quarta-feira, abril 27, 2011

Que ou aquele que padece de algum mal físico e/ou moral


Olívia está doente. Coitada. Tão nova e desde cedo, descontrolada.
A mãe de Olívia está doente. Coitada. Nem tão velha, no entardecer da vida, pôr-se a adoecer do outro. Doença grave.
O irmão é doente-avesso de Olívia. Coisa esquisita. Doideira para escolher: cara ou coroa.
A tia de Olívia tem um ano que adoeceu de amor acabado. Não há meio de esquecer a moça. O tio, sempre tão alegre, está doente dos olhos. Verdes, tão verdes, agora opacos. Perda crônica de clorofila vital.
A vó de Olívia tem doença com nome e endereço - depressão- e endereço, o dela. Parece que casa de vó é boa até mesmo para depressão. Mas faz tempo que Olívia não vai até lá. Ela está doente.
A outra vó de Oli - esse é o apelido da menina - está doente do tempo. Muito tempo. Tanto tempo que se esqueceu que gostaria de não mais viver.Agora tem medo de morrer. Então é morta-viva.
A filha dessa vó, tia de Olívia, tá doente de gorda.Vai explodir. Assim como a prima da mesma idade de Oli e a mãe dessa prima que além de gorda esqueceu-se de crescer e tem a mesma idade da filha. Portanto, doentes iguais.
A família , como se vê, é grande. Diversa. Doente. Tem mais gente. E doença para cada um deles. Mas vou parar por aqui. Preciso tomar meu remédio. Não, não estou doente não. É só uma questão de prevenção.
Nossa! Ia me esquecendo do pai de Olívia. Esse garante que é saudável e não é por falta de esforço. Ele tenta com afinco adoecer.

terça-feira, abril 12, 2011

São Bernardo a vista

Beatriz Lefèvre/Fotografia

Há um ruído no ar. Do tempo. Do vento que sabemos artificial.
O ruído teima em nos acompanhar e em pouco tempo já faz parte de São Bernardo, uma história em movimento. Graciliano, que contam, não gostava de música, o que diria de um barulho que incomoda com a mesma elegante dureza de suas palavras? Barulho que os tempos modernos não conseguiram eliminar. Não há restauro para sutilezas.
E nessa batalha surda entre o meio silêncio, as memórias de um homem rude e as tentativas de existir de poucos personagens, a secura de São Bernardo vai ganhando olhos e respirações.Viçosa então aparece com contornos de lugar de gente dura e esturricada, pronta para receber e ser palco de um desejo violento de ser e poder.
É o homem Paulo Honório que invade o espaço-retrato de um pedaço grande de terra, palco do desterro de homens sem rumo.
Cor de terra, roupa camuflada de bicho. Assim Paulo chega, se impõe, se faz respeitar, manda matar e percebe que talvez, apenas talvez , deva ou possa amar.
Escolhe uma mulher que flutua. Madalena tem os olhos no vazio, a brancura que Paulo Honório persegue e o mistério de um passado que aquele que será seu homem, jamais entenderá.
Arma-se um embate. Um racho. Um riacho que escancara a impossibilidade disso que se pretende amor. E assim, cada um de uma margem, comunica o seu estar. Mal estar.
A loucura está colocada. O corpo de Madalena torce, contorce, resvala na parede feito marola doida do mar enquanto Paulo Honório invade de espingarda em punho, a sua alma.
O desfecho anunciado não perde a força de um final infeliz. Sabemos que Madalena sucumbirá. Todos sucumbem.
Mas o homem de Graciliano não pode esquecer. Então lembra. Puxa pela memória seca. Fixa sua existência na luz bruxuleante do toco de vela que foi luz, da luz que já foi vida. E arria. Larga o corpo em cima da mesa que foi tábua de salvação para suas letras e respira a escuridão.

