ARTIGOS


















a máquina de fazer espanhóis

valter hugo mãe

Cosac Naif



Durante inúmeros momentos da leitura da máquina de fazer espanhóis, o leitor terá vontade de marcar a página lida, deixar o livro de lado e ir para a Tabacaria de Álvaro de Campos. Lá, quem sabe, poderia encontrar um velho, bem velho, que lhe dissesse ser Fernando Pessoa e com ele pudesse confabular sobre a metafísica da velhice proposta por valter hugo mãe.

Certamente seria uma conversa afiada, cheia de surpresas e desejos de conhecer mundos tão distintos e particulares.

No mundo concreto apresentado pelo autor os fatos acontecem ligeiros, como se não houvesse tempo para perder com preâmbulos desnecessários e explicações que postergariam fatos que realmente farão diferença no desenrolar da narrativa.

Chegamos a um Lar de Idosos pelas mãos de um homem cheio de raiva. Por isso está cego. Demora a tirar a roupa molhada de mágoa, recusa-se secar-se ao sol e só aos poucos vai vendo alguns outros. Cinco outros. Mas já conseguimos estar no Lar da Feliz Idade, sentir os barulhos e os cheiros secos das idades avançadas, as ladainhas doloridas, os cantos e recantos povoados pelo tempo. Muito tempo.

Todos ali – exatos 93 – pelo tarde da idade têm um velho conhecido em comum, o ditador Salazar. E dele, trazem marcas. Antonio Silva, nosso cicerone no mundo do quase fim, concentra em seus silêncios, todo um corolário de medos herdados de 48 anos de apequenamento de um país que nasceu minúsculo e com o passar dos séculos só soube encolher.

valter hugo mãe escolheu com precisão os momentos em que os estragos provocados pelo regime são escancarados nos mais prosaicos detalhes do perfil de um português. Assim vai construindo no seu silva, a síntese de todas as mazelas contemporâneas de Portugal. E isso dói. Ai, como dói! cantava  a fadista Amália Rodrigues, citada e perdoada pelo jovem autor.
Preciso na escolha do momento certo de desconstruir o que com cuidado nos contou sobre os recônditos do personagem principal, o texto consegue desestabilizar tudo o que até então o leitor havia formulado como verdades. Sem ofensas. Sem nos chamar de putos ingênuos e crédulos das artimanhas de um português pronto para entregar os pontos e dizer que sim, foi bom esperar um pocadito para morrer.


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SÃO BERNADO A VISTA

Beatriz Lefèvre/Fotografia
Há um ruído no ar. Do tempo. Do vento que sabemos artificial.
O ruído teima em nos acompanhar e em pouco tempo já faz parte de São Bernardo, uma história em movimento. Graciliano, que contam, não gostava de música, o que diria de um barulho que incomoda com a mesma elegante dureza de suas palavras? Barulho que os tempos modernos não conseguiram eliminar. Não há restauro para sutilezas.
E nessa batalha surda entre o meio silêncio, as memórias de um homem rude e as tentativas de existir de poucos personagens, a secura de São Bernardo vai ganhando olhos e respirações.
Viçosa então aparece com contornos de lugar de gente dura e esturricada, pronta para receber e ser palco de um desejo violento de ser e poder.
É o homem Paulo Honório que invade o espaço-retrato de um pedaço grande de terra, palco do desterro de homens sem rumo.
Cor de terra, roupa camuflada de bicho. Assim Paulo chega, se impõe, se faz respeitar, manda matar e percebe que talvez, apenas talvez , deva ou possa amar.
Escolhe uma mulher que flutua. Madalena tem os olhos no vazio, a brancura que Paulo Honório persegue e o mistério de um passado que aquele que será seu homem, jamais entenderá.
Arma-se um embate. Um racho. Um riacho que escancara a impossibilidade disso que se pretende amor. E assim, cada um de uma margem, comunica o seu estar. Mal estar.
A loucura está colocada. O corpo de Madalena torce, contorce, resvala na parede feito marola doida do mar enquanto Paulo Honório invade de espingarda em punho, a sua alma.
O desfecho anunciado não perde a força de um final infeliz. Sabemos que Madalena sucumbirá. Todos sucumbem.
Mas o homem de Graciliano não pode esquecer. Então lembra. Puxa pela memória seca. Fixa sua existência na luz bruxuleante do toco de vela que foi luz, da luz que já foi vida. E arria. Larga o corpo em cima da mesa que foi tábua de salvação para suas letras e respira a escuridão.



                             Maria Antonia Demasi
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