sexta-feira, julho 08, 2011

Entender o tempo








Durante inúmeros momentos da leitura da máquina de fazer espanhóis, o leitor terá vontade de marcar a página lida, deixar o livro de lado e ir para a Tabacaria de Álvaro de Campos. Lá, quem sabe, poderia encontrar um velho, bem velho, que lhe dissesse ser Fernando Pessoa e com ele pudesse confabular sobre a metafísica da velhice proposta por valter hugo mãe.

Certamente seria uma conversa afiada, cheia de surpresas e desejos de conhecer mundos tão distintos e particulares.

No mundo concreto apresentado pelo autor os fatos acontecem ligeiros, como se não houvesse tempo para perder com preâmbulos desnecessários e explicações que postergariam fatos que realmente farão diferença no desenrolar da narrativa.

Chegamos a um Lar de Idosos pelas mãos de um homem cheio de raiva. Por isso está cego. Demora a tirar a roupa molhada de mágoa, recusa-se secar-se ao sol e só aos poucos vai vendo alguns outros. Cinco outros. Mas já conseguimos estar no Lar da Feliz Idade, sentir os barulhos e os cheiros secos das idades avançadas, as ladainhas doloridas, os cantos e recantos povoados pelo tempo. Muito tempo.

Todos ali – exatos 93 – pelo tarde da idade têm um velho conhecido em comum, o ditador Salazar. E dele, trazem marcas. Antonio Silva, nosso cicerone no mundo do quase fim, concentra em seus silêncios, todo um corolário de medos herdados de 48 anos de apequenamento de um país que nasceu minúsculo e com o passar dos séculos só soube encolher.

valter hugo mãe escolheu com precisão os momentos em que os estragos provocados pelo regime são escancarados nos mais prosaicos detalhes do perfil de um português. Assim vai construindo no seu silva, a síntese de todas as mazelas contemporâneas de Portugal. E isso dói. Ai, como dói! cantava a fadista Amália Rodrigues, citada e perdoada pelo jovem autor.

Preciso na escolha do momento certo de desconstruir o que com cuidado nos contou sobre os recônditos do personagem principal, o texto consegue desestabilizar tudo o que até então o leitor havia formulado como verdades. Sem ofensas. Sem nos chamar de putos ingênuos e crédulos das artimanhas de um português pronto para entregar os pontos e dizer que sim, foi bom esperar um pocadito para morrer.

quinta-feira, julho 07, 2011

Os ditos e não ditos de Oswald de Andrade












Fazia frio em Paraty. No final da tarde do primeiro dia da Festa Literária, crianças das escolas da cidade corriam pelas passarelas recentemente pavimentadas que unem as tendas da Flip. A farra era entrar nos estandes da Folha, da Rede Cultura e da Livraria da Vila para tentar ganhar bolachinhas, balas e cappuccinos .Na pressa, atropelavam funcionários da prefeitura que davam os últimos acabamentos no paisagismo, iluminação e distribuição das equipes que vão trabalhar muito até domingo.

Dos turistas, comentários enaltecendo as novidades, espera nas filas das bilheterias para tentar comprar ingressos para alguma mesa e, perto da tenda-camarim, uma paradinha para espiar um senhor de cabelos (poucos) brancos, suéter, bigodinho clássico e um senta e levanta sem fim.

Era o senhor Antonio Candido apresentado no bem acabado programa da Flip, de maneira cuidadosamente resumida: o maior ensaísta e crítico literário do país. Aos jornalistas que estiveram com ele minutos antes da abertura, confessou que a longa viagem de carro o deixou cansado. Mas se enganaram aqueles que imaginavam que esse homem de 94 anos entraria devagar ou trôpego no palco. Chegou de chofre em meio a fala do curador Manuel da Costa Pinto que ainda tentou acabar de dar o seu recado, mas foi impedido pelo barulho ensurdecedor das palmas.

Miúdo, encostou-se no espaldar da poltrona que lhe foi reservada e ficou olhando fundo para tanta gente em pé aplaudindo. Na sequência levantou lentamente os braços e saudou a plateia, ou para ser mais precisa, os fãs.

Começou dizendo que veio para dar um depoimento. Apesar de 30 anos mais velho que Oswald de Andrade, foi seu amigo.

