segunda-feira, janeiro 31, 2011

Mal agouro


A hora em que a tempestade chegou, ele foi embora.
Assim. Bateu a porta, deixou a cachorra acantonada na cozinha, e se foi deixando para trás raios e trovões.
Sempre ia. De alma. De corpo presente-ausente, era a primeira vez. E foi assim que ela viu a solidão se materializar. Ficou para trás, no olho do furacão, de vestido aberto, chinelo no pé e o cansaço de todo o dia nas costas.
Só que dessa vez foi junto. Não para fugir. Já fazia muito que sabia se defender de rajadas de raiva. Foi para dizer que não era justo ficar sozinha. Que também queria partir. Que ambos haviam plantado ventos e agora teriam que colher juntos a tempestade.
Falou. E como sempre, ele não respondeu. Andaram na direção contrária a que deixaram para trás e quando ela percebeu, estava de mãos presas nas costas, como ele. Os dois com medo de levantar vôo. Um vôo proibido, sem volta.
Caminharam pouco. Ele fez meia volta. Ela o seguiu.
Quando entraram no jardim da casa, ele descreveu um círculo e aterrissou no banco. Ela o seguiu. Guardou o silêncio do medo. Mas não por muito tempo. Despencou das alturas e começou a falar. Que não fazia sentido. Que não era a saída. Que não aceitava um caminho imposto. Que não acreditava que tinha sido abandonada. E entrou.
Quando abriu a porta, já sabia que o mal tempo não tinha passado e cercada de grandes instabilidades, partiu para o confronto final.
Deu a cara pra bater, os olhos para verterem água salgada, e o coração pra ser despedaçado. Mais uma vez. E então, imersa na dor que de longe conhecia, se deixou levar pelo conforto da rendição final.

sábado, janeiro 01, 2011

Posse


Chego
aporto em seu porto
encosto em seu rosto
e torço
pra você não deixar de
me ancorar
me recostar
me amar
torço.
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