quarta-feira, abril 14, 2010

Sem título

Foto: Maria Antonia Demasi

Início.
No início era só solidão. Contornável. Foram anos assim. Depois que ele se foi, sobraram apenas bugigangas a espera de sentido, uma nuvem de seu vozeirão esparramada pelo apartamento e no boletim da menina, a assinatura do pai.
Quando não tinha mais onde se grudar para viver, a menina resolveu que grudaria em seu corpo o que acreditava ser o mais palpável do pai.
Tatuou a assinatura do morto em sua nuca. Bonito de ver. Confortável de conviver posto que ela mesma não visse. E os outros, todos os outros, também não. Porque ela escondia. Com cabelo. Com gola. Com lenço.
Assim era a menina. Queria se mostrar. Mas se escondia.
Um dia resolveu escancarar seu amor. Sua paixão. Sua loucura. Escancarou sua vida numa queda. Foi salva pelas asas tatuadas nas costas.
O corpo da menina, agora marcado, espera o tempo do esquecer.

Um comentário:

  1. Tenho certeza de que voce escreveu pra mim (modesta, não?)
    Estou em dúvida sobre que tatuagem fazer, mas é para fechar um ciclo.
    E tentar esquecer.

    Beijo

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