segunda-feira, março 15, 2010

Foto: Maria Antonia Demasi

Zé era porteiro.
Tinha 53 anos, dois filhos e um par de sapatos surrado, marrom e enrugado.
Pregava prego. Pendurava quadro. Amarrava lustre de talher. Cacos resinados. Achava tudo esquisito.
Tirava cabide que entupia privada. Matava lagartixa dentro do armário. Grudava fotografia na parede. Pintava de roxo. De verde. De vermelho. De lilás. Achava graça.
Consertava janela. Porta. Fechadura. Campainha. Achava chato.
Jogava conversa fora. Dava uma mão. Dava risada. Sabia ser amigo.
Só não sabia que naquele dia não voltaria de sua andada noturna. Tomou café na padaria. Acendeu o cigarro. Tiraram ele da tomada. Quando cheguei esbaforida na esquina de nosso prédio, ele já estava morto, deitado no asfalto, seco e esturricado. De olhos abertos.
E eu, de boca aberta, encontrei meu amigo assim. Morto no chão. O lençol branco cobria o corpo. Só os pés ficaram pra fora.
Justo ele que me ensinou que tudo que tem a ruindade, tem a bondade. Só não consegui encontrar a bondade dele ter ido embora. Assim.
Quis acreditar que não era ele.
Não deu. Isso é que dá ter apenas um par de sapatos.

Um comentário:

  1. A morte do corpo é algo que nos toca, mesmo que saibamos que Algo melhor nos aguarda.
    Texto de simplicidade única e comovente.
    Gostei por demais.

    Beijo

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