quinta-feira, maio 20, 2010

Confusão de palavras

Foto: Maria Antonia Demasi

Elas que sempre serviram para rasgar o verbo, estão a me trair. E justo a mim que sempre as tratei com a maior deferência. E justo a mim que sempre cuidei de deixá-las fortes, claras, coloridas. Injusto.
Não percebi logo a confusão. Ela foi se instalando - isso sim, confesso ter percebido - devagarzinho.
Mas sempre fui apaixonada por elas e paixão, vocês bem sabem, cega.
Avaliei que seria apenas uma fase; que palavras não costumam mudar de cara de uma hora para outra, que... Confusão.
Agora, enquanto escrevo, as deixo trancadas dentro de mim. Mas as palavras são de morte, ou melhor, de vida. Negam o silêncio, avançam para fora. Fora.
Parece ingenuidade culpar as palavras pela tristeza muda que sinto. Sei que sou cada palavra e sei também que elas tentaram - e como tentaram - tomar outro rumo.
Não deu.
E agora, pobre de nós. Eu e elas habitando o pior lugar que poderia nos ser destinado, o vazio.
Penso que se as deixasse serem essencialmente o que são, poderia me salvar. Nos salvar. Mas não.
Então espero pelo dia em que formos tomadas de assalto.

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