terça-feira, maio 03, 2011

Violência intransitiva


Foram vinte. Minutos. Horas. Dias... Não sei precisar. Mas foram vinte.Precisei fechar as janelas. Por segurança. Como eram de duas folhas, achei melhor fechar as duas. Por insegurança pressentida.
Éramos dois. Dois seres plasmados destilando ódio. Olhava e olhava para você tentando descobrir um número de teatro burlesco. Mas não encontrei. Era você mesma. Bizarra e quebradiça.
Disse que precisava falar. Gritou que eu precisava ouvir. Como se a vida inteira - vinte anos – sua idade eu sei, não tivesse sido uma Babel de pedidos de socorro.
Você sabia que eu não aguentaria por muito tempo seu discurso disco-quebrado euteodeio, vocêarrebentaminhavida, porquevocê existe, porquenãomeesquece, porqueinsisteemmeamar.
Até que chegou o momento pelo qual você espera a cada minuto de sua existência, o confronto. Físico. Visceral. Eu a prisioneira, você com a chave esmagada na mão direita como uma criança segurando a boneca prestes a ser castigada. Mas não. A castigada era eu.
Consegui fugir. Pelo buraco da fechadura. Esvai de dor e fugi
E então - novamente não sei precisar quanto- estava no meu caminho. Você nem imaginava que caminho era esse, até que na curva fechada do túnel, te avistei. E quase perdi meu incerto rumo
Você, invariavelmente, nos lugares mais arriscados. Estava lá encostada na parede imunda com trilha sonora da loucura e nos braços, que merda, ela.
E agora eu tenho medo do que você carrega. Uma bomba. Uma faca. Uma boneca nos braços. Uma boneca.
Não tem mais o que tirar. Já tirou até o último fio de cabelo loiro que te restava. Já não tem mais o que colocar. Já encheu o corpo de figuras que não querem dizer nada, como nada quer dizer alguma coisa nessa sua vida esburacada.
Só que eu não quero essa vida pra mim. E por isso, sou eu quem vai embora. Deixo pra você, embrulhado em papel de loja de presente chique, meu desprezível medo.
Ele é todo seu. Como toda casa, todo banheiro, todas as roupas, tudo que pintei e arrumei. Fica com tudo. E segura firme a boneca. Porque nesse mundo que você escolheu, as pessoas podem pensar que sua boneca é apenas uma boneca e não entenderem que ela sou eu.

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