terça-feira, janeiro 26, 2010

Cá com meus botões

Foto: Maria Antonia Demasi

Dona Esmênia já não aguentava mais. Cansada. Muito cansada. De acordar todos os dias, de bambear ao sair da cama, de usar fraldão, de por e tirar a dentadura, de ter os dedos das mãos e dos pés atrofiados, de não ter fome nem de comer, nem de viver.
Mas vivia. Os três filhos diziam que imagine, ela estava forte, muito bem para seus 81 anos. Podia até ser verdade posto que o marido com 86 morresse devagar e dolorosamente no compasso de cada bufada que a mulher deixava escapar.
Pensava que aquele esforço todo para manter o marido vivo era tão infrutífero como os cerzidos em lençóis de linho velhos e rotos que deu conta por tantos anos. Se queriam cerzir, ela cerzia, mas avisava as freguesas da zona sul que teriam vida curta. Curta como a vida do marido que os filhos insistiam em esticar quando já não cabiam remendos nem cerzidos.
Esmênia achava graça do que considerava uma grande ironia. Tantas horas sentada junto a máquina de costura, tantos cortes, tantos bordados para formar os três meninos. Conseguiu. E agora que eram além de filhos, um engenheiro, um professor e um bancário, usavam toda instrução para uma empreitada absurda: prolongar uma vida que já fora vivida o suficiente. Pagavam médico, hospital, enfermeira, cirurgias e exames. E o pai se tranformara em um peso quase morto. Ia e voltava do hospital em espaços de tempo cada vez mais curtos.
Nas ausências do velho, Esmênia experimentava o vazio. Já não podia fazer nada sozinha e às vezes nada acompanhada. A catarata turvara sua visão numa lufada rápida e cruel. Não resistiu. Entregou-se às nuvens brancas que cobriam tudo o que via e foi buscar refúgio no que sua mente guardara como cor e brilho.
As mãos, solidárias com o parar sorrateiro do corpo, também foram se esquecendo do ritmo e da velocidade da dança da costura. Ela que menina descobrira a delícia de fazer roupas, bordar lençóis, remendar e reformar, estava agora estacionada no que parecia uma longa fila de espera para lugar algum.
Quando acordava menos anestesiada por essa espera, ficava imaginando como poderia vencer mais um dia ou ao menos, mais algumas horas.
Havia num canto do quarto que durante quarenta e cinco anos fora “o quartinho de costura” uma grande cesta de vime, dessas onde as famílias costumavam levar o piquenique de domingo na Lagoa Rodrigo de Freitas. Para essa função, servira pouco - foram apenas duas desastrosas tentativas de sair de casa com toda família – mas para guardar uma coleção de botões, era perfeita.
Dentro da cesta, dezenas de vidrinhos de remédios. Remédios do tempo em que só havia embalagens de vidro. Três filhos, muitas febres, piriris e dor de ouvido, resultaram, entre outras coisas, num estoque considerável do que agora via como pequeninos cofres que guardavam o tesouro de Esmênia.
No dia em que resolveu se apropriar de sua preciosidade, pediu a acompanhante que trouxesse a cesta para perto de sua poltrona.
Olhou, recostou-se, fechou os olhos e num movimento ágil e raro ergueu-se sozinha da cadeira e pediu: tire todos os vidrinhos de dentro e ponha tudo em cima da mesa.
A moça, titubeante, enfileirou cento e vinte e sete vidrinhos com tampas de plástico e tarjas com os nomes dos remédios ainda intactos. Conseguia sentir um cheiro de farmácia espalhado ao redor da mesa. Pensou que até que era uma coisa bonita de se ver.
Dona Esmênia, em pé, apoiada no espaldar da cadeira, fazia um balé com os olhos esfumaçados. Da direita para esquerda, de cima para baixo, para todos os lados lá estava ela a percorrer um caminho cheio de brilho.
Sentou-se e começou a abrir vidrinho por vidrinho e a derramar, como lágrimas de uma vida inteira, os botões mais lindos que já se vira.
Cinco, seis por vez. Com as duas mãos em forma de concha, trazia-os para bem perto dos olhos e ficava assim por um tempo que só fazia sentido para quem percebia o mundo apenas por de trás de uma catarata.
Nos botões pequeninos em forma de flor, encontrou a mãe. Vestindo preto, experimentando o vestido de organdi azul marinho na única filha. Sorriu tentando entender uma vida. Entender porque razão aquela mulher dura só escancarava a doçura aprisionada quando fazia um a um, botões de massinha em forma de flor e da cor do seu amor.
Colocou as lembranças de lado e , tateando, alcançou outro vidro. Botões de vidro. Como eram lindos vistos com as lentes vaporosas de seus olhos... E assim sentiu-se dançando com o filho mais velho no baile de formatura. Linda. Nunca se sentira tão linda. Trinta e dois botões de vidro percorriam o desfiladeiro de suas costas. Puro prazer. Da hora em que pregou aquelas pedras preciosas até o momento em que o marido começou a desabotoar um a um.
Botões de camisa de senhores, botões, botões de pijamas, botões de bolinha, - adorava, pareciam balas - botões de freguesas ricas, de freguesas pobres... Mas não são botões mamãe! São os seus remédios e os do papai! Você não pode tirar das embalagens e espalhar na mesa, não pode colocar tão perto da boca, não pode...
Pôde. E pôde mais. Pôde sorrir e pedir ao filho que guardasse direitinho, cada qual com seu igual, e os colocasse no lugar de sempre, na mesinha de cabeceira de sua cama, porque agora já estavam todos organizados. Afinal, naquela idade, como é possível viver sem seus botões?

Um comentário:

  1. Lindo texto!
    Um conto encantador de ser ler!
    Obrigada por me seguir e já estou seguindo já!
    Parabéns pelo blog!
    Beijos na Alma

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