quarta-feira, junho 09, 2010

Sala de espera

Foto: Maria Antonia Demasi

As orelhas aumentaram. Ficaram finas. Nas extremidades, finas como papel.
Ela está impaciente. Não se encosta na poltrona. O corpo tenta acompanhar a cabeça aflita. Não pára de falar.
O filho, meninão de 40 anos tatuado e de bermuda, está silencioso ao lado dela.
Ela vai. Ela volta. Ele exercita uma espera carinhosa.
Deve ter sido uma mulher bonita. O filho é um homem bonito.
Silêncio. Ela olha a menina que está aprendendo a andar e a falar. A menina, o começo. Ela, o fim.

Você não quer ir almoçar? Eu fico te esperando.
Que horas são?
São onze e quinze.

Não. Claro que ele não quer almoçar.
Coloca a mão no queixo. Olha para um lado. Olha para o outro lado. Aflita. Ajeita. Encosta. Cruza as mãos. Olha para o filho.
Aviso sonoro. Senha número oitenta.
Me levanto. E quando do meu guichê de atendimento volto o olhar para procurá-la, ela já não está.
Assim. No instante de minha precária ausência, levantou-se e foi ser atendida.
Deverá ser assim no dia em que morrer. Num instante aqui. Noutro lá.

3 comentários:

  1. Gosta da maneira como as imagens e expressões que você escolhe descrevem bem o estado de espírito das pessoas que você retrata. Por exemplo, posso bem imaginar a angústia que aflige uma pessoa que não consegue se encostar na poltrona, que vai e volta. É só um exemplo, pois percebo isso em muitos dos teus textos, eu me sinto não só vendo a cena, mas também sentindo, sinto-me, não apenas no lugar do narrador, que observa, mas no lugar do personagem que sente.
    Um abraço
    Cris

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  2. Lindo, Tonha... maravilhoso!
    Beijosssssssssss

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  3. Interessantissa a "descrição". :D

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