quinta-feira, março 18, 2010

Quebradeira

Foto: Maria Antpnia Demasi

Quando chegar de patins na Praça da Matriz era o maior desafio de Melina, a sua grande família, a boca pequena, já dizia que aquela menina era um caso sério.
Diferente de todas as irmãs, Melina já se acostumara com as censuras caladas, olhares de reprovação e um lugar de escanteio naquele complexo tabuleiro familiar.
A mãe era portuguesa. Prendada, prezada e autoritária.
O pai, italiano. Manso e sábio.
Penúltima da prole de sete mulheres, Melina menina não tinha nem de longe o encanto das demais. Aconteceu ser a filha gerada durante a doença nervosa da mãe. Tempos difíceis para aquela gente que tinha na figura da matriarca a segurança necessária pra tocar o que se configuravam ser duas empresas: uma doméstica e outra mercantil, um respeitável armazém de secos e molhados.
Temporadas de internação depois e um arsenal pesado de remédios durante toda gravidez, nascia Melina. E foi. Como foram todas as cinco antes dela.
Logo que deixou de ser chorona, passou a ser rabugenta. E diferente. Não se assemelhava em nada com nenhuma das irmãs. Não se misturava. Não tinha afinidade com nenhuma das meninas e o pior, manifestava sem o menor pudor seu mais solene desprezo por tudo que era caro a família.
Não ligava para o sorvete de domingo, o passeio no Jipe do pai até a chácara, as férias na casa das primas, as roupas que ganhava, e para preocupação dos pais declarava achar a escola perda de tempo. Só tinha uma alegria: sentar na máquina de costura Singer da mãe e costurar. Costurava o que vestia e vestia as coisas mais bizarras que a sua família e conhecidos já tinham visto.
No final dos anos 50, Melina já tinha deixado as saias para usar somente calças compridas e blusas coladas ao corpo. Tudo muito, muitíssimo colorido. E estampado.
As irmãs debochavam. O pai suspirava. E a mãe gritava. Alto. Gritava que aquilo ia dar o que falar que não era gosto e sim uma provocação barata, roupas sem eira nem beira e... falava, falava.
Melina ouvia atentamente e depois que a mãe, exaurida, terminava, pedia licença, calçava os patins e deixava a casa.
Melina que não era mais menina, agora não ia mais para a praça. Seguia longe a moça que tentava deixar pra trás uma imensa raiva e uma profunda e dolorida rejeição. Ia de encontro à estrada que estava sendo construída na parte nova da pequena cidade e lá, somente lá, sentia que nada precisava ser para sempre do jeito que conhecia. Era por lá que deixaria tudo que era maior que ela, para trás.
Ficava horas sentada embaixo de uma mangueira observando máquinas, tratores e operários num fazer interminável. Inebriada Melina sentia-se fortalecida para voltar para a encruzilhada que sentia ser sua vida.
Em casa, sem constrangimento ou medo respondia as perguntas de onde estivera por tanto tempo e em resposta ouvia que nunca mais poderia lá voltar. Voltava.
Quando chegou o tempo de Melina escolher o que ser na vida, além de diferente, decidiu cursar a Faculdade de artes plásticas em São Paulo. A mãe disse não. O pai, talvez. As irmãs, vai tarde. E ela foi.
Foi sozinha. De ônibus. Pela estrada nova, recém inaugurada. Seguiu firme, sentindo o conforto de parecer conhecer cada quilômetro daquele caminho que ia dar no lugar onde poderia finalmente, ser Melina.
Na cidade, que não lhe pareceu tão grande quanto sua imensa imaginação desenhara, instalou-se num pensionato de meninas dirigido por freiras e escolhido pela mãe.
Em uma semana foi expulsa do lugar.
Não se abalou. Avisou aos pais, que a bem da verdade, não puderam afirmar estarem surpresos com a notícia, e na sequência comunicou que já tinha um novo endereço. Era um apartamento na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, que dividiria com uma amiga de Campinas que havia conhecido na Faculdade.
Durante os quatro anos do curso Melina pouco voltava para casa. Respeitava as grandes festas e evitava finais de semana e férias prolongadas.
Arrumou um namorado do interior de Minas, um jovem advogado tímido na medida de sua extroversão.
No final da década de 60, estava formada e grávida.
Casou-se com um vestido que ela mesma havia feito. Uma colagem colorida de todos os tecidos com os quais já havia feito roupas para ela. Azul cobalto, vermelho carmim, renda branca, organdi amarelo, seda violeta e até paetê laranja conseguiu espaço naquele vestido de noiva único, retrato de todas as vontades criativas de Melina.
Poucos amigos e familiares testemunharam aquele desfile de moda de vanguarda, mas os que lá estiveram jamais se esqueceram da noiva que viram. E por isso Melina ficou feliz.
Nasceu Isabel e no mês seguinte o casal foi apresentar a criança à avó paterna. Quando chegou à fazenda nas Minas Gerais profunda e foi recebida pela família do marido que ainda não conhecia, Melina pôde melhor entender seu jeito introspectivo e calado. Um mundo rústico, lento e simples que a acolheu generosamente.
Já no final de sua estadia na casa da sogra, Melina foi convidada a aprender a preparar de cabo a rabo o prato preferido do marido, frango ao molho pardo.
Não deu certo. Se atrapalharam, a moça da cidade grande e a senhora de 87 anos. Em segundos tiveram seus corpos queimados pelo álcool que escapou das mãos trêmulas da velha e encontrou o fósforo aceso na mão direita de Melina.
Tudo muito rápido. Um pesadelo a 200 por hora. Hospital precário. Dor. Avião fretado. Transferência para capital. Quarenta e cinco dias de tratamento. Silêncio e cicatrizes. A sogra não resistiu. Melina sobreviveu. Por muito tempo, só sobreviveu.
