até paetê laranja conseguiu espaço naquele vestido de noiva único, retrato de todas as vontades criativas de Melina.
Poucos amigos e familiares testemunharam aquele desfile de moda de vanguarda, mas os que lá estiveram jamais se esqueceram da noiva que viram. E por isso Melina ficou feliz.
Nasceu Isabel e no mês seguinte o casal foi apresentar a criança à avó paterna. Quando chegou à fazenda nas Minas Gerais profunda e foi recebida pela família do marido que ainda não conhecia, Melina pôde melhor entender seu jeito introspectivo e calado. Um mundo rústico, lento e simples que a acolheu generosamente.
Já no final de sua estadia na casa da sogra, Melina foi convidada a aprender a preparar de cabo a rabo o prato preferido do marido, frango ao molho pardo.
Não deu certo. Se atrapalharam, a moça da cidade grande e a senhora de 87 anos. Em segundos tiveram seus corpos queimados pelo álcool que escapou das mãos trêmulas da velha e encontrou o fósforo aceso na mão direita de Melina.
Tudo muito rápido. Um pesadelo a 200 por hora. Hospital precário. Dor. Avião fretado. Transferência para capital. Quarenta e cinco dias de tratamento. Silêncio e cicatrizes. A sogra não resistiu. Melina sobreviveu. Por muito tempo, só sobreviveu.
Quando voltou a São Paulo reencontrou a mãe. Foi um encontro marcado por uma proximidade nunca antes experimentada. Com quase setenta anos aquela mulher de quem por toda vida fugiu, passou a cuidar com um amor que desconhecia de seu corpo mutilado. Cuidou como se cuida de uma jóia delicada, frágil e bela. Fez cada curativo com a mesma precisão com a qual bordava suas rendas portuguesas. Passou as pomadas com o mesmo gesto suave com o qual fazia o doce que Melina mais gostava, fios de ovos.
Quando saiu da cama, Isabel voltou para casa e Melina comemorou o aniversário de um ano da filha.
Foi só então que entendeu que sua vida teria que continuar. Tomou fôlego e seguiu. Dentro de casa. Dois anos sem poder ficar exposta a luz do sol.
Quando deixou a sombra na qual se escondera involuntariamente, desejou mudar-se para Belo Horizonte.
Foram. Lá engravidou e pariu Augusto.
Distante do acidente que deixou marcas, muitas marcas em seu corpo, decidiu que iria ganhar a vida com aquilo que lhe dava mais prazer, costurar. Montou uma confecção de roupas para crianças e tocou a vida sem olhar para trás e para ela mesma.
Com as crianças já na escola, o trabalho engrenado, Melina percebeu que estava cansada. Cansada de seu exílio voluntário. Cansada de viver longe daqueles que só amou e entendeu na distância. Precisava e estava pronta a aceitar ser cuidada.
Pela mesma estrada que deixou sua pequena cidade natal, voltou.
Chegou com sua pequena e dolorida família. Chegou diferente. Não era mais aquela Melina das lembranças de sua família. Estava anestesiada. Viva. Mas anestesiada.
E assim, mudada, engravidou pela terceira vez. Outra menina. Maria Cláudia.
Três filhos. Um marido acomodado no cartório do cunhado. A confecção prestes a fechar as portas. E o começo do reconhecimento de um corpo que insistia em permanecer alinhavado por dores.
Era o efeito das drogas que sua mãe tivera que tomar durante sua gravidez. A cura foi dividida com Melina que adulta, passou a sentir pontadas lancinantes por todas as suas juntas. Marcada por fora, torturada por dentro.
Quando entendeu totalmente que a dor era sua nova e não bem vinda companheira, resolveu trazer para sua vida, essa sim, uma convidada de honra, a música. Descobriu que Mozart, Debussy, Bach, Vivaldi eram capazes de fazer as horas nas quais ficava deitada driblando o desconforto, mais suaves, menos cruéis.
