quarta-feira, março 23, 2011

Alicate de unha


Um alicate antigo, pesado. De dentista renascentista.
Sem motivo, com muita precisão e manobrado por uma mão sem rosto, arrancava as unhas uma a uma no ritmo dos gritos encarcerados da mulher.
Dor funda. Dor que não sentiu, mas imaginou. Era sempre assim. Sem mais nem menos Elvira era invadida por essa imagem-dor.
Até o dia em que esmagou três dedos na porta do armário. Ficou sem voz e sem unhas. Nunca mais sonhou assim.

sábado, março 19, 2011

Já se foi


Não dava mais. Tinha que falar com ele. Longa e confortavelmente.

Não suportava aqueles pequenos contatos. Nem bem contatos. Sinais quase de fumaça.
O silêncio entre eles se instalou sorrateiramente.
Em meio a uma longa conversa, um desligar abrupto. Prestes a engatarem uma boa história, o aviso dissimulado de que o final viria em breve, muito breve.
Então vieram as mensagens quase cifradas. Apenas o essencial, aquilo que não a deixava esquecer que ainda o amava.
Silêncio longo.
E o convite para lembrar-se daquele homem apenas com o que conseguira recuperar de sua amarelada memória afetiva.
Assim o fez.
E o incomodo foi ganhando tamanho espaço em sua vida que um dia, cheia de falsa coragem, decidiu o decidido.
Aceitou que estava morto.
Só faltava pedir que seu telefone fosse desligado.

terça-feira, março 15, 2011

A espera da melancolia

Marcos Garutti/Ilustração
Ele fez o desenho.
Ela achou que os traços acinzentados guardavam certa melancolia, inapropriada para um presente de aniversário. 
Na dúvida, ele concordou. E o guardou por seis anos.
Quando a mulher, dona essencial do desenho, foi visitá-lo no ateliê, lembrou-se e foi para as enormes gavetas procurá-lo.
Estava prestes a se livrar do julgamento final.
Demorou. E por fim o achou. Já meio amarelado. Já meio amassado. Cansado de esperar. Melancólico. 
Como nunca deixara de ser. Como sempre fora a dona do desenho.

quarta-feira, março 09, 2011

Posturas III


Jogava o corpo para trás e a existência para frente. Com as duas mãos, com os dois braços.
Na dúvida, segurava a vida pelas ancas.
No rosto, o maior vão do buraco da vida.
Quando o outro não conseguia fazê-la entender vida ou detalhes técnicos dela, falava alto e ela, escutava baixo.
Quando não entendia absolutamente nada, parava, aprumava as ancas e esperava.
E de tanto seguir nesse sacolejo frouxo de existir, um dia desancou e caiu.

terça-feira, março 01, 2011

Eu só queria tirar a penteadeira do quarto


Quando a conversa começou, a penteadeira estava longe, bem longe dali.
Ficava exatamente na frente da cama do casal. Não era usada como tal. Era um móvel antigo, modelo Patente. Em cima do tampo, agora de vidro, desfilavam todos os santos-dela e budas-dele. Eram assim, complementares.
Naquele dia estavam na casa que construíram e elegeram para ser o refúgio. Dos dois. Juntos. Ao menos de corpo.
Jogados na sala da lareira, sentiam-se tão vazios que não sustentavam nem o fogo que teimava morrer. Morreu. E eles quase mortos, nem repararam. 
Estavam imersos numa banheira de vazio.
Ela bebia vinho tinto numa das dezenas de taças de cristal levemente rachadas. Não corria risco, sabia exatamente onde colocar os lábios para não cortá-los. Só não sabia, nunca soube, onde colocar as palavras que cortavam e insistiam em sair rasgando de sua boca.
Pra evitar o pior, escolheu um assunto desconexo, fachada de sua dor.

Ele começou a dedilhar as cordas novas do violão. Ele sempre usava esse escudo para se proteger do que vinha dela.
Deixou-a falar, se enroscar, tropeçar e cair na velha armadilha que armava a cada confronto. O silêncio. Velho e imbatível silêncio.
Se ainda fumasse, seria ao momento de se arrastando, sair à procura de um cigarro, acendê-lo, e voltar ao lugar de origem. Isso serviria para checar se ainda estava viva. Mas não fumava mais. Menos mal. Menos culpa. Menos margem para manobrar o desespero que sentia esquentar seu peito. Ou seria o vinho?
O que seria, não importava. O fato é que lá estava ela de novo, encharcada de tristeza quente, e desarmada. Sua última proteção era a frase úmida que de tempo em tempo escorria de sua boca: “eu não vou brigar com você, não vou...”
Resistência curta. Desmoronou. Com a mão direita sobre o rosto começou a verter lágrimas ardidas. Exausta levantou-se, pegou a cachorra que dormia em seu colo sem se importar com o que acontecia de humano entre aqueles dois humanos e falou:

-E aí, vamos dormir?

Ele devolveu o que considerou quase uma ironia com um seco “não”.
Melhor assim, pensou. Seguiu sozinha para o quarto que ficava separado da casa. Passou pelo frio atrevido, pela chuva fina, pela escuridão apertada e depois de subir os mais longos quatro degraus de que se tem notícia pelas bandas da Serra da Mantiqueira, alcançou a cama.

Se dependesse dela, só acordaria quando conseguisse finalmente explicar que só queria mesmo era tirar a penteadeira do quarto.
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