quinta-feira, abril 07, 2011

Trevas na escola


Enquanto isso, no puxadinho da casa vizinha da escola, o moleque treinava o jeito mais bacana de escrever o nome do amigo. Sim, porque Ele - assim mesmo, com letra maiúscula - tinha um amigo, ele - esse sim, com letra minúscula.
Amigos desde o dia em que o maluco resolveu não ir embora depois da aula e dar um tempo na quadra. Só que começou a chover pencas e eu que era um tampinha, quando vi o cara molhado feito um pinto pobre, gritei pra ele chegar junto na minha laje.
Aguentar as esquisitices do cara por tanto, não foi mole.Esquisitice mesmo. A última ( não essa última) foi demais
Mês passado um bacana chegou aqui na comunidade dizendo que era cineasta e convidou a gente pra assistir lá na Zona Sul o filme que ele tinha feito. A gente, encostado no muro da escola, olhou um pro outro e disse,valeu, mas não vai rolar não. Só que o mané não desistiu e disse que o filme era maneiro e que o ator principal era o Wagner Moura. Aí a coisa mudou de figura. Filme com esse que fez aquele outro lá que esqueci mas que rola muito tiro, a gente não podia perder.
O nome do filme não lembro bem, Vips, Tips, sei lá. Só sei que a história era da hora. Um maluco, tão maluco que comecei achar meu amigo normal.
O do filme achava que era uma pá de gente que não era ele. Coisa de louco. Até o cara achava que ele mesmo era louco. Meu amigo largadão do meu lado ria como nunca tinha visto rir tanto. E foi aí que o bicho pegou. Começaram a gritar pra ele calar a boca, ir se fuder e um monte de outras merdas. E não é que o Bizarro – vê só, tô chamando meu amigo do nome que o dono do bar do filme, chamava o Wagner Moura – levantou da cadeira virou pra trás e gritou - Vamo calar essa boca do caralho senão vai todo mundo pra escola! A sala ficou sem fala. Um bando de mudo olhando pro meu amigo. A coisa foi tão sinistra que não teve pra ninguém abrir a boca. Um magrelo barbudo – assim é que ele estava, porque magro ele era desde que tinha uns vinte, dezenove anos, mas barbudo, era coisa de uma semana – gritando um troço assim, sem pé nem cabeça, com a cara mais cheia de raiva que pelo menos eu, já tinha visto. Coisa de cinema. Não desse. Americano.
Não deu tempo de nada. Grudou nele o bacana cineasta e um segurança do cinema que tirou a gente de lá.
Fiquei na minha. Achei aquele troço estranho. O que aconteceu e meu amigo também. Muito estranho.
Quando a lotação despencou a gente em frente à escola, aproveitei o lugar e ldei uma zoada. Aí cara, assim os bacana da Zona Sul vão achar que escola é prisão!
Não é para ficar tranquilo mesmo. Escola é treva. Puta bom lugar pra jogar filho e fazer de conta que tá tudo bem do outro lado do muro.
Não entendi nada. Deve ser essas idéias que ele aprendeu na porra do computador onde ele fica babando dia e noite.
E não é que hoje meu amigo faz uma dessa? Vacilão. Monte de menina linda que ele nem nunca tinha falado ... é mas ele não falava com ninguém, quando saia do buraco onde vivia, colava só em mim.Quem gosta de falar sou eu.
E agora to achando que vou falar muito. Uma pá de repórter na frente da minha casa querendo saber de tudo, tudo, tudo sobre Ele – assim, com letra maiúscula – porque agora Ele é famoso, conhecido até nos estadosunidos lugar de onde ele dizia que vinha o nome dele,
Well in town ou será? Well, in town? Well in, town? We´ll in town? Wellington? Deve ser assim. Deixa eu aproveitar que rapidinho, tudo volta a ficar bem na cidade.

Ensonhada


Quando acordou, confinada no lado esquerdo da cama, pensou: “buraco na cama, esparramo da vida”. Não sabia direito o que significava a frase, mas achou que era perfeita para o que sentia.
Sentia frio porque não estava acostumada a dormir com um buraco no meio da cama. Quando isso acontece, acabava de aprender, encana um vento dolorido pelas frestas do lençol e quem está na boca do buraco acaba tendo o corpo paralisado. Passou a noite dura como na brincadeira infantil “duro ou mole”. Havia sido tocada pela dureza da vida.
Apesar do buraco ser grande, ela conseguia ver o outro. Encolhido como um feto, enrolado num cobertor de silêncio vermelho, parecia também estar paralisado. De costas, só mostrava a cabeça, pequena, cheia de cabelos brancos, a ponta de um cotonete.
O buraco, ela sabia, além de grande, era fundo. “O buraco é fundo, acabou-se o mundo”. Quando criança entoava essa brincadeira e ao final, ficava pensando que tamanho exatamente deveria ser para caber o mundo.
Um dia descobriu o primeiro buraco fundo de sua vida. Foi na camona de seus pais. Teve medo de olhar, na verdade, não daria mesmo para enxergar o fundo. Só sabia que de tão perigoso a mãe resolveu ir dormir na rede da garagem.
Ela então pensou que deveria sair e dormir na sala ou mesmo na cama da filha que já estava na escola. Ficou com medo. Temia deixá-lo sozinho. É que no meio da noite, isso ela bem sabia, costumava se contorcer e às vezes até falar. Só que a voz que ouvia não era dele. Dava medo. Não se entendia uma só palavra. Mas dava medo. “Voz do além”, ela brincava. Voz que enquanto acordado, fazia prisioneira e durante a noite libertava embolada, para aliviar o peso de palavras tão pesadas que carregava no coração.
Decidiu levantar-se. Era melhor ficar sonada do que enjoada na cama. Altura era o ponto fraco da moça. Estar à beira de um buraco a mais de sete horas tinha sido uma experiência e tanto para ela.
Acreditava até então, que a hora de ir para cama era a hora em que automaticamente os buracos se fechavam. Pela força do carinho, da vontade do outro. Mas resignou-se. Não era assim.
Até que demorou para ela entender que quando o buraco é realmente fundo, a vida se esparrama dentro dele e aí parece ser melhor trocar de cama.
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