sábado, novembro 20, 2010

Companhia de Dança Carole Solvay

Foto: Maria Antonia Demasi














Bailarinas prisioneiras alongavam os corpos e recostadas no vidro frio de suas almas seguiam dançando o mundo.

Coleção Carole Solvay

Foto: Maria Antonia Demasi














Vestida de alma deixou seu corpo e foi para cama.
Era noite de gala.

domingo, novembro 14, 2010

É assim que é

Foto: Maria Antonia Demasi

Sentada. Ou melhor, deitada.
Deitada na cadeira da dentista sentiu saudades de quando passava a língua pelos dentes e sentia a superfície lisa de cada um deles. Só os dentes. Só risos.
Agora a língua percorre uma sequência de acidentes periodônticos. Abalo sísmico dental, cratera ortodôntica, vales intradentes tudo envolto de cimento e resina. Muita resina.
Exausta não consegue achar razoável o ponto em que chegou. Sorri amarelo quando ouve a velha dentista dizer que tudo está ficando lindo. Acha graça de como o conceito de beleza pode ser tão largo.
Sorriso largo.
Engole seco – bem seco, pois já não tem saliva como tinha e desiste de pensar no que não pode ter de volta.

Deitada. Ou melhor, recostada.
Recostada na cama, depois de um dia duro de engolir, se prepara para o encontro esperado. Pega o livro, encontra a página marcada no dia anterior e pára. Para pegar os óculos. Bufa. Acerta o modelo que foi da avó no nariz que também é herança da avó. Grande.
Ajeita travesseiro, livro, óculos e começa. Para. Precisa pôr a placa na boca. Poe. E tira. E bufa. Volta a pôr. Desconforto duplo. Acha graça de como o conceito de desconforto pode ser tão amplo.
Ampliar horizontes.
Começa a ler – lê pouco, pois já não tem disposição como tinha e desiste de pensar no que não pode ter de volta.

Em pé. Ou melhor, arqueada.
Arqueada ao lado da cama, repassa por alguns segundos a noite que passou. Frio e calor alternados, cabeça ora com, ora sem travesseiro, sobressaltos na madrugada e sonhos. Muitos sonhos.
Ainda acorda faminta. Sempre foi assim. Só que agora tem que esperar meia hora – a mais longa meia hora de seu dia para poder comer.
Antes, o remédio. Tateando o tampo do criado mudo, alcança a caixinha de plástico com práticas divisões diárias. Vez do rosa redondo. Depois, quando se lembrar, o salmão retangular. Dupla dinâmica indispensável para manter o próprio dinamismo vivo.
Acha graça quando percebe que já se foram seis dias da semana e que já faz tempo em que o ritmo de sua vida tem sido marcado pelo cheio e/ou vazio dos quadradinhos.
Saco cheio. Vida quadrada.
Vai se vestir já não acha tanta graça em se produzir – e desiste de pensar na vida que não pode ter de volta.
Segue vivendo aquela que tem pela frente.

terça-feira, novembro 02, 2010

Quantos contos

Foto: Maria Antonia Demasi

Perdeu as contas de quantos contos tinha para escrever. Na cabeça não cabiam mais. Começou a ajeitá-los em cantos da casa. Nas quinas das paredes, nos degraus da escada, no forro pintado de branco.
Só não contou com o fato dos contos espalhados pelos cantos fossem se encantar com as fotografias que descansavam nos álbuns de sua estante.
E eram tantos álbuns, tanta vida colorida que o encontro dos contos com as imagens foi puro encanto.
Colados assim um ao outro ganharam de espanto o espaço de que tanto precisavam.
Agora são vida.
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