sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Acidente geográfico

Foto: Maria Antonia Demasi

Não sabiam mais o que fazer. Marília, uma ilha de silêncio, deu pra chorar. Sem parar. Só choro. Sem piedade.
Uma simples pergunta. Onde estão meus pais? Ora Marília, morreram quarenta anos atrás.
Lembrança destampada sem dó. Na marra.
Por uma semana, dia e noite, noite e dia as águas rolaram pela ilha de Marília. E como já não era grande e nunca fora forte se deixou levar, como que flutuando numa enorme marola, para o lugar onde acreditava estarem seus pais.
Conseguiu. Parou de chorar. Se fez um continente e viveu cada dia do resto de sua vida, úmida.

Mulher de verdade

Foto: Autor anônimo (arquivo pessoal)

Viveu acreditando que existia a verdade. Acreditou no primeiro amor e amou seu homem até o fim.
Acreditou junto com os irmãos que a luta sempre continua. Se armou de forças e viveu armada.Viu os filhos crescerem e desaparecerem. Armados e amados.
Agora Amélia já velha, acredita ter vivido o que nunca viveu. Conta para as amigas que estava lá, no meio de tantas estórias, sem nunca, sabiam todos, ter estado.
Jura de pés juntos e cansados , cantando encostada no alpendre vazio, que ela sim, apenas ela, era a mulher de verdade.Era.
Morreu acreditando que existia a verdade.


quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Lia

Foto: Maria Antonia Demasi

Um dia Mia confessou.
Quando menina, lia livros de ponta cabeça.
Lia assim para poder endireitar a vida.
Lia.
Não lê mais. Endireitou os livros.
A vida não. Essa continua de pernas pro ar.

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