quarta-feira, junho 01, 2011

Eu leio os russos


Sobre os russos sabia pouco. Acabara de ler um livro -excelente livro- cujo cenário era São Petersburgo. Não, não era “Crime e Castigo”, mas ambos diziam de uma cidade malditamente bela onde cada um que lá habitava sofria de um sobressalto crônico.
Ela, de alguma estranha maneira, conhecia esse mal estar e por isso, a cada página virada, respirava fundo para entrar no próximo conjunto de palavras portadoras dessa estranha sensação.
Sobre os russos sabia pouco, mas dava como certo que um dia saberia mais. Iria para Rússia.
Quando, muito depois de ter lido esses livros, resolveu colocar um tradutor muito ordinário do português para o russo em seu blog, não contava com o fato deles, os russos, passarem a serem leitores mais do que constantes de seu livro de contos virtual.
Chegaram mansos-como assim devem agir os bons e renomados agentes russos- mas esses não eram agentes literários com os quais tanto queria travar conhecimento.
Começou achar estranho grupos de cinco num dia, sete em outro, nove! internautas quase que simultaneamente lendo seus escritos.
Conseguiu acessar detalhes dessas máquinas russas e descobriu que eram sempre as mesmas.
Pânico. Ligou para amiga que cuidava do blog. A moça, mas afeita às questões de alta tecnologia, descartou espionagem, sorriu amarelo e minimizou a questão sugerindo que o blog poderia estar sendo lido numa escola de Português para russos, por exemplo. Coitada. Ingênua. Não entendia nada de nada dos meandros desse mundo russo-subterrâneo.
Ficou tomada pela idéia dos russos vigiando sua vida. Ao menos sua vida literária. Todo dia corria para certificar-se de que continuavam lá. Gostava de clicar na bandeira da Rússia e ver tudo transformado em letras duras e geométricas. Até seu nome ficava mais bonito assim. Mas tinha medo.
Por isso, um dia, decidiu que não queria mais. Clicou com força desmedida no ícone que deletaria a Rússia, os russos e todo o aparato de espionagem que acreditava estar por trás daquelas visitas.
Ficou aliviada. Mas até hoje sonha com o dia em que eles, os russos, num sobressalto, aparecerão. Só que camuflados de leitores chineses.
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