sexta-feira, junho 18, 2010

Encontro de magos

Fotomontagem: Maria Antonia Demasi














Quando tentou lembrar-se há quanto tempo o conhecia, não conseguiu. Buscou na memória algum acontecimento importante que ligasse fato à pessoa. Não conseguiu. Só vinham sensações. Falta de ar. Incômodo. Aprisionamento.

Conseguiu dar forma e lugar para tanto estranhamento. Um quarto frio de Pousada simples. Seu corpo esparramado na cama e o coração espremido por milhares de palavras. Não conseguia sair dali.
Tudo se resumia a conseguir.
Imaginava como um homem conseguia falar de outros homens, todos os homens, com tanta precisão. Fazia um esforço tremendo para conseguir descobrir como ele tirava da alma desses homens tanto horror, tanta coragem, tanta vida.
Invejava a crença de quem não crê em que todos crêem.
Por isso quando naquela manhã – mais uma manhã – ouviu que ele estava morto, só conseguiu chorar.
Como tão distante dele, tão paralisada por nada poder fazer, começou a pedir ajuda.
Pediu para o camarada Leon recebê-lo como manda o figurino de um bom partido. Avisou Frida que ele era meio carrancudo, mas que bastaria uma boa gargalhada para ele desmontar. Diego também poderia seduzí-lo com o calor de seus discursos virulentos.
Achou que precisava de música, afinal tê-lo tão perto é algo que merece festa. Chamou Astor e alertou que ele talvez estivesse cansado, afinal vinha doente há algum tempo. Mas nada que seu bandeon não resolvesse.
Sentiu-se aliviada por garantir conforto ao amigo (nem percebeu que já o chamava de amigo), e quando enxugava o rosto lembrou-se de Fernando. Não precisou pedir nada. Já estavam a conversar.
Só conseguiu ouvir a voz rouca de um...
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
E o sussurro do outro...
“O essencial é saber ver.
Saber vem sem estar a pensar.
Saber ver quando se vê.
E nem pensar quando se vê.
Nem ver quando se pensa.”

Sentiu-se aliviada. Era o encontro que faltava. Seguiu tranquila. Já haviam se reconhecido. Dois magos que deixaram a magia dos livros para nós que ainda estamos aqui.

Um comentário:

  1. Nós, aprendizes de magos, a refletir sobre uma frase que ele deixou: "A morte é a inventora de Deus."

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