terça-feira, junho 22, 2010

Lamúria embaçada

Foto: Maria Antonia Demasi

Já perdi a compostura. Choro onde tiver que chorar. Ainda não existe legislação restritiva ao ato anti-social de chorar. Então choro. E assim presto um serviço à sociedade. Não o óbvio de abrir as portas dos espaços públicos para o choro. Um mais nobre.
O de pensar, quando flagrar alguém chorando, a razão de tal desatino e depois, de tanto pensar, sem ao menos perceber, começar também a chorar. Ao perceber o quão miserável é a sua vida. O quanto o pote está até aqui de mágoa. E quando formos finalmente perguntados (sim, porque choramos em público para acionar a compaixão curiosa do outro):
Porque está chorando assim? A gente passa a mão desajeitadamente pelo rosto, dá uma fungada e responde: Nada não. Tá tudo bem.
E lá vai o outro, aliviado pela missão cumprida. E lá fico eu. Menos fungante. Menos encharcada.

E quando tudo aconteceu ela ...

chorava tanto e tão chorado que até o par de óculos que descansava em seu colo, ficou ensopado. Ensopado não. Melado. Lágrimas com creme para as mãos e cutículas. Um embaço.
Pegou o lenço do marido emprestado. Lenço de pano Presidente com um pequeno coração vermelho pintado há muito por ela.
Enxugou primeiro o rosto também ensopado, melado, embaçado.
Sem desejar, mas já prevendo o estrago, verificou que a base líquida deixara o rosto para cobrir outras manchas, as do lenço.
Esfregou o tecido já gasto – e por isso macio – como se fosse uma esponja tirando sujeira grossa de um corpo sujo imerso na banheira.
Faltavam os óculos.
Com o lenço já molhado, imaginou que seria adequado usá-lo para secar as lentes e ao mesmo tempo tentar remover o tal embaço.
Ledo engano. Quanto mais esfregava, pior ficava. Julgou que não adiantaria insistir. Tem embaço que só é vencido com limpeza mais profunda. Soluções provisórias não dão conta desse trabalho.
Deixou assim. Ao menos estavam secos. Mas tecnicamente embaçados.
Devolveu os óculos para a caixinha vermelha. Checou se o rosto já estava completamente seco. Suspirou. Bufou. E seguiu como se nada tivesse acontecido. Afinal, despencar num choro é algo muito natural. Muito.

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