quinta-feira, dezembro 30, 2010

Branco total












Ele deixava as roupas de baixo dela brancas, branquinhas. Calcinhas, anáguas e sutiãs. Tirava as marcas do tempo - quanto tempo! – e da sujeira do corpo doente - quanta sujeira! Fosse o que fosse. Se a essência fosse branca, ele teria que manter assim.
Fazia por gosto. Gosto de agradar. De gostar de agradar. De gostar de agradar Dona Onofra.
Nem ela que já tivera três homens obedientes antes dele entendia bem como aquela obediência feliz se dava. Armindo nunca deixava de agradecê-la por poder ser seu servidor. Onofra calava.
Aos que, a boca pequena, comentavam tamanha dureza de coração convivendo com tanta delicadeza, só sobrava o pequeno prazer de acompanhar o dia a dia capenga daquele casal.
A mulher, já velha de idade e de encanto pela vida, amanhecia a cada dia com uma dor diferente, num pedaço diferente do corpo. Ardia, puxava, latejava, queimava, repuxava. Estropiada. Era assim que ela seguia.
O homem, não tão velho e cheio de vida, ouvia com seus olhinhos azuis as lamúrias da amada. Era tanta devoção que Armindo não via - só ouvia - a feiúra de Onofra.
Ela era muito feia. Cara grande. Cara de cavalo...
Ela era muito dura. Mal humor. Humor de cão...
Mas era assim que a vida se dava. No equilíbrio sutil da impossibilidade que a diferença escancarava.
Num dia em que o sol castigava a cabeça de todos, mas um pouco menos a de Onofre, que era protegida pelo indefectível chapéu de feltro marrom, Arminda mandou o homem aproveitar aquele bactericida natural e colocar para quarar suas peças íntimas e brancas.
Armindo não titubeou. Enquanto lidava com um conjunto de bacias de ordem decrescente, pensava na perspicácia de Arminda. Ela que rapidamente determinou o seu fazer percebeu que o calor de 37 graus seria excelente para ele manejar roupas, baldes cheios de água, plásticos e vários tipos de produtos de limpeza e tudo isso, no quintal de cimentão branco que refletia sem dó nem piedade os raios ferventes do astro rei.
Quando, num momento comercial de sabão em pó, o quintal expunha um cenário de apologia à brancura, Armindo não se conteve e gritou por Onofra. Seria um momento lindo. Um convite quase sensual para os dois, juntos, contemplarem o branco impossível.
Mas ela não foi. Não foi. E ele acabou indo. Quando chegou na sala, seu coração queimava no peito.Não era calor. Era intuição. Quase por instinto, olhou para o chão. Lá estava ela. Corpo frio. Branca. Mais branca que as peças que não pode ver. Morreu assim.
Onofre discou 190. Enquanto esperava, foi ver se já estava no tempo de recolher as bacias. No tempo de começar a viver.
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