quinta-feira, julho 15, 2010

Doritos

Foto: Maria Antonia Demasi

Sentada no chão da sala de TV. Esparramada na dor de sei lá o que. Acompanhada de um litro de Coca aberto e sem gás. Saco de bolacha vagabunda pra enfiar a dor. Foi assim que ela aprendeu a ser parceira de si mesma. Na alegria - quase nunca -, na tristeza -, um quase sempre injusto.
Era linda. Mas não foi sempre assim.
Nasceu feia. Olho esbugalhado. Cabeça grande. E vomitando. Sempre e muito.
Cresceu como a mais nova dos três filhos querida da mamãe. Mamãe que a carregava pra cima e pra baixo, orgulhosa da menina destemida, esperta, arisca. Um cisco. Cisco Kid.
Por isso não entendia porque na hora de jogar bola na rua, não podia. Implorava em fazê-lo na posição mais oposta a sua energia: o gol. Só no gol... Deixa, mãe! Por favor... A mãe às vezes deixava – por cansaço de resistir – às vezes negava – por intuição.
Por definição da mesma mãe, um dia acordou linda. Lindíssima.
Então, saiu do gol. Mudou de posição. Passou a jogar no ataque da beleza com direito a treinadora. A mãe.
Seguia assim. Linda. Lindíssima.
Adolescente desejada. Amigas não tão lindas. A bem da verdade, não tão feias.
Sem graça, escondia das amigas o que a mãe escancarava para a família. A menina era modelo de roupas de gestante. Tão nova, mas tão linda que consegue vender até batas e batinhas. Nada que uma barriga de mentira não consiga resolver.
De mentira. Foi assim que começou a entender a mentira. Fingia que. Que era feliz assim. Que era natural assim. Que se sentia assim: modelo de feminilidade.
Foi o irmão do meio que avisou a irmã mais velha que na sala de TV, cada dia mais, se espalhava migalhas de bolachas e copos vazios com fundo negro melado de coca cola. Ficaram preocupados. E calados.
Seguia assim. Linda. Lindíssima.
Um dia disse sim. A um rapaz.
Disse que se casaria com ele. Tão nova. Tão linda.
Acostumada a fingir que era o que não era não deu conta na hora H, do cabelo, da maquiagem e do vestido de noiva.
O cabelo desmanchou. A maquiagem lavou. Mas o vestido ficou. E ela se casou.
Um filho. Dois filhos. Três filhos. Era mãe de verdade.
Um ano. Dois Anos. Dez anos. Não era mulher de verdade.
Separou. A aparência da realidade. O suportar do viver. A verdade da mentira.
E foi viver.
Sem posição oficial no jogo que acreditava perdido. Dispensou a treinadora. Mas não o desejo de voltar a fazer parte daquele time primeiro, da infância, da rua. Nem que fosse pra começar na reserva pra depois chegar ao gol. Depois.
Encontrou uma antiga amiga. Que jogava bola. Que se lembrava dos sacos de bolacha e da coca cola e que achou graça em saber que as bolachas foram trocadas – influência dos filhos – por Doritos.
Seguia assim. Linda. Lindíssima.
Acertou sua posição. Revezava com a amiga o meio de campo e o ataque. Na defesa, só se necessário.
Um ano. Dois anos. Nove anos.
Era uma mulher de verdade.
E então foi separada. Da alegria de conhecer. Do desejo de ter. Da vontade de ser. Ficou sem a amiga.
E foi viver. Tentar viver.
E enquanto não consegue, continua esparramando em qualquer sala de TV, copos de coca cola, sacos de Doritos e dor.

4 comentários:

  1. olá!
    procurei por seu nome e te achei neste espaço! Muito bons seus textos!
    quanto a mim, estou morrendo de vergonha da quantidade de "nés" que falei na entrevista...
    Um dia eu aprendo!
    beijos.

    ResponderExcluir
  2. comentei lá no madame mim, que por sinal, eu adorei!

    ResponderExcluir
  3. ADOREI!!!!!!!! Nada como uma visão poética pra aplacar a dor dessa linda menina!! Matéria prima para o desembaraço das suas palavras. Muito bom!!! Bjos Gabriela

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...