E foi embalada pelos clássicos, que Melina decidiu que teria que mudar. Era hora dos filhos, agora eles, decidirem o que ser nas suas vidas. O destino seria a cidade vizinha, grande, onde poderiam cursar boas universidades.
Agora aquela mesma estrada que vinha pontuando os caminhos de Melina, estava duplicada, movimentada e pronta para levá-la ao que seria seu último destino.
A filha mais velha formou-se em psicologia, o do meio fazia devagar, quase parando, carreira em um banco público e a mais nova era publicitária.
Todo esse tempo passou, toda essa dor ficou. E veio o diagnóstico que definiria seus dias. Teria que se submeter a uma série de cirurgias nas principais juntas do corpo. Só assim teria chances de se livrar de uma cadeira de rodas.
Vieram sete cirurgias. Dor. E muitos remédios.
Quando Melina sentiu-se forte o suficiente para voltar a ter sonhos, montou uma doceria. Acreditava que envolvida com algo diferente do que dor e doença poderia voltar a sentir prazer por estar viva.
Errou. Foi muito para ela. Exausta, colocou o negócio a venda e foi ajudar a nora a cuidar, na medida de seus limites, de suas três genuínas alegrias, as netas trigêmeas.
Quando as meninas completaram dois anos, o filho avisou que o casamento havia acabado. Mudou-se provisoriamente para a casa de Melina e quando faltava pouco para completar um mês do filho triste em sua casa, aconteceu o que aconteceu.
Numa segunda feira chuvosa, a ex-nora telefonou pedindo que Augusto fosse encontrá-la para levar duas meninas com bronquite para o pronto socorro. Depois de duas horas, as crianças já medicadas voltaram para casa, ganharam beijos e carinhos do pai que as deixou e saiu rumo à casa de Melina.
Não chegou até lá. Passou no sinal vermelho. Foi triturado por um carro em alta velocidade.
O filho de vinte e sete anos. Dor. Agora eram só as duas filhas. Três netas. Seis irmãs e uma mãe de noventa e sete anos, morrendo.
Morreu seis meses depois e Melina teve que mais uma vez, pegar a estrada conhecida para poder continuar a sua vida.
Foi e voltou no mesmo dia. Chegou à antiga casa da família e tudo já estava pronto. Sete lotes com os pertences da mãe divididos entre eles. Feito o sorteio, Melina saiu da casa rapidamente com o que lhe coube da herança da mãe: o jogo de jantar de porcelana inglesa branca, borda dourada, com 120 peças.
No carro, pediu que o marido colocasse no banco de trás, ao lado dela, as caixas de papelão onde estava embalada a louça.
Quando chegaram à estrada, abriu o vidro de seu lado, e tirou da primeira caixa a peça que sua mão, tateando sem olhar, alcançou.
Era um prato de sopa.
Virou o corpo, colocou a cabeça para fora, sentiu o vento gelado de final de tarde e começou a quebradeira.
Depois dos de sopa, foi a vez dos de sobremesa, dos pires, dos rasos. Todos os pratos voando pela janela. Apavorando os motoristas dos carros que seguiam atrás. Deixando a estrada com um rastro branco.
Quando, dez quilômetros rodados, acabaram-se os pratos, vieram as xícaras. De café. De chá. Todas flutuando na faixa de ar superior ao negro do asfalto. Apavorando o marido que nem sequer ameaçou abrir a boca. Parar o carro. Deixando a estrada com cacos brancos.
Vinte quilômetros à frente foi a vez das travessas. Grandes, médias, pequenas. Todas travessas vazias. Derramando todo sofrimento de Melina. Deixando na estrada estilhaços de dor.
Quando tudo acabou, Melina começou a rir. Risada gritada. Gritos antigos. Tinha feito o que jamais imaginara fazer. Estava pronta para continuar sofrendo.

