segunda-feira, setembro 13, 2010

Cálculos

Foto: Maria Antonia Demasi

Fazia cálculos. A lápis. De cabeça baixa, não dava para perceber se era jovem ou velha. Mas os cabelos grisalhos denunciavam a idade.
Velha.
Capote, sapatos puídos nas pontas, meia escocesa furada. Enfiada nos cálculos.
Quando o trem parou no meio do caminho escuro, o sinal vermelho acendeu e um burburinho amedrontado tomou conta do vagão. Dela não. Aproveitou a parada do sacolejo para sacar do bolso do paletó roto, uma maçaroca de papel higiênico e uma borracha. Secou o nariz que insistia em pingar em cima dos papéis dos cálculos e apagou com força errante, muitos números errados.
Antes de chegar à estação de Nova York, uma página inteira de caderno escolar, já estava preenchida. Cálculos dificílimos que sobem que descem que entopem linhas ganham flechas, colchetes, parênteses... Olha para a página de trás, volta o olhar louco para a da frente e num ato de total desespero, saca do fundo da sacola rasgada de rodinhas, uma calculadora. Não das simples. Das compostas. Com vários sinais transcendentais da mais pura Matemática Aplicada.
Começou a apertar os botões. Com pressa. Com raiva. Com medo.
Foi quando, sem antes de chegar a algum resultado, a voz gravada do maquinista anunciou o ponto final da viagem. Pânico. Enfia todos os cálculos na sacola. Com as mãos trêmulas coloca a calculadora na boca, entre os dentes amarelados, para depois prendê-la com uma mordida de loba enfurecida.
Cambaleante, sai do vagão, solta um uivo dilacerado e começa a rir insanamente enquanto acompanha com o olhar a calculadora caindo no vão entre o trem e a plataforma.
Subitamente o silêncio se fez. A mulher, absorta, virou-se a seguir em direção ao vazio deixando para trás a calculadora que virou nada.

domingo, setembro 05, 2010

O Retorno de Madame Mim

Foto: Maria Antonia Demasi

O mundo é tarja preta, uma caixinha de papelão entulhada de comprimidos brancos presos a cápsulas de plástico que, pressionadas – pressionados que somos por soluções práticas – eclodem vitoriosos.
Encoste a barriga no balcão da farmácia que mais parece uma padaria tamanha alegria! que o cliente vivencia ao ver que a receita está completa e as duas vias, corretas. E tudo fica ainda melhor, se acrescido o fato do atendente discreto evitar te encarar frente a frente com cara de quem está te achando tão doente...
E um dia quem sabe, você se encha de forças e declare exultante: parei com essa droga! daqui por diante, só um relaxante.
Muita gente sabe que esse dia chega, enfim.
Aproveite!
Mas saiba que não é simples assim.
Você em breve voltará para o mundo tarja preta, o mundo da Madame Mim.
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