Disse que o homenageado de 2011 adoraria estar aqui em Paraty, afinal, Oswald apreciava fazer amigos estrangeiros, criar polêmicas, arrumar inimigos pra depois ficar amigo dos mesmos, para sempre. Coisas do modernista Oswald de Andrade brasileiro que, segundo Candido, mantinha no campo das ideias, extrema coerência: um inconformado com as injustiças sociais contra as quais lutou e fez literatura durante toda vida.

A Flip terá autores e debatedores que terão oportunidades de mostrar se essa coerência ainda circula entre intelectuais modernos que circulam por aqui. E esperar para ver.

quarta-feira, junho 01, 2011

Eu leio os russos


Sobre os russos sabia pouco. Acabara de ler um livro -excelente livro- cujo cenário era São Petersburgo. Não, não era “Crime e Castigo”, mas ambos diziam de uma cidade malditamente bela onde cada um que lá habitava sofria de um sobressalto crônico.
Ela, de alguma estranha maneira, conhecia esse mal estar e por isso, a cada página virada, respirava fundo para entrar no próximo conjunto de palavras portadoras dessa estranha sensação.
Sobre os russos sabia pouco, mas dava como certo que um dia saberia mais. Iria para Rússia.
Quando, muito depois de ter lido esses livros, resolveu colocar um tradutor muito ordinário do português para o russo em seu blog, não contava com o fato deles, os russos, passarem a serem leitores mais do que constantes de seu livro de contos virtual.
Chegaram mansos-como assim devem agir os bons e renomados agentes russos- mas esses não eram agentes literários com os quais tanto queria travar conhecimento.
Começou achar estranho grupos de cinco num dia, sete em outro, nove! internautas quase que simultaneamente lendo seus escritos.
Conseguiu acessar detalhes dessas máquinas russas e descobriu que eram sempre as mesmas.
Pânico. Ligou para amiga que cuidava do blog. A moça, mas afeita às questões de alta tecnologia, descartou espionagem, sorriu amarelo e minimizou a questão sugerindo que o blog poderia estar sendo lido numa escola de Português para russos, por exemplo. Coitada. Ingênua. Não entendia nada de nada dos meandros desse mundo russo-subterrâneo.
Ficou tomada pela idéia dos russos vigiando sua vida. Ao menos sua vida literária. Todo dia corria para certificar-se de que continuavam lá. Gostava de clicar na bandeira da Rússia e ver tudo transformado em letras duras e geométricas. Até seu nome ficava mais bonito assim. Mas tinha medo.
Por isso, um dia, decidiu que não queria mais. Clicou com força desmedida no ícone que deletaria a Rússia, os russos e todo o aparato de espionagem que acreditava estar por trás daquelas visitas.
Ficou aliviada. Mas até hoje sonha com o dia em que eles, os russos, num sobressalto, aparecerão. Só que camuflados de leitores chineses.

sábado, maio 07, 2011

Sutileza


O carro escorregava pela avenida enquanto Elza ao volante se orgulhava por dirigir com constância.
Os semáforos, todos eles, estavam verdes e de quando em quando, a poucos metros de se aproximar da faixa limite, mudavam de cor como se numa reverência a chegada de seu carro 1.0 que a partir de então era uma carruagem. De princesa.
Sim, ela era Grace. Grace Kelly. Tão linda, tão segura de si, de nós, de vós, Vossa Alteza.
Sorriu macio, olhou para o banco de trás e alcançou as duas meninaspequenas embrulhadas em casacos de flanela xadrez.
Cada uma das irmãs tinha o rosto vincado no vidro frio de outono e os olhos perdidos no movimento do meio dia.Estavam protegidas.
Buenos Aires embalava o sacolejo do carro. Elza então voltou-se para frente e pensou que naquele trajeto de fimdemanhã tinha conseguido alcançar a tranquilidade perdida no dia anterior.

