sexta-feira, julho 08, 2011

Entender o tempo








Durante inúmeros momentos da leitura da máquina de fazer espanhóis, o leitor terá vontade de marcar a página lida, deixar o livro de lado e ir para a Tabacaria de Álvaro de Campos. Lá, quem sabe, poderia encontrar um velho, bem velho, que lhe dissesse ser Fernando Pessoa e com ele pudesse confabular sobre a metafísica da velhice proposta por valter hugo mãe.

Certamente seria uma conversa afiada, cheia de surpresas e desejos de conhecer mundos tão distintos e particulares.

No mundo concreto apresentado pelo autor os fatos acontecem ligeiros, como se não houvesse tempo para perder com preâmbulos desnecessários e explicações que postergariam fatos que realmente farão diferença no desenrolar da narrativa.

Chegamos a um Lar de Idosos pelas mãos de um homem cheio de raiva. Por isso está cego. Demora a tirar a roupa molhada de mágoa, recusa-se secar-se ao sol e só aos poucos vai vendo alguns outros. Cinco outros. Mas já conseguimos estar no Lar da Feliz Idade, sentir os barulhos e os cheiros secos das idades avançadas, as ladainhas doloridas, os cantos e recantos povoados pelo tempo. Muito tempo.

Todos ali – exatos 93 – pelo tarde da idade têm um velho conhecido em comum, o ditador Salazar. E dele, trazem marcas. Antonio Silva, nosso cicerone no mundo do quase fim, concentra em seus silêncios, todo um corolário de medos herdados de 48 anos de apequenamento de um país que nasceu minúsculo e com o passar dos séculos só soube encolher.

valter hugo mãe escolheu com precisão os momentos em que os estragos provocados pelo regime são escancarados nos mais prosaicos detalhes do perfil de um português. Assim vai construindo no seu silva, a síntese de todas as mazelas contemporâneas de Portugal. E isso dói. Ai, como dói! cantava a fadista Amália Rodrigues, citada e perdoada pelo jovem autor.

Preciso na escolha do momento certo de desconstruir o que com cuidado nos contou sobre os recônditos do personagem principal, o texto consegue desestabilizar tudo o que até então o leitor havia formulado como verdades. Sem ofensas. Sem nos chamar de putos ingênuos e crédulos das artimanhas de um português pronto para entregar os pontos e dizer que sim, foi bom esperar um pocadito para morrer.

3 comentários:

  1. Vim pela mão da Ana, do blog Onze Palavras.
    Logo me deparo com uma publicação sobre um livro que li recentemente, de um autor que aprecio bastante.
    Hei-de vir com mais tempo e ler mais atentamente.

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  2. Gostei bastante do Blog.
    Muito interessante !

    É bom ver a cada dia que passa mais originalidade nessa "blogosfera". :)

    Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir..;
    http://bolgdoano.blogspot.com/

    Muito Obrigada, desde já !

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  3. Passei para deixar um Feliz Ano Novo, e dizer que lindo seu texto.

    Bjus

    Elaine Bucci

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