domingo, março 07, 2010

Manicure

Foto: Maria Antonia Demasi

Fran. De Francineide.
Pois é. O mais esquisito foi como minha mãe inventou esse nome. Esse só, não. Os dos cinco filhos. Coisa de nordestino. Nordestino escolhe cada nome...
Adivinha só: meu pai Francisco, minha mãe Neide, deu? Francineide. E muito sarro pra cima de mim.
Agora vou contar o nome dos meus irmãos. O mais velho, é o mais normal, até bonito, Ailton. O depois é muito esquisito, pelo menos pra mim, mas já me falaram que aqui por São Paulo é até chique, Eloi. Credo! Num acho nada de chique, parece nome de bicicleta, sabe, bicicleta Caloi?
Aí veio o Francenildo. Coitado. Nem tem o que falar. Só ouvir. Desaforo dos meninos da escola e risada das meninas
Bom, aí vem as meninas. A mais velha, Arisdelha. Mãe diz que foi ao cinema em João Pessoa e viu um filme lindo, de chorar. Chorou tanto que num conseguiu ouvir direito o nome da mulher mais linda do mundo. Entendeu Arisdelha. Mas cá comigo, duvido que era assim. Ela que não tem ouvido pra nome estrangeiro. Sobrou pra minha irmã.
E pra terminar minha mãe ganhou gêmeos. Um homem e uma mulher. Francenilda e Francildo. Além de feio que dói, o nome, não as crianças, eu não conseguia entender da onde mãe tirou essas desgraças, de nome, não de irmãos.
E foi só aí, já grandinha, que descobri o verdadeiro nome de mãe. Ednilda, (com “d” mudo mesmo) Neide. Isso mesmo: Ednilda Neide.
Tive que falar pra ela. Isso não é nome, é vingança.
A Francenilda não aguentou a barra. Trocou de nome. Faz tempo que só atende por Letícia.
Fiquei até com vontade de mudar o meu, mas achei que já tava de bom tamanho Fran. Acho simpático. E ninguém fica perguntando qual o meu nome. Quer dizer, ninguém não. A senhora perguntou.
Um dia desses, no trem, aconteceu uma coisa engraçada. Eu tava sentada, bem esmagada vendo um sujeito encoxar uma menina nova. A pobre tava tão apavorada que não conseguia nem gritar.
Me deu um nervoso que gritei. Para de encoxar a menina seu sem vergonha! O cabra não viu da onde vinha o grito e teve a coragem de perguntar: quem tá falando que eu tô encoxando a menina? E eu, puta da vida, respondi gritando mais alto ainda. Sou eu, Francineide!
Não entendi como saiu meu nome inteiro! Mas saiu tão firme que em um segundo o tal já tava levando peteleco, soco e pontapé dos caras que estavam no vagão. Na estação seguinte, foi jogado feito lixo, pra fora do trem. Quando chegou a minha estação, um bonitão ainda me disse. Corajosa Francineide! Quase morri de orgulho em ouvir meu nome falado assim.
Mas o moço tava enganado. Não sou tão corajosa assim. Pra chegar até minha casa, pago cinco reais pra um cara fortão do bairro me acompanhar.
É que tem, na verdade tinham, dois estupradores apavorando por aqui. Um, o povo tá falando que pegaram, mataram e cortaram o corpo em picadinho. Gente ruim por essas bandas não tem vez. O outro sumiu. Também, depois do destino do colega...
A senhora tá com uma cara de espanto! Mas não tem nada demais não. É assim todo dia. Se eu larga de conta estória pra senhora, eu fico aqui a vida inteira. Sabe que essa profissão de manicure é muito boa pra gente que vive no batidão e cada dia tem pouco da vida pra conta?

3 comentários:

  1. Essa força vem de dentro, é uma mola, viu?
    Adorei esse blog, que show!

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  2. adorei sua voz, seu site é ótimo.
    bjs
    Ale Safra

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  3. Adorei essa conversa! Beatriz

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