quinta-feira, abril 07, 2011

Trevas na escola


Enquanto isso, no puxadinho da casa vizinha da escola, o moleque treinava o jeito mais bacana de escrever o nome do amigo. Sim, porque Ele - assim mesmo, com letra maiúscula - tinha um amigo, ele - esse sim, com letra minúscula.
Amigos desde o dia em que o maluco resolveu não ir embora depois da aula e dar um tempo na quadra. Só que começou a chover pencas e eu que era um tampinha, quando vi o cara molhado feito um pinto pobre, gritei pra ele chegar junto na minha laje.
Aguentar as esquisitices do cara por tanto, não foi mole.Esquisitice mesmo. A última ( não essa última) foi demais
Mês passado um bacana chegou aqui na comunidade dizendo que era cineasta e convidou a gente pra assistir lá na Zona Sul o filme que ele tinha feito. A gente, encostado no muro da escola, olhou um pro outro e disse,valeu, mas não vai rolar não. Só que o mané não desistiu e disse que o filme era maneiro e que o ator principal era o Wagner Moura. Aí a coisa mudou de figura. Filme com esse que fez aquele outro lá que esqueci mas que rola muito tiro, a gente não podia perder.
O nome do filme não lembro bem, Vips, Tips, sei lá. Só sei que a história era da hora. Um maluco, tão maluco que comecei achar meu amigo normal.
O do filme achava que era uma pá de gente que não era ele. Coisa de louco. Até o cara achava que ele mesmo era louco. Meu amigo largadão do meu lado ria como nunca tinha visto rir tanto. E foi aí que o bicho pegou. Começaram a gritar pra ele calar a boca, ir se fuder e um monte de outras merdas. E não é que o Bizarro – vê só, tô chamando meu amigo do nome que o dono do bar do filme, chamava o Wagner Moura – levantou da cadeira virou pra trás e gritou - Vamo calar essa boca do caralho senão vai todo mundo pra escola! A sala ficou sem fala. Um bando de mudo olhando pro meu amigo. A coisa foi tão sinistra que não teve pra ninguém abrir a boca. Um magrelo barbudo – assim é que ele estava, porque magro ele era desde que tinha uns vinte, dezenove anos, mas barbudo, era coisa de uma semana – gritando um troço assim, sem pé nem cabeça, com a cara mais cheia de raiva que pelo menos eu, já tinha visto. Coisa de cinema. Não desse. Americano.
Não deu tempo de nada. Grudou nele o bacana cineasta e um segurança do cinema que tirou a gente de lá.
Fiquei na minha. Achei aquele troço estranho. O que aconteceu e meu amigo também. Muito estranho.
Quando a lotação despencou a gente em frente à escola, aproveitei o lugar e ldei uma zoada. Aí cara, assim os bacana da Zona Sul vão achar que escola é prisão!
Não é para ficar tranquilo mesmo. Escola é treva. Puta bom lugar pra jogar filho e fazer de conta que tá tudo bem do outro lado do muro.
Não entendi nada. Deve ser essas idéias que ele aprendeu na porra do computador onde ele fica babando dia e noite.
E não é que hoje meu amigo faz uma dessa? Vacilão. Monte de menina linda que ele nem nunca tinha falado ... é mas ele não falava com ninguém, quando saia do buraco onde vivia, colava só em mim.Quem gosta de falar sou eu.
E agora to achando que vou falar muito. Uma pá de repórter na frente da minha casa querendo saber de tudo, tudo, tudo sobre Ele – assim, com letra maiúscula – porque agora Ele é famoso, conhecido até nos estadosunidos lugar de onde ele dizia que vinha o nome dele,
Well in town ou será? Well, in town? Well in, town? We´ll in town? Wellington? Deve ser assim. Deixa eu aproveitar que rapidinho, tudo volta a ficar bem na cidade.

Um comentário:

  1. Sensacional essa dessacrallização da instituição que muito a contragosto e sem condição ficou com um papel que , na verdade, parece que ninguém quer assumir. Não o da educação formal, mas da formação humana. Adorei. Abraço grande. Paz e bem.

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