Quando voltou a São Paulo reencontrou a mãe. Foi um encontro marcado por uma proximidade nunca antes experimentada. Com quase setenta anos aquela mulher de quem por toda vida fugiu, passou a cuidar com um amor que desconhecia de seu corpo mutilado. Cuidou como se cuida de uma jóia delicada, frágil e bela. Fez cada curativo com a mesma precisão com a qual bordava suas rendas portuguesas. Passou as pomadas com o mesmo gesto suave com o qual fazia o doce que Melina mais gostava, fios de ovos.
Quando saiu da cama, Isabel voltou para casa e Melina comemorou o aniversário de um ano da filha.
Foi só então que entendeu que sua vida teria que continuar. Tomou fôlego e seguiu. Dentro de casa. Dois anos sem poder ficar exposta a luz do sol.
Quando deixou a sombra na qual se escondera involuntariamente, desejou mudar-se para Belo Horizonte.
Foram. Lá engravidou e pariu Augusto.
Distante do acidente que deixou marcas, muitas marcas em seu corpo, decidiu que iria ganhar a vida com aquilo que lhe dava mais prazer, costurar. Montou uma confecção de roupas para crianças e tocou a vida sem olhar para trás e para ela mesma.
Com as crianças já na escola, o trabalho engrenado, Melina percebeu que estava cansada. Cansada de seu exílio voluntário. Cansada de viver longe daqueles que só amou e entendeu na distância. Precisava e estava pronta a aceitar ser cuidada.
Pela mesma estrada que deixou sua pequena cidade natal, voltou.
Chegou com sua pequena e dolorida família. Chegou diferente. Não era mais aquela Melina das lembranças de sua família. Estava anestesiada. Viva. Mas anestesiada.
E assim, mudada, engravidou pela terceira vez. Outra menina. Maria Cláudia.
Três filhos. Um marido acomodado no cartório do cunhado. A confecção prestes a fechar as portas. E o começo do reconhecimento de um corpo que insistia em permanecer alinhavado por dores.
Era o efeito das drogas que sua mãe tivera que tomar durante sua gravidez. A cura foi dividida com Melina que adulta, passou a sentir pontadas lancinantes por todas as suas juntas. Marcada por fora, torturada por dentro.
Quando entendeu totalmente que a dor era sua nova e não bem vinda companheira, resolveu trazer para sua vida, essa sim, uma convidada de honra, a música. Descobriu que Mozart, Debussy, Bach, Vivaldi eram capazes de fazer as horas nas quais ficava deitada driblando o desconforto, mais suaves, menos cruéis.
E foi embalada pelos clássicos, que Melina decidiu que teria que mudar. Era hora dos filhos, agora eles, decidirem o que ser nas suas vidas. O destino seria a cidade vizinha, grande, onde poderiam cursar boas universidades.
Agora aquela mesma estrada que vinha pontuando os caminhos de Melina, estava duplicada, movimentada e pronta para levá-la ao que seria seu último destino.
A filha mais velha formou-se em psicologia, o do meio fazia devagar, quase parando, carreira em um banco público e a mais nova era publicitária.
Todo esse tempo passou, toda essa dor ficou. E veio o diagnóstico que definiria seus dias. Teria que se submeter a uma série de cirurgias nas principais juntas do corpo. Só assim teria chances de se livrar de uma cadeira de rodas.
Vieram sete cirurgias. Dor. E muitos remédios.
Quando Melina sentiu-se forte o suficiente para voltar a ter sonhos, montou uma doceria. Acreditava que envolvida com algo diferente do que dor e doença poderia voltar a sentir prazer por estar viva.
Errou. Foi muito para ela. Exausta, colocou o negócio a venda e foi ajudar a nora a cuidar, na medida de seus limites, de suas três genuínas alegrias, as netas trigêmeas.
Quando as meninas completaram dois anos, o filho avisou que o casamento havia acabado. Mudou-se provisoriamente para a casa de Melina e quando faltava pouco para completar um mês do filho triste em sua casa, aconteceu o que aconteceu.
Numa segunda feira chuvosa, a ex-nora telefonou pedindo que Augusto fosse encontrá-la para levar duas meninas com bronquite para o pronto socorro. Depois de duas horas, as crianças já medicadas voltaram para casa, ganharam beijos e carinhos do pai que as deixou e saiu rumo à casa de Melina.
Não chegou até lá. Passou no sinal vermelho. Foi triturado por um carro em alta velocidade.
O filho de vinte e sete anos. Dor. Agora eram só as duas filhas. Três netas. Seis irmãs e uma mãe de noventa e sete anos, morrendo.
Morreu seis meses depois e Melina teve que mais uma vez, pegar a estrada conhecida para poder continuar a sua vida.
Foi e voltou no mesmo dia. Chegou à antiga casa da família e tudo já estava pronto. Sete lotes com os pertences da mãe divididos entre eles. Feito o sorteio, Melina saiu da casa rapidamente com o que lhe coube da herança da mãe: o jogo de jantar de porcelana inglesa branca, borda dourada, com 120 peças.
No carro, pediu que o marido colocasse no banco de trás, ao lado dela, as caixas de papelão onde estava embalada a louça.
Quando chegaram à estrada, abriu o vidro de seu lado, e tirou da primeira caixa a peça que sua mão, tateando sem olhar, alcançou.
Era um prato de sopa.
Virou o corpo, colocou a cabeça para fora, sentiu o vento gelado de final de tarde e começou a quebradeira.
Depois dos de sopa, foi a vez dos de sobremesa, dos pires, dos rasos. Todos os pratos voando pela janela. Apavorando os motoristas dos carros que seguiam atrás. Deixando a estrada com um rastro branco.
Quando, dez quilômetros rodados, acabaram-se os pratos, vieram as xícaras. De café. De chá. Todas flutuando na faixa de ar superior ao negro do asfalto. Apavorando o marido que nem sequer ameaçou abrir a boca. Parar o carro. Deixando a estrada com cacos brancos.
Vinte quilômetros à frente foi a vez das travessas. Grandes, médias, pequenas. Todas travessas vazias. Derramando todo sofrimento de Melina. Deixando na estrada estilhaços de dor.
Quando tudo acabou, Melina começou a rir. Risada gritada. Gritos antigos. Tinha feito o que jamais imaginara fazer. Estava pronta para continuar sofrendo.

