quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Simples assim


Por aqui tá friozinho. De noite, mais ainda.
Na camona tem um lençol de malha novo. Parece uma camisetona Hering gigante abraçando meu corpo.
Tem briga pra ver quem dorme comigo... E eu pensando: “ah! se ele estivesse aqui, não tinha para elas.”
Tenho dormido de pijamão. Quando abro o armário prá pegar, vejo o seu, me olhando.
Quando abro a geladeira, a água prata te esperando.
Pequenas e boas coisas que trazem você para perto.
Espero assim.
Meu amor vai na sacolona.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Como quem tira de si um bicho


Aqui onde agora está, esse edifício alto, era uma casa velha que envelheceu de repente como o homem que está rolando de lá pra cá na laje do último e alto andar.
As luzes da praça que agora de tão fortes dão vista para o infinito-todo, deixam sua escolha escancarada.
Estou bem aqui. Essa claridade de dia ilumina a escuridão de meus pensamentos.
Rola para beira de seu abismo particular e considera confortável a possibilidade de deixar o corpo ir de encontro ao seu mais sinistro desejo.
O edifício percebido de tão alto, era como uma ilha cercada de outras ilhas
“Ilha é um pedaço de terra cercado de água por todos os lados.”
Acidente geográfico decorado no canto da sala onde o menino ficava acuado pela idéia da morte não eminente do pai. Que não morria nunca, mas por quem aprendera a ter medo do medo do medo da ausência.
De bruços, como um bebê chorão, admirava o buraco negro que espreitava logo abaixo de seus olhos, nariz, boca e queixo. Tentador.
A idéia da morte sempre lhe fora tentadora. A morte e sua comparsa culpa. A morte que anula o morto e destrói a vida dos vivos.
Mas tenho outra opção.
O corpo velho e cada vez mais pesado, tomou impulso e como um rocambole de goiabada foi se arrastando para o centro daquele piquete de concreto existencial.
Acima de seus olhos, nariz, boca e queixo, viu o céu. Céu fingido. O céu de seu ser.
Posso então escrever um conto.
Imagina pequenas histórias onde sempre sofria. Muito. Sofria e não sabia por que sentia tanta vontade de sofrer. Vontade não. Necessidade. Foi aí que o menino começou a envelhecer.
Barriga para cima deliciou-se com seu poder. Poder se jogar ou. Poder escrever um conto.
Sentia-se flutuando prazerosamente entre essas duas possibilidades. Então, resolveu brincar.
Homem grande escolheu esconder pelos cantos de sua história, a idéia de morte e foi tentar a vida. Foi. Foi. Mas sempre voltava para ela. A morte da alegria que ia. Ia. Sempre ao seu encontro.
Rodou o corpo para a beira de seu abismo e,sem fazer esforço,estancou o movimento quando o rosto, apenas o rosto, já havia alcançado o vazio.
Posso me jogar ou escrever um conto.
E quando a conhecida morte o visitava, o homem, agora plenamente velho, chorava. Chorava.
Posso me jogar ou posso escrever um conto.

O lápis era desconfortável, mas tentador. Prata. Prata-purpurina que deixava a mão direita sentir-se desejada a cada grão brilhante que grudava nos três dedos-maquinistas do escrever.
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