segunda-feira, março 15, 2010

Foto: Maria Antonia Demasi

Zé era porteiro.
Tinha 53 anos, dois filhos e um par de sapatos surrado, marrom e enrugado.
Pregava prego. Pendurava quadro. Amarrava lustre de talher. Cacos resinados. Achava tudo esquisito.
Tirava cabide que entupia privada. Matava lagartixa dentro do armário. Grudava fotografia na parede. Pintava de roxo. De verde. De vermelho. De lilás. Achava graça.
Consertava janela. Porta. Fechadura. Campainha. Achava chato.
Jogava conversa fora. Dava uma mão. Dava risada. Sabia ser amigo.
Só não sabia que naquele dia não voltaria de sua andada noturna. Tomou café na padaria. Acendeu o cigarro. Tiraram ele da tomada. Quando cheguei esbaforida na esquina de nosso prédio, ele já estava morto, deitado no asfalto, seco e esturricado. De olhos abertos.
E eu, de boca aberta, encontrei meu amigo assim. Morto no chão. O lençol branco cobria o corpo. Só os pés ficaram pra fora.
Justo ele que me ensinou que tudo que tem a ruindade, tem a bondade. Só não consegui encontrar a bondade dele ter ido embora. Assim.
Quis acreditar que não era ele.
Não deu. Isso é que dá ter apenas um par de sapatos.

segunda-feira, março 08, 2010

Sobressalto Russo

Foto: Maria Antonia Demasi

A casa inteira estava na penumbra. Para os que não aceitam tal descrição, posso apenas adiantar que a luz que insistia em aparecer era amarela.
A mesa da sala de jantar era o único móvel que podia ser visto em sua inteireza. O resto era sombra. E sombras como bem sabem não se sustentam. Não suportam ser descritas.
Em cima da mesa, uma fruteira de madeira. Cheia de frutas. Apenas frutas. As sei sem as saber.
Por isso, quando acordei, só pude ver João. Pálido. Amarelo. Só ele aparecia em meio ao indistinguível. Ainda assim, saber que ele está, tira-me do sobressalto da lembrança de que João é um melão.

domingo, março 07, 2010

Manicure

Foto: Maria Antonia Demasi

Fran. De Francineide.
Pois é. O mais esquisito foi como minha mãe inventou esse nome. Esse só, não. Os dos cinco filhos. Coisa de nordestino. Nordestino escolhe cada nome...
Adivinha só: meu pai Francisco, minha mãe Neide, deu? Francineide. E muito sarro pra cima de mim.
Agora vou contar o nome dos meus irmãos. O mais velho, é o mais normal, até bonito, Ailton. O depois é muito esquisito, pelo menos pra mim, mas já me falaram que aqui por São Paulo é até chique, Eloi. Credo! Num acho nada de chique, parece nome de bicicleta, sabe, bicicleta Caloi?
Aí veio o Francenildo. Coitado. Nem tem o que falar. Só ouvir. Desaforo dos meninos da escola e risada das meninas
Bom, aí vem as meninas. A mais velha, Arisdelha. Mãe diz que foi ao cinema em João Pessoa e viu um filme lindo, de chorar. Chorou tanto que num conseguiu ouvir direito o nome da mulher mais linda do mundo. Entendeu Arisdelha. Mas cá comigo, duvido que era assim. Ela que não tem ouvido pra nome estrangeiro. Sobrou pra minha irmã.
E pra terminar minha mãe ganhou gêmeos. Um homem e uma mulher. Francenilda e Francildo. Além de feio que dói, o nome, não as crianças, eu não conseguia entender da onde mãe tirou essas desgraças, de nome, não de irmãos.
E foi só aí, já grandinha, que descobri o verdadeiro nome de mãe. Ednilda, (com “d” mudo mesmo) Neide. Isso mesmo: Ednilda Neide.
Tive que falar pra ela. Isso não é nome, é vingança.
A Francenilda não aguentou a barra. Trocou de nome. Faz tempo que só atende por Letícia.
Fiquei até com vontade de mudar o meu, mas achei que já tava de bom tamanho Fran. Acho simpático. E ninguém fica perguntando qual o meu nome. Quer dizer, ninguém não. A senhora perguntou.
Um dia desses, no trem, aconteceu uma coisa engraçada. Eu tava sentada, bem esmagada vendo um sujeito encoxar uma menina nova. A pobre tava tão apavorada que não conseguia nem gritar.
Me deu um nervoso que gritei. Para de encoxar a menina seu sem vergonha! O cabra não viu da onde vinha o grito e teve a coragem de perguntar: quem tá falando que eu tô encoxando a menina? E eu, puta da vida, respondi gritando mais alto ainda. Sou eu, Francineide!
Não entendi como saiu meu nome inteiro! Mas saiu tão firme que em um segundo o tal já tava levando peteleco, soco e pontapé dos caras que estavam no vagão. Na estação seguinte, foi jogado feito lixo, pra fora do trem. Quando chegou a minha estação, um bonitão ainda me disse. Corajosa Francineide! Quase morri de orgulho em ouvir meu nome falado assim.
Mas o moço tava enganado. Não sou tão corajosa assim. Pra chegar até minha casa, pago cinco reais pra um cara fortão do bairro me acompanhar.
É que tem, na verdade tinham, dois estupradores apavorando por aqui. Um, o povo tá falando que pegaram, mataram e cortaram o corpo em picadinho. Gente ruim por essas bandas não tem vez. O outro sumiu. Também, depois do destino do colega...
A senhora tá com uma cara de espanto! Mas não tem nada demais não. É assim todo dia. Se eu larga de conta estória pra senhora, eu fico aqui a vida inteira. Sabe que essa profissão de manicure é muito boa pra gente que vive no batidão e cada dia tem pouco da vida pra conta?

