domingo, novembro 14, 2010

É assim que é

Foto: Maria Antonia Demasi

Sentada. Ou melhor, deitada.
Deitada na cadeira da dentista sentiu saudades de quando passava a língua pelos dentes e sentia a superfície lisa de cada um deles. Só os dentes. Só risos.
Agora a língua percorre uma sequência de acidentes periodônticos. Abalo sísmico dental, cratera ortodôntica, vales intradentes tudo envolto de cimento e resina. Muita resina.
Exausta não consegue achar razoável o ponto em que chegou. Sorri amarelo quando ouve a velha dentista dizer que tudo está ficando lindo. Acha graça de como o conceito de beleza pode ser tão largo.
Sorriso largo.
Engole seco – bem seco, pois já não tem saliva como tinha e desiste de pensar no que não pode ter de volta.

Deitada. Ou melhor, recostada.
Recostada na cama, depois de um dia duro de engolir, se prepara para o encontro esperado. Pega o livro, encontra a página marcada no dia anterior e pára. Para pegar os óculos. Bufa. Acerta o modelo que foi da avó no nariz que também é herança da avó. Grande.
Ajeita travesseiro, livro, óculos e começa. Para. Precisa pôr a placa na boca. Poe. E tira. E bufa. Volta a pôr. Desconforto duplo. Acha graça de como o conceito de desconforto pode ser tão amplo.
Ampliar horizontes.
Começa a ler – lê pouco, pois já não tem disposição como tinha e desiste de pensar no que não pode ter de volta.

Em pé. Ou melhor, arqueada.
Arqueada ao lado da cama, repassa por alguns segundos a noite que passou. Frio e calor alternados, cabeça ora com, ora sem travesseiro, sobressaltos na madrugada e sonhos. Muitos sonhos.
Ainda acorda faminta. Sempre foi assim. Só que agora tem que esperar meia hora – a mais longa meia hora de seu dia para poder comer.
Antes, o remédio. Tateando o tampo do criado mudo, alcança a caixinha de plástico com práticas divisões diárias. Vez do rosa redondo. Depois, quando se lembrar, o salmão retangular. Dupla dinâmica indispensável para manter o próprio dinamismo vivo.
Acha graça quando percebe que já se foram seis dias da semana e que já faz tempo em que o ritmo de sua vida tem sido marcado pelo cheio e/ou vazio dos quadradinhos.
Saco cheio. Vida quadrada.
Vai se vestir já não acha tanta graça em se produzir – e desiste de pensar na vida que não pode ter de volta.
Segue vivendo aquela que tem pela frente.

10 comentários:

  1. Haja resignação, são ossos, ou melhor, dentes, do ofício.
    Como é comum dizer-se, logo logo o sol volta a brilhar...
    Dentro do possível, a minha solidariedade.

    Beijo :)

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  2. "É ASSIM QUE É" a Vida ...
    Beijos na alma flor!
    Bom restinho de domingo.

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  3. Obrigada pela visita e estou aqui para retribuí-la.

    Fiquei aqui, curtindo este momento único e me deliciando com suas palavras. Um reflexão forte e contundente deste processo que é ENVELHECER. Para uns pode ser muito doloroso e para outros uma medalha de honra ao mérito. É uma dádiva qdo chegamos neste estágio de vivenciar cada instante da transformação do nosso corpo, alma e coração.

    Eu bato palmas aos que conseguem envelhecer dignamente com esta postura.Não de lamúrias ou queixas mais sim de encarar e enfrentar todas as pelejas com garra e coragem.
    PARABÉNS pelo texto. Voltarei mais vezes,tá?
    Bjtos no seu coração

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  4. O processo de envelhecer é muito doloroso. Observo as mudanças. Pessoas ativas passam a ser dependente completamente. Não sei, mas com dignidade ou sem ela, não gostaria de chegar ao ponto.

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  5. não dá pra ter a vida que já passou de volta, mas com certeza dá pra ter uma nova vida melhor, do jeito que a gente quer...
    faça ela acontecer, mas nas pequenas coisas

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  6. E pensar que de vida, só temos uma. O conceito de vivência não étão amplo assim.
    Abraços.

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  7. olá Maria Antonia,
    que bom conhecer você, teu blog e teus palpites!
    gostei dos assuntos!...
    saudações!!
    Denise

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  8. Gostei muito desse texto já que estou entrando por essa porta dos "ossos moídos"...dos "dentes ralos"...dos "cabelos sem jeito"...
    uma nova forma de vida, pela frente, em que é preciso aprender a transformar os gestos automáticos em voluntários.
    Obrigada
    Um beijo

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  9. Maravilhosa sua forma de colocar uma dolorosa e muitas vezes inquientante visita ao dentista, em um falar tão instigante. Ótimo, muito, bom!
    Beijos,
    Nina.

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  10. Ali vi uma alma velha, desde sempre. Na velhice literal, o corpo, curvado,foi resposta. A forma ranzinza, foi apenas potencializada.
    Bem antes da velhice, já podemos saber há quantos graus encurvaremos a coluna e o estado de nosso humor.
    Excelente teu texto.
    beijo.

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