terça-feira, junho 08, 2010

Eu só queria tirar a penteadeira do quarto

Foto: Maria Antonia Demasi














Quando a conversa começou, a penteadeira estava longe, bem longe dali.

Ficava exatamente na frente da cama do casal. Não era usada como tal. Era um móvel antigo, modelo Patente. Em cima do tampo, agora de vidro, desfilavam todos os santos-dela e budas-dele. Eram assim, complementares.
Naquele dia estavam na casa que construíram e elegeram para ser o refúgio. Dos dois. Juntos. Ao menos de corpo.
Jogados na sala da lareira, sentiam-se tão vazios que não sustentavam nem o fogo que teimava morrer. Morreu. E eles quase mortos, nem repararam. Estavam imersos numa banheira de vazio.
Ela bebia vinho tinto numa das dezenas de taças de cristal levemente rachadas. Não corria risco, sabia exatamente onde colocar os lábios para não cortá-los. Só não sabia, nunca soube, onde colocar as palavras que cortavam e insistiam em sair rasgando de sua boca.
Pra evitar o pior, escolheu um assunto desconexo, fachada de sua dor.
Ele começou a dedilhar as cordas novas do violão. Ele sempre usava esse escudo para se proteger do que vinha dela.
Deixou-a falar, se enroscar, tropeçar e cair na velha armadilha que armava a cada confronto. O silêncio. Velho e imbatível silêncio.
Se ainda fumasse, seria ao momento de se arrastando, sair à procura de um cigarro, acendê-lo, e voltar ao lugar de origem. Isso serviria para checar se ainda estava viva. Mas não fumava mais. Menos mal. Menos culpa. Menos margem para manobrar o desespero que sentia esquentar seu peito. Ou seria o vinho?
O que seria, não importava. O fato é que lá estava ela de novo, encharcada de tristeza quente, e desarmada. Sua última proteção era a frase úmida que de tempo em tempo escorria de sua boca: “eu não vou brigar com você, não vou...”
Resistência curta. Desmoronou. Com a mão direita sobre o rosto começou a verter lágrimas ardidas. Exausta levantou-se, pegou a cachorra que dormia em seu colo sem se importar com o que acontecia de humano entre aqueles dois humanos e falou:

-E aí, vamos dormir?

Ele devolveu o que considerou quase uma ironia com um seco “não”.
Melhor assim, pensou. Seguiu sozinha para o quarto que ficava separado da casa. Passou pelo frio atrevido, pela chuva fina, pela escuridão apertada e depois de subir os mais longos quatro degraus de que se tem notícia pelas bandas da Serra da Mantiqueira, alcançou a cama.
Se dependesse dela, só acordaria quando conseguisse finalmente explicar que só queria mesmo era tirar a penteadeira do quarto.

5 comentários:

  1. INUSITADO!!!!! ADOREI!!!!!! Bjos Gabriela

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  2. Gostei muito! É muito bonito e também muito triste e emocionante!
    Um grande abraço
    Cris

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  3. Em cima da penteadeira Budas e Santos em meio de tantos encantos muitos desencontros. Pentedadeira inerte e sem vida e nossas vidas uma inércia de acontecimentos que vão nos empurrando... empurrando...

    Gilson Dias

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  4. nossa, quase pude sentir o cheiro da lareira, o gosto do vinho e o frio cortante, lagrimas me vem aos olhos... adorei, mas é muito triste

    Fátima

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  5. Muito bom o texto!

    e eu não conhecia este modelo de penteadeira Patente, é diferente e bonita...

    abraços =]

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