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Acidente geográfico

Foto: Maria Antonia Demasi

Não sabiam mais o que fazer. Marília, uma ilha de silêncio, deu pra chorar. Sem parar. Só choro. Sem piedade.
Uma simples pergunta. Onde estão meus pais? Ora Marília, morreram quarenta anos atrás.
Lembrança destampada sem dó. Na marra.
Por uma semana, dia e noite, noite e dia as águas rolaram pela ilha de Marília. E como já não era grande e nunca fora forte se deixou levar, como que flutuando numa enorme marola, para o lugar onde acreditava estarem seus pais.
Conseguiu. Parou de chorar. Se fez um continente e viveu cada dia do resto de sua vida, úmida.

Mulher de verdade

Foto: Autor anônimo (arquivo pessoal)

Viveu acreditando que existia a verdade. Acreditou no primeiro amor e amou seu homem até o fim.
Acreditou junto com os irmãos que a luta sempre continua. Se armou de forças e viveu armada.Viu os filhos crescerem e desaparecerem. Armados e amados.
Agora Amélia já velha, acredita ter vivido o que nunca viveu. Conta para as amigas que estava lá, no meio de tantas estórias, sem nunca, sabiam todos, ter estado.
Jura de pés juntos e cansados , cantando encostada no alpendre vazio, que ela sim, apenas ela, era a mulher de verdade.Era.
Morreu acreditando que existia a verdade.


quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Lia

Foto: Maria Antonia Demasi

Um dia Mia confessou.
Quando menina, lia livros de ponta cabeça.
Lia assim para poder endireitar a vida.
Lia.
Não lê mais. Endireitou os livros.
A vida não. Essa continua de pernas pro ar.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Cá com meus botões

