quinta-feira, junho 17, 2010

Nas alturas

Foto: Maria Antonia Demasi














Apareceu pela esquerda. No meio da rua. Um homem de preto. Um vara-pau.
Magrelo.Magricelo.Impossível não olhar. Vinha caminhando no desengonço que seu tamanho imprimia. Alto. Muito alto. Cabelo de lado. Com gel. Óculos Ray Ban. Camiseta básica de mangas curtas apesar do vento frio da manhã paulistana. Mas era imperioso que fosse assim. Do contrário, como mostraria as tatuagens que cobriam todo seu braço esquerdo? Braços magrelos. Magricelos. Calça preta. Justa. Na mão direita carregava uma jaqueta - just in case – e uma pasta poliondas de plástico azul.

O ciclista que vinha na contramão virou-se para ver aquele homem que de sua altura parecia estar acima do bem, do mal e do normal.
Olhou uma vez. Continuou pedalando. Olhou outra, só que dessa vez, precisou apostar numa manobra perigosa: continuar pedalando e virar o pescoço para trás. Passou o semáforo no amarelo, ainda na contramão e mais uma vez, parecendo não acreditar no que via, manobrou pescoço e cabeça. Quase que por inércia do espanto diminuiu a velocidade e seguiu. Sem não antes, balançar a cabeça num movimento da direita para esquerda e da esquerda para direita como que estivesse sua boca dizendo: “isso não tá certo...”
Há três quadras dali, outro homem alto. Muito alto. Magro. Magricelo. Parado ao lado de um conjunto de telefones públicos – três dispostos em cacho, sendo que um deles mais baixinho, para cadeirantes ou crianças – parecendo esperar sua vez, apesar de apenas um aparelho estar ocupado. Em frente ao homem uma parede de vidro espelhado. Perfeita para sua vaidade. Não resistiu ao encanto de narciso e numa virada de corpo ligeira ficou cara a cara com a sua imagem. Languida. Checou os cabelos. Pareceu avaliar perfeitos em seu tom caju. Em sua textura peruca. Passou rapidamente o olhar pela jaqueta branca que usava. Pareceu aprovar. Mas foi então que veio um mal estar explícito. A calça jeans. Com as duas enormes mãos começou a puxar a parte traseira das pernas da calça. Sim, sobrava tecido. Ele estava muito magro. Magrelo. Ficou incomodado. Puxava mais, como se quisesse fazer uma prega imaginária. Olhava para trás. Olhava para o espelho. Olhava de novo para trás. Parecia procurar uma maneira de alinhavar mais carne à suas longas pernas. Suspirou. Bufou. Desistiu.
Foi então que passou por ele um igual. Magro. Magrelo. Só que mais jovem. Trocaram olhares fortuitos. Tiraram medidas. Sorriram discretamente aliviados pela semelhança e seguiram caminhando nas alturas.

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