segunda-feira, março 15, 2010

Foto: Maria Antonia Demasi

Zé era porteiro.
Tinha 53 anos, dois filhos e um par de sapatos surrado, marrom e enrugado.
Pregava prego. Pendurava quadro. Amarrava lustre de talher. Cacos resinados. Achava tudo esquisito.
Tirava cabide que entupia privada. Matava lagartixa dentro do armário. Grudava fotografia na parede. Pintava de roxo. De verde. De vermelho. De lilás. Achava graça.
Consertava janela. Porta. Fechadura. Campainha. Achava chato.
Jogava conversa fora. Dava uma mão. Dava risada. Sabia ser amigo.
Só não sabia que naquele dia não voltaria de sua andada noturna. Tomou café na padaria. Acendeu o cigarro. Tiraram ele da tomada. Quando cheguei esbaforida na esquina de nosso prédio, ele já estava morto, deitado no asfalto, seco e esturricado. De olhos abertos.
E eu, de boca aberta, encontrei meu amigo assim. Morto no chão. O lençol branco cobria o corpo. Só os pés ficaram pra fora.
Justo ele que me ensinou que tudo que tem a ruindade, tem a bondade. Só não consegui encontrar a bondade dele ter ido embora. Assim.
Quis acreditar que não era ele.
Não deu. Isso é que dá ter apenas um par de sapatos.