terça-feira, maio 03, 2011

Violência intransitiva


Foram vinte. Minutos. Horas. Dias... Não sei precisar. Mas foram vinte.Precisei fechar as janelas. Por segurança. Como eram de duas folhas, achei melhor fechar as duas. Por insegurança pressentida.
Éramos dois. Dois seres plasmados destilando ódio. Olhava e olhava para você tentando descobrir um número de teatro burlesco. Mas não encontrei. Era você mesma. Bizarra e quebradiça.
Disse que precisava falar. Gritou que eu precisava ouvir. Como se a vida inteira - vinte anos – sua idade eu sei, não tivesse sido uma Babel de pedidos de socorro.
Você sabia que eu não aguentaria por muito tempo seu discurso disco-quebrado euteodeio, vocêarrebentaminhavida, porquevocê existe, porquenãomeesquece, porqueinsisteemmeamar.
Até que chegou o momento pelo qual você espera a cada minuto de sua existência, o confronto. Físico. Visceral. Eu a prisioneira, você com a chave esmagada na mão direita como uma criança segurando a boneca prestes a ser castigada. Mas não. A castigada era eu.
Consegui fugir. Pelo buraco da fechadura. Esvai de dor e fugi
E então - novamente não sei precisar quanto- estava no meu caminho. Você nem imaginava que caminho era esse, até que na curva fechada do túnel, te avistei. E quase perdi meu incerto rumo
Você, invariavelmente, nos lugares mais arriscados. Estava lá encostada na parede imunda com trilha sonora da loucura e nos braços, que merda, ela.
E agora eu tenho medo do que você carrega. Uma bomba. Uma faca. Uma boneca nos braços. Uma boneca.
Não tem mais o que tirar. Já tirou até o último fio de cabelo loiro que te restava. Já não tem mais o que colocar. Já encheu o corpo de figuras que não querem dizer nada, como nada quer dizer alguma coisa nessa sua vida esburacada.
Só que eu não quero essa vida pra mim. E por isso, sou eu quem vai embora. Deixo pra você, embrulhado em papel de loja de presente chique, meu desprezível medo.
Ele é todo seu. Como toda casa, todo banheiro, todas as roupas, tudo que pintei e arrumei. Fica com tudo. E segura firme a boneca. Porque nesse mundo que você escolheu, as pessoas podem pensar que sua boneca é apenas uma boneca e não entenderem que ela sou eu.

quarta-feira, abril 27, 2011

Que ou aquele que padece de algum mal físico e/ou moral


Olívia está doente. Coitada. Tão nova e desde cedo, descontrolada.
A mãe de Olívia está doente. Coitada. Nem tão velha, no entardecer da vida, pôr-se a adoecer do outro. Doença grave.
O irmão é doente-avesso de Olívia. Coisa esquisita. Doideira para escolher: cara ou coroa.
A tia de Olívia tem um ano que adoeceu de amor acabado. Não há meio de esquecer a moça. O tio, sempre tão alegre, está doente dos olhos. Verdes, tão verdes, agora opacos. Perda crônica de clorofila vital.
A vó de Olívia tem doença com nome e endereço - depressão- e endereço, o dela. Parece que casa de vó é boa até mesmo para depressão. Mas faz tempo que Olívia não vai até lá. Ela está doente.
A outra vó de Oli - esse é o apelido da menina - está doente do tempo. Muito tempo. Tanto tempo que se esqueceu que gostaria de não mais viver.Agora tem medo de morrer. Então é morta-viva.
A filha dessa vó, tia de Olívia, tá doente de gorda.Vai explodir. Assim como a prima da mesma idade de Oli e a mãe dessa prima que além de gorda esqueceu-se de crescer e tem a mesma idade da filha. Portanto, doentes iguais.
A família , como se vê, é grande. Diversa. Doente. Tem mais gente. E doença para cada um deles. Mas vou parar por aqui. Preciso tomar meu remédio. Não, não estou doente não. É só uma questão de prevenção.
Nossa! Ia me esquecendo do pai de Olívia. Esse garante que é saudável e não é por falta de esforço. Ele tenta com afinco adoecer.

