terça-feira, fevereiro 15, 2011

Como quem tira de si um bicho


Aqui onde agora está, esse edifício alto, era uma casa velha que envelheceu de repente como o homem que está rolando de lá pra cá na laje do último e alto andar.
As luzes da praça que agora de tão fortes dão vista para o infinito-todo, deixam sua escolha escancarada.
Estou bem aqui. Essa claridade de dia ilumina a escuridão de meus pensamentos.
Rola para beira de seu abismo particular e considera confortável a possibilidade de deixar o corpo ir de encontro ao seu mais sinistro desejo.
O edifício percebido de tão alto, era como uma ilha cercada de outras ilhas
“Ilha é um pedaço de terra cercado de água por todos os lados.”
Acidente geográfico decorado no canto da sala onde o menino ficava acuado pela idéia da morte não eminente do pai. Que não morria nunca, mas por quem aprendera a ter medo do medo do medo da ausência.
De bruços, como um bebê chorão, admirava o buraco negro que espreitava logo abaixo de seus olhos, nariz, boca e queixo. Tentador.
A idéia da morte sempre lhe fora tentadora. A morte e sua comparsa culpa. A morte que anula o morto e destrói a vida dos vivos.
Mas tenho outra opção.
O corpo velho e cada vez mais pesado, tomou impulso e como um rocambole de goiabada foi se arrastando para o centro daquele piquete de concreto existencial.
Acima de seus olhos, nariz, boca e queixo, viu o céu. Céu fingido. O céu de seu ser.
Posso então escrever um conto.
Imagina pequenas histórias onde sempre sofria. Muito. Sofria e não sabia por que sentia tanta vontade de sofrer. Vontade não. Necessidade. Foi aí que o menino começou a envelhecer.
Barriga para cima deliciou-se com seu poder. Poder se jogar ou. Poder escrever um conto.
Sentia-se flutuando prazerosamente entre essas duas possibilidades. Então, resolveu brincar.
Homem grande escolheu esconder pelos cantos de sua história, a idéia de morte e foi tentar a vida. Foi. Foi. Mas sempre voltava para ela. A morte da alegria que ia. Ia. Sempre ao seu encontro.
Rodou o corpo para a beira de seu abismo e,sem fazer esforço,estancou o movimento quando o rosto, apenas o rosto, já havia alcançado o vazio.
Posso me jogar ou escrever um conto.
E quando a conhecida morte o visitava, o homem, agora plenamente velho, chorava. Chorava.
Posso me jogar ou posso escrever um conto.

O lápis era desconfortável, mas tentador. Prata. Prata-purpurina que deixava a mão direita sentir-se desejada a cada grão brilhante que grudava nos três dedos-maquinistas do escrever.

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