segunda-feira, março 08, 2010

Sobressalto Russo

Foto: Maria Antonia Demasi

A casa inteira estava na penumbra. Para os que não aceitam tal descrição, posso apenas adiantar que a luz que insistia em aparecer era amarela.
A mesa da sala de jantar era o único móvel que podia ser visto em sua inteireza. O resto era sombra. E sombras como bem sabem não se sustentam. Não suportam ser descritas.
Em cima da mesa, uma fruteira de madeira. Cheia de frutas. Apenas frutas. As sei sem as saber.
Por isso, quando acordei, só pude ver João. Pálido. Amarelo. Só ele aparecia em meio ao indistinguível. Ainda assim, saber que ele está, tira-me do sobressalto da lembrança de que João é um melão.

domingo, março 07, 2010

Manicure

Foto: Maria Antonia Demasi

Fran. De Francineide.
Pois é. O mais esquisito foi como minha mãe inventou esse nome. Esse só, não. Os dos cinco filhos. Coisa de nordestino. Nordestino escolhe cada nome...
Adivinha só: meu pai Francisco, minha mãe Neide, deu? Francineide. E muito sarro pra cima de mim.
Agora vou contar o nome dos meus irmãos. O mais velho, é o mais normal, até bonito, Ailton. O depois é muito esquisito, pelo menos pra mim, mas já me falaram que aqui por São Paulo é até chique, Eloi. Credo! Num acho nada de chique, parece nome de bicicleta, sabe, bicicleta Caloi?
Aí veio o Francenildo. Coitado. Nem tem o que falar. Só ouvir. Desaforo dos meninos da escola e risada das meninas
Bom, aí vem as meninas. A mais velha, Arisdelha. Mãe diz que foi ao cinema em João Pessoa e viu um filme lindo, de chorar. Chorou tanto que num conseguiu ouvir direito o nome da mulher mais linda do mundo. Entendeu Arisdelha. Mas cá comigo, duvido que era assim. Ela que não tem ouvido pra nome estrangeiro. Sobrou pra minha irmã.
E pra terminar minha mãe ganhou gêmeos. Um homem e uma mulher. Francenilda e Francildo. Além de feio que dói, o nome, não as crianças, eu não conseguia entender da onde mãe tirou essas desgraças, de nome, não de irmãos.
E foi só aí, já grandinha, que descobri o verdadeiro nome de mãe. Ednilda, (com “d” mudo mesmo) Neide. Isso mesmo: Ednilda Neide.
Tive que falar pra ela. Isso não é nome, é vingança.
A Francenilda não aguentou a barra. Trocou de nome. Faz tempo que só atende por Letícia.
Fiquei até com vontade de mudar o meu, mas achei que já tava de bom tamanho Fran. Acho simpático. E ninguém fica perguntando qual o meu nome. Quer dizer, ninguém não. A senhora perguntou.
Um dia desses, no trem, aconteceu uma coisa engraçada. Eu tava sentada, bem esmagada vendo um sujeito encoxar uma menina nova. A pobre tava tão apavorada que não conseguia nem gritar.
Me deu um nervoso que gritei. Para de encoxar a menina seu sem vergonha! O cabra não viu da onde vinha o grito e teve a coragem de perguntar: quem tá falando que eu tô encoxando a menina? E eu, puta da vida, respondi gritando mais alto ainda. Sou eu, Francineide!
Não entendi como saiu meu nome inteiro! Mas saiu tão firme que em um segundo o tal já tava levando peteleco, soco e pontapé dos caras que estavam no vagão. Na estação seguinte, foi jogado feito lixo, pra fora do trem. Quando chegou a minha estação, um bonitão ainda me disse. Corajosa Francineide! Quase morri de orgulho em ouvir meu nome falado assim.
Mas o moço tava enganado. Não sou tão corajosa assim. Pra chegar até minha casa, pago cinco reais pra um cara fortão do bairro me acompanhar.
É que tem, na verdade tinham, dois estupradores apavorando por aqui. Um, o povo tá falando que pegaram, mataram e cortaram o corpo em picadinho. Gente ruim por essas bandas não tem vez. O outro sumiu. Também, depois do destino do colega...
A senhora tá com uma cara de espanto! Mas não tem nada demais não. É assim todo dia. Se eu larga de conta estória pra senhora, eu fico aqui a vida inteira. Sabe que essa profissão de manicure é muito boa pra gente que vive no batidão e cada dia tem pouco da vida pra conta?
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