terça-feira, abril 12, 2011

São Bernardo a vista

Beatriz Lefèvre/Fotografia

Há um ruído no ar. Do tempo. Do vento que sabemos artificial.
O ruído teima em nos acompanhar e em pouco tempo já faz parte de São Bernardo, uma história em movimento. Graciliano, que contam, não gostava de música, o que diria de um barulho que incomoda com a mesma elegante dureza de suas palavras? Barulho que os tempos modernos não conseguiram eliminar. Não há restauro para sutilezas.
E nessa batalha surda entre o meio silêncio, as memórias de um homem rude e as tentativas de existir de poucos personagens, a secura de São Bernardo vai ganhando olhos e respirações.Viçosa então aparece com contornos de lugar de gente dura e esturricada, pronta para receber e ser palco de um desejo violento de ser e poder.
É o homem Paulo Honório que invade o espaço-retrato de um pedaço grande de terra, palco do desterro de homens sem rumo.
Cor de terra, roupa camuflada de bicho. Assim Paulo chega, se impõe, se faz respeitar, manda matar e percebe que talvez, apenas talvez , deva ou possa amar.
Escolhe uma mulher que flutua. Madalena tem os olhos no vazio, a brancura que Paulo Honório persegue e o mistério de um passado que aquele que será seu homem, jamais entenderá.
Arma-se um embate. Um racho. Um riacho que escancara a impossibilidade disso que se pretende amor. E assim, cada um de uma margem, comunica o seu estar. Mal estar.
A loucura está colocada. O corpo de Madalena torce, contorce, resvala na parede feito marola doida do mar enquanto Paulo Honório invade de espingarda em punho, a sua alma.
O desfecho anunciado não perde a força de um final infeliz. Sabemos que Madalena sucumbirá. Todos sucumbem.
Mas o homem de Graciliano não pode esquecer. Então lembra. Puxa pela memória seca. Fixa sua existência na luz bruxuleante do toco de vela que foi luz, da luz que já foi vida. E arria. Larga o corpo em cima da mesa que foi tábua de salvação para suas letras e respira a escuridão.

quinta-feira, abril 07, 2011

Trevas na escola


Enquanto isso, no puxadinho da casa vizinha da escola, o moleque treinava o jeito mais bacana de escrever o nome do amigo. Sim, porque Ele - assim mesmo, com letra maiúscula - tinha um amigo, ele - esse sim, com letra minúscula.
Amigos desde o dia em que o maluco resolveu não ir embora depois da aula e dar um tempo na quadra. Só que começou a chover pencas e eu que era um tampinha, quando vi o cara molhado feito um pinto pobre, gritei pra ele chegar junto na minha laje.
Aguentar as esquisitices do cara por tanto, não foi mole.Esquisitice mesmo. A última ( não essa última) foi demais
Mês passado um bacana chegou aqui na comunidade dizendo que era cineasta e convidou a gente pra assistir lá na Zona Sul o filme que ele tinha feito. A gente, encostado no muro da escola, olhou um pro outro e disse,valeu, mas não vai rolar não. Só que o mané não desistiu e disse que o filme era maneiro e que o ator principal era o Wagner Moura. Aí a coisa mudou de figura. Filme com esse que fez aquele outro lá que esqueci mas que rola muito tiro, a gente não podia perder.
O nome do filme não lembro bem, Vips, Tips, sei lá. Só sei que a história era da hora. Um maluco, tão maluco que comecei achar meu amigo normal.
O do filme achava que era uma pá de gente que não era ele. Coisa de louco. Até o cara achava que ele mesmo era louco. Meu amigo largadão do meu lado ria como nunca tinha visto rir tanto. E foi aí que o bicho pegou. Começaram a gritar pra ele calar a boca, ir se fuder e um monte de outras merdas. E não é que o Bizarro – vê só, tô chamando meu amigo do nome que o dono do bar do filme, chamava o Wagner Moura – levantou da cadeira virou pra trás e gritou - Vamo calar essa boca do caralho senão vai todo mundo pra escola! A sala ficou sem fala. Um bando de mudo olhando pro meu amigo. A coisa foi tão sinistra que não teve pra ninguém abrir a boca. Um magrelo barbudo – assim é que ele estava, porque magro ele era desde que tinha uns vinte, dezenove anos, mas barbudo, era coisa de uma semana – gritando um troço assim, sem pé nem cabeça, com a cara mais cheia de raiva que pelo menos eu, já tinha visto. Coisa de cinema. Não desse. Americano.
Não deu tempo de nada. Grudou nele o bacana cineasta e um segurança do cinema que tirou a gente de lá.
Fiquei na minha. Achei aquele troço estranho. O que aconteceu e meu amigo também. Muito estranho.
Quando a lotação despencou a gente em frente à escola, aproveitei o lugar e ldei uma zoada. Aí cara, assim os bacana da Zona Sul vão achar que escola é prisão!
Não é para ficar tranquilo mesmo. Escola é treva. Puta bom lugar pra jogar filho e fazer de conta que tá tudo bem do outro lado do muro.
Não entendi nada. Deve ser essas idéias que ele aprendeu na porra do computador onde ele fica babando dia e noite.
E não é que hoje meu amigo faz uma dessa? Vacilão. Monte de menina linda que ele nem nunca tinha falado ... é mas ele não falava com ninguém, quando saia do buraco onde vivia, colava só em mim.Quem gosta de falar sou eu.
E agora to achando que vou falar muito. Uma pá de repórter na frente da minha casa querendo saber de tudo, tudo, tudo sobre Ele – assim, com letra maiúscula – porque agora Ele é famoso, conhecido até nos estadosunidos lugar de onde ele dizia que vinha o nome dele,
Well in town ou será? Well, in town? Well in, town? We´ll in town? Wellington? Deve ser assim. Deixa eu aproveitar que rapidinho, tudo volta a ficar bem na cidade.

