sexta-feira, abril 30, 2010

Sob o jugo do verbo julgar

Foto: Maria Antonia Demasi

Julgou ser oportuno usar a palavra julgou.
Julgou não. Foi impelida a.
Os olhos já ardiam e pediam cama.
As costas também ardiam e pediam ficar na horizontal.
Mas então, surgiu o verbo julgar. Na forma passada.
Ela já estava passada. Mas inundada do som e da fúria de Faulkner.
Então cedeu. Julgou que mal não causaria se grudasse no papel, nos últimos minutos do dia 30 de abril de 2010, um julgamento.

Conversa no escuro

Foto: Maria Antonia Demasi

Não que buscasse a resposta definitiva. Não.
Precisava apenas escutar. Sabia que não era aquele o lugar nem aquela era a hora. Mas precisava escutar.
Enquanto escutava, acariciava o aparelho celular. Queria decifrar a cor de cada palavra.
Escutou por quase uma hora. Não se incomodou com o barulho do bar.
E de repente a voz se calou. Ela chacoalhou o aparelho. Depois o acariciou. Por fim tateou a roupa e encontrou o bolso para guardá-lo.
Já podia ir embora. Entendeu que o suco tinha acabado. Não adiantava mais chupar fundo o canudinho.
Levantou, tateou o balcão, virou-se e foi embora.
De olhos bem fechados.

quarta-feira, abril 14, 2010

Sem título

Foto: Maria Antonia Demasi

Início.
No início era só solidão. Contornável. Foram anos assim. Depois que ele se foi, sobraram apenas bugigangas a espera de sentido, uma nuvem de seu vozeirão esparramada pelo apartamento e no boletim da menina, a assinatura do pai.
Quando não tinha mais onde se grudar para viver, a menina resolveu que grudaria em seu corpo o que acreditava ser o mais palpável do pai.
Tatuou a assinatura do morto em sua nuca. Bonito de ver. Confortável de conviver posto que ela mesma não visse. E os outros, todos os outros, também não. Porque ela escondia. Com cabelo. Com gola. Com lenço.
Assim era a menina. Queria se mostrar. Mas se escondia.
Um dia resolveu escancarar seu amor. Sua paixão. Sua loucura. Escancarou sua vida numa queda. Foi salva pelas asas tatuadas nas costas.
O corpo da menina, agora marcado, espera o tempo do esquecer.
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