sábado, maio 29, 2010

Ritmos

Foto: Maria Antonia Demasi

Pressapressapressapressapressapressaspressapressapressapressapre.
Praque?
Corracorra Lucinha!
Corracorra Lalá!
No caminho encontraram uma vovozinha.
Sempressasempressasempressasempressasempressasempressasem.
Morramorra vovozinha!
Morramorra vovozinha!
Não conseguimos te acompanhar.

segunda-feira, maio 24, 2010

A importância de ser RIta

Fotos: Maria Antonia Demasi


Rita limpava que limpava que limpava.
Aspirava o chão, aspirava os cantos que pra seu desencanto, desconhecia.
Instalada no silêncio percorria o grande galpão empurrando com vontade a credencial barulhenta que a permitia estar, aspirar.
Rita não parava.
Pára Rita. Pára Rita. Paralisa.
Cercada de letras, reconhecia nenhuma delas, porque de letras nunca soube muito e aquelas, eram desaforentas, atrapalhadas, desconfiava até, erradas.
Enquanto aspirava Rita só pensava que aquilo tudo era muito importante. O chão limpo, tudo que estava pendurado nas paredes e ela que aspirava somente e tanto, ser Rita.

sexta-feira, maio 21, 2010

Arrazoado

Foto: Maria Antonia Demasi

Ser razoável, não dói.
Se você conseguir não se lembrar que está sendo razoável, melhor ainda. Ser razoável atrai simpatia e elogios velados ao seu contido estar.
Sendo razoável o tempo passa mais depressa e assim consigo desviar do paralelepípedo que insiste em mirar minha cabeça.
Sendo razoável posso rabiscar meu dia com lápis tão macios quanto a maldita sensação de ter sido razoável.
E quando o lápis virar toco e o dia virar noite, volto para o meu ser nada razoável.
Volto para mim.

quinta-feira, maio 20, 2010

Confusão de palavras

Foto: Maria Antonia Demasi

Elas que sempre serviram para rasgar o verbo, estão a me trair. E justo a mim que sempre as tratei com a maior deferência. E justo a mim que sempre cuidei de deixá-las fortes, claras, coloridas. Injusto.
Não percebi logo a confusão. Ela foi se instalando - isso sim, confesso ter percebido - devagarzinho.
Mas sempre fui apaixonada por elas e paixão, vocês bem sabem, cega.
Avaliei que seria apenas uma fase; que palavras não costumam mudar de cara de uma hora para outra, que... Confusão.
Agora, enquanto escrevo, as deixo trancadas dentro de mim. Mas as palavras são de morte, ou melhor, de vida. Negam o silêncio, avançam para fora. Fora.
Parece ingenuidade culpar as palavras pela tristeza muda que sinto. Sei que sou cada palavra e sei também que elas tentaram - e como tentaram - tomar outro rumo.
Não deu.
E agora, pobre de nós. Eu e elas habitando o pior lugar que poderia nos ser destinado, o vazio.
Penso que se as deixasse serem essencialmente o que são, poderia me salvar. Nos salvar. Mas não.
Então espero pelo dia em que formos tomadas de assalto.

segunda-feira, maio 10, 2010

Loira gelada

Foto: Maria Antonia Demasi

Agora ela só espera o frio.
Para quem garante que ele está longe, sorri maliciosamente.
Finge não ouvir e segue temendo a sua chegada.
Tremendo, repete e repete o frio
Chora o dia inteiro. Sem lágrimas. Congelaram.
Frio gelado. Não vai haver manta nem chinelos para aquecê-la.
Seguirá assim até chegar o dia em que seu corpo sucumbirá ao frio.
Até lá, vai testando o inferno.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...