Ensonhada


Quando acordou, confinada no lado esquerdo da cama, pensou: “buraco na cama, esparramo da vida”. Não sabia direito o que significava a frase, mas achou que era perfeita para o que sentia.
Sentia frio porque não estava acostumada a dormir com um buraco no meio da cama. Quando isso acontece, acabava de aprender, encana um vento dolorido pelas frestas do lençol e quem está na boca do buraco acaba tendo o corpo paralisado. Passou a noite dura como na brincadeira infantil “duro ou mole”. Havia sido tocada pela dureza da vida.
Apesar do buraco ser grande, ela conseguia ver o outro. Encolhido como um feto, enrolado num cobertor de silêncio vermelho, parecia também estar paralisado. De costas, só mostrava a cabeça, pequena, cheia de cabelos brancos, a ponta de um cotonete.
O buraco, ela sabia, além de grande, era fundo. “O buraco é fundo, acabou-se o mundo”. Quando criança entoava essa brincadeira e ao final, ficava pensando que tamanho exatamente deveria ser para caber o mundo.
Um dia descobriu o primeiro buraco fundo de sua vida. Foi na camona de seus pais. Teve medo de olhar, na verdade, não daria mesmo para enxergar o fundo. Só sabia que de tão perigoso a mãe resolveu ir dormir na rede da garagem.
Ela então pensou que deveria sair e dormir na sala ou mesmo na cama da filha que já estava na escola. Ficou com medo. Temia deixá-lo sozinho. É que no meio da noite, isso ela bem sabia, costumava se contorcer e às vezes até falar. Só que a voz que ouvia não era dele. Dava medo. Não se entendia uma só palavra. Mas dava medo. “Voz do além”, ela brincava. Voz que enquanto acordado, fazia prisioneira e durante a noite libertava embolada, para aliviar o peso de palavras tão pesadas que carregava no coração.
Decidiu levantar-se. Era melhor ficar sonada do que enjoada na cama. Altura era o ponto fraco da moça. Estar à beira de um buraco a mais de sete horas tinha sido uma experiência e tanto para ela.
Acreditava até então, que a hora de ir para cama era a hora em que automaticamente os buracos se fechavam. Pela força do carinho, da vontade do outro. Mas resignou-se. Não era assim.
Até que demorou para ela entender que quando o buraco é realmente fundo, a vida se esparrama dentro dele e aí parece ser melhor trocar de cama.

quarta-feira, março 23, 2011

Alicate de unha


Um alicate antigo, pesado. De dentista renascentista.
Sem motivo, com muita precisão e manobrado por uma mão sem rosto, arrancava as unhas uma a uma no ritmo dos gritos encarcerados da mulher.
Dor funda. Dor que não sentiu, mas imaginou. Era sempre assim. Sem mais nem menos Elvira era invadida por essa imagem-dor.
Até o dia em que esmagou três dedos na porta do armário. Ficou sem voz e sem unhas. Nunca mais sonhou assim.

sábado, março 19, 2011

Já se foi


Não dava mais. Tinha que falar com ele. Longa e confortavelmente.

Não suportava aqueles pequenos contatos. Nem bem contatos. Sinais quase de fumaça.
O silêncio entre eles se instalou sorrateiramente.
Em meio a uma longa conversa, um desligar abrupto. Prestes a engatarem uma boa história, o aviso dissimulado de que o final viria em breve, muito breve.
Então vieram as mensagens quase cifradas. Apenas o essencial, aquilo que não a deixava esquecer que ainda o amava.
Silêncio longo.
E o convite para lembrar-se daquele homem apenas com o que conseguira recuperar de sua amarelada memória afetiva.
Assim o fez.
E o incomodo foi ganhando tamanho espaço em sua vida que um dia, cheia de falsa coragem, decidiu o decidido.
Aceitou que estava morto.
Só faltava pedir que seu telefone fosse desligado.