Foto: Maria Antonia Demasi

Dona Esmênia já não aguentava mais. Cansada. Muito cansada. De acordar todos os dias, de bambear ao sair da cama, de usar fraldão, de por e tirar a dentadura, de ter os dedos das mãos e dos pés atrofiados, de não ter fome nem de comer, nem de viver.
Mas vivia. Os três filhos diziam que imagine, ela estava forte, muito bem para seus 81 anos. Podia até ser verdade posto que o marido com 86 morresse devagar e dolorosamente no compasso de cada bufada que a mulher deixava escapar.
Pensava que aquele esforço todo para manter o marido vivo era tão infrutífero como os cerzidos em lençóis de linho velhos e rotos que deu conta por tantos anos. Se queriam cerzir, ela cerzia, mas avisava as freguesas da zona sul que teriam vida curta. Curta como a vida do marido que os filhos insistiam em esticar quando já não cabiam remendos nem cerzidos.
Esmênia achava graça do que considerava uma grande ironia. Tantas horas sentada junto a máquina de costura, tantos cortes, tantos bordados para formar os três meninos. Conseguiu. E agora que eram além de filhos, um engenheiro, um professor e um bancário, usavam toda instrução para uma empreitada absurda: prolongar uma vida que já fora vivida o suficiente. Pagavam médico, hospital, enfermeira, cirurgias e exames. E o pai se tranformara em um peso quase morto. Ia e voltava do hospital em espaços de tempo cada vez mais curtos.
Nas ausências do velho, Esmênia experimentava o vazio. Já não podia fazer nada sozinha e às vezes nada acompanhada. A catarata turvara sua visão numa lufada rápida e cruel. Não resistiu. Entregou-se às nuvens brancas que cobriam tudo o que via e foi buscar refúgio no que sua mente guardara como cor e brilho.
As mãos, solidárias com o parar sorrateiro do corpo, também foram se esquecendo do ritmo e da velocidade da dança da costura. Ela que menina descobrira a delícia de fazer roupas, bordar lençóis, remendar e reformar, estava agora estacionada no que parecia uma longa fila de espera para lugar algum.
Quando acordava menos anestesiada por essa espera, ficava imaginando como poderia vencer mais um dia ou ao menos, mais algumas horas.
Havia num canto do quarto que durante quarenta e cinco anos fora “o quartinho de costura” uma grande cesta de vime, dessas onde as famílias costumavam levar o piquenique de domingo na Lagoa Rodrigo de Freitas. Para essa função, servira pouco - foram apenas duas desastrosas tentativas de sair de casa com toda família – mas para guardar uma coleção de botões, era perfeita.
Dentro da cesta, dezenas de vidrinhos de remédios. Remédios do tempo em que só havia embalagens de vidro. Três filhos, muitas febres, piriris e dor de ouvido, resultaram, entre outras coisas, num estoque considerável do que agora via como pequeninos cofres que guardavam o tesouro de Esmênia.
No dia em que resolveu se apropriar de sua preciosidade, pediu a acompanhante que trouxesse a cesta para perto de sua poltrona.
Olhou, recostou-se, fechou os olhos e num movimento ágil e raro ergueu-se sozinha da cadeira e pediu: tire todos os vidrinhos de dentro e ponha tudo em cima da mesa.
A moça, titubeante, enfileirou cento e vinte e sete vidrinhos com tampas de plástico e tarjas com os nomes dos remédios ainda intactos. Conseguia sentir um cheiro de farmácia espalhado ao redor da mesa. Pensou que até que era uma coisa bonita de se ver.
Dona Esmênia, em pé, apoiada no espaldar da cadeira, fazia um balé com os olhos esfumaçados. Da direita para esquerda, de cima para baixo, para todos os lados lá estava ela a percorrer um caminho cheio de brilho.
Sentou-se e começou a abrir vidrinho por vidrinho e a derramar, como lágrimas de uma vida inteira, os botões mais lindos que já se vira.
Cinco, seis por vez. Com as duas mãos em forma de concha, trazia-os para bem perto dos olhos e ficava assim por um tempo que só fazia sentido para quem percebia o mundo apenas por de trás de uma catarata.
Nos botões pequeninos em forma de flor, encontrou a mãe. Vestindo preto, experimentando o vestido de organdi azul marinho na única filha. Sorriu tentando entender uma vida. Entender porque razão aquela mulher dura só escancarava a doçura aprisionada quando fazia um a um, botões de massinha em forma de flor e da cor do seu amor.
Colocou as lembranças de lado e , tateando, alcançou outro vidro. Botões de vidro. Como eram lindos vistos com as lentes vaporosas de seus olhos... E assim sentiu-se dançando com o filho mais velho no baile de formatura. Linda. Nunca se sentira tão linda. Trinta e dois botões de vidro percorriam o desfiladeiro de suas costas. Puro prazer. Da hora em que pregou aquelas pedras preciosas até o momento em que o marido começou a desabotoar um a um.
Botões de camisa de senhores, botões, botões de pijamas, botões de bolinha, - adorava, pareciam balas - botões de freguesas ricas, de freguesas pobres... Mas não são botões mamãe! São os seus remédios e os do papai! Você não pode tirar das embalagens e espalhar na mesa, não pode colocar tão perto da boca, não pode...
Pôde. E pôde mais. Pôde sorrir e pedir ao filho que guardasse direitinho, cada qual com seu igual, e os colocasse no lugar de sempre, na mesinha de cabeceira de sua cama, porque agora já estavam todos organizados. Afinal, naquela idade, como é possível viver sem seus botões?
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