terça-feira, março 15, 2011

A espera da melancolia

Marcos Garutti/Ilustração
Ele fez o desenho.
Ela achou que os traços acinzentados guardavam certa melancolia, inapropriada para um presente de aniversário. 
Na dúvida, ele concordou. E o guardou por seis anos.
Quando a mulher, dona essencial do desenho, foi visitá-lo no ateliê, lembrou-se e foi para as enormes gavetas procurá-lo.
Estava prestes a se livrar do julgamento final.
Demorou. E por fim o achou. Já meio amarelado. Já meio amassado. Cansado de esperar. Melancólico. 
Como nunca deixara de ser. Como sempre fora a dona do desenho.

quarta-feira, março 09, 2011

Posturas III


Jogava o corpo para trás e a existência para frente. Com as duas mãos, com os dois braços.
Na dúvida, segurava a vida pelas ancas.
No rosto, o maior vão do buraco da vida.
Quando o outro não conseguia fazê-la entender vida ou detalhes técnicos dela, falava alto e ela, escutava baixo.
Quando não entendia absolutamente nada, parava, aprumava as ancas e esperava.
E de tanto seguir nesse sacolejo frouxo de existir, um dia desancou e caiu.

terça-feira, março 01, 2011

Eu só queria tirar a penteadeira do quarto


Quando a conversa começou, a penteadeira estava longe, bem longe dali.
Ficava exatamente na frente da cama do casal. Não era usada como tal. Era um móvel antigo, modelo Patente. Em cima do tampo, agora de vidro, desfilavam todos os santos-dela e budas-dele. Eram assim, complementares.
Naquele dia estavam na casa que construíram e elegeram para ser o refúgio. Dos dois. Juntos. Ao menos de corpo.
Jogados na sala da lareira, sentiam-se tão vazios que não sustentavam nem o fogo que teimava morrer. Morreu. E eles quase mortos, nem repararam. 
Estavam imersos numa banheira de vazio.
Ela bebia vinho tinto numa das dezenas de taças de cristal levemente rachadas. Não corria risco, sabia exatamente onde colocar os lábios para não cortá-los. Só não sabia, nunca soube, onde colocar as palavras que cortavam e insistiam em sair rasgando de sua boca.
Pra evitar o pior, escolheu um assunto desconexo, fachada de sua dor.

Ele começou a dedilhar as cordas novas do violão. Ele sempre usava esse escudo para se proteger do que vinha dela.
Deixou-a falar, se enroscar, tropeçar e cair na velha armadilha que armava a cada confronto. O silêncio. Velho e imbatível silêncio.
Se ainda fumasse, seria ao momento de se arrastando, sair à procura de um cigarro, acendê-lo, e voltar ao lugar de origem. Isso serviria para checar se ainda estava viva. Mas não fumava mais. Menos mal. Menos culpa. Menos margem para manobrar o desespero que sentia esquentar seu peito. Ou seria o vinho?
O que seria, não importava. O fato é que lá estava ela de novo, encharcada de tristeza quente, e desarmada. Sua última proteção era a frase úmida que de tempo em tempo escorria de sua boca: “eu não vou brigar com você, não vou...”
Resistência curta. Desmoronou. Com a mão direita sobre o rosto começou a verter lágrimas ardidas. Exausta levantou-se, pegou a cachorra que dormia em seu colo sem se importar com o que acontecia de humano entre aqueles dois humanos e falou:

-E aí, vamos dormir?

Ele devolveu o que considerou quase uma ironia com um seco “não”.
Melhor assim, pensou. Seguiu sozinha para o quarto que ficava separado da casa. Passou pelo frio atrevido, pela chuva fina, pela escuridão apertada e depois de subir os mais longos quatro degraus de que se tem notícia pelas bandas da Serra da Mantiqueira, alcançou a cama.

Se dependesse dela, só acordaria quando conseguisse finalmente explicar que só queria mesmo era tirar a penteadeira do quarto.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Simples assim


Por aqui tá friozinho. De noite, mais ainda.
Na camona tem um lençol de malha novo. Parece uma camisetona Hering gigante abraçando meu corpo.
Tem briga pra ver quem dorme comigo... E eu pensando: “ah! se ele estivesse aqui, não tinha para elas.”
Tenho dormido de pijamão. Quando abro o armário prá pegar, vejo o seu, me olhando.
Quando abro a geladeira, a água prata te esperando.
Pequenas e boas coisas que trazem você para perto.
Espero assim.
Meu amor vai na sacolona.
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