TEXTOS PREMIADOS


Aqui você confere os textos premiados escritos por Maria Antonia Demasi e autores relacionados ao universo literário da autora desse blog.

A editora Companhia das Letras reeditou a obra de Jorge Amado, autor que trouxe a Bahia para o coração do país. Parte desse projeto inclui a edição anual do Concurso Cultural Reinvente Jorge Amado. Em Maio/2010, Beatriz Demasi Araújo conquistou o 1o lugar na categoria conto/crônica, em cerimônia realizada no auditório do Museu de Arte de São Paulo, o MASP, com o texto "Vidas de areia", que pode ser lido abaixo:

VIDAS DE AREIA

O sertão vai entrando pelo nariz e pelos olhos de Volta Seca. Entra seco. O trem já cavou muito pra dentro da Bahia. A brisa do mar de Salvador para aquela direção parece que não quer ir. Para aquela direção parece que ninguém quer ir. Ninguém vai ao sertão. As pessoas já nascem nele. Só Volta Seca que quer ir encontrar lá a vingança da miséria junto a Lampião.

O trem vai devagar e o som dos trilhos naquele silêncio incomoda. Em Salvador, Volta Seca tinha a impressão de que o mundo fazia mais barulho. Vai vendo o sertão passar. A caatinga tenta gritar mas não consegue. Volta Seca foi para gritar pela caatinga. Era hora de gritar.

Ele sai do trem num pulo. As planícies avermelhadas incomodam seus olhos. Vaqueiros, crianças sem nome, mães e mães e cachorros e meninos e a água, na há água. Se mete numa cidade, que não é cidade, é sertão: cidade é Salvador, sertão é sertão.

Volta Seca sabe que lá também os homens ricos eram ruins. Que lá iria realizar sua missão de vida, matar soldados de polícia e libertar o agreste sendo então o mais novo Pedro Bala, o mais novo Lampião.

Não tardou a se meter em encrenca. Foi roubar numa feira: comida mesmo pra viver. Mas daí o pegaram, e a mão do soldado sertanejo doía mais do que a do soldado de Salvador.

Na cadeia, bateram mais nele quando falou que era afilhado de Lampião. Então ele repetiu que era e bateram mais. O jogaram numa cela. Seca. Lotada de homem que parecia bicho, seminus, deviam nem ter feito nada, pensou. Pareciam já ter engolido aquele injustiça.

Achegou-se em um que soltava grunhidos de animais. Todo ele era seco, sua pele dura, muito claro, mas a poeira o deixa marrom.

“Como se chama?”, perguntou Volta Seca.
“Fabiano”, disse o homem com dificuldade.
Fabiano. Esse cabra devia ser vaqueiro, pai de alguma daquelas famílias que viu se arrastando pela estrada.
“Por que te prenderam?”, Volta Seca quis saber.

“Foi o soldado amarelo que me prendeu”. Volta Seca sabia de quem o homem estava falando. Percebeu que o tal Fabiano parecia inconformado.

“Ele me prendeu também. Quando sair daqui vou matá-lo. Matar todos eles.”

O homem da pele dura estranhou a fala raivosa do moleque. Se via conformado, menor e incapaz de dizer aquelas coisas. No fundo, tinha o mesmo ódio.

“Vou matar todos eles”, continuou empolgado, “os soldados de polícia, os governantes!”. Fabiano não entendeu. Para ele o governo não era quem prendia. O governo era sim longe, e ele era pequeno, era bicho, bruto.

Tentou arriscar algumas palavras. “Se eu conseguisse falar bonito, ia dizer tudo pro soldado amarelo”. O homem falava meio encabulado, com dificuldade. Como se tivesse pedra na boca. Volta Seca estava acostumado a falar com os Capitães da Areia, falar e gritar e reclamar e agir muito sempre. Mas entendia os silêncios pausados de Fabiano. Ele não tinha água. Pelo menos em Salvador havia o mar, as pessoas. Volta Seca pensou que entendia tanto os sertanejos porque era um deles também. Viera para libertá-los e extravasá-los de todo aquele ódio e pobreza.

Não demorou a ser liberado. Como na Bahia, os soldados só queriam ralhar com ele, se divertir batendo nos pobres. Saiu ainda mais revoltado do que quando entrou. Pensava forte em Fabiano, imaginava sua família ali na beira daquele nada, carregando criancinhas fracas que lhe faziam lembrar dos companheiros do trapiche, meninas mulheres como Dora que viviam como animais para aguentar aquela seca. Eram vidas de areia, mas não da areia da praia que forrava o trapiche, areia do sertão que machuca os olhos, machuca o corpo e é fraca, logo desfaz.

Ia andando mais devagar do que o trem. Queria e pensava só em encontrar Lampião. Com ele iria matar todos aqueles soldados que em algum lugar, fosse em Salvador ou no sertão, tivessem prejudicado algum pobre e piorado sua pobreza. Pois não mais o fariam com ele e Lampião juntos – e era nisso que Volta Seca acreditava, e por isso ia, andava.

Beatriz Demasi Araújo

A Caqui - Revista Brasileira de Haicai promove anualmente o Concurso Literário Yoshio Takemoto. Em sua 27a edição, Maria Antonia Demasi conquistou o 1o lugar na categoria conto, recebendo o prêmio em cerimônia realizada em Março/2010, com o texto "Copacabana", que pode ser lido abaixo:

COPACABANA

Helena saiu do apartamento apressada. Não sabia bem porque, mas sentia uma urgência úmida no ar.
Chegando à portaria, sentiu medo. O zelador, de cara assustada, ao perceber a presença muda da velha senhora, lançou para o ar:
- Ela vai sair! Que é que faço?
Helena não ouviu nada. Já fazia alguns meses - ou seriam dias? - que ela percebia nas pessoas reações estranhas, mas em nenhum momento arriscou entender o que poderia ser apenas uma sensação passageira.
- Livre! Foi a palavra que voou de sua boca assim que alcançou a calçada.
Pisou firme e partiu guiada pelo cheiro. Cheiro trazido pelo vento que conhecia desde sempre, só que nessa manhã ela não sabia ao certo o que era o sempre, o que fora o ontem e sobre o amanhã, bem a verdade é que o amanhã não tinha mais espaço reservado em sua mente.
Duas quadras, doze amendoeiras (se é que ela não se perdeu... nas contas, é claro) e de assalto um grande barulho e uma mão segurando seu braço direito.
O guarda municipal podia considerar seu dia ganho. Se não tivesse segurado Helena quando já colocava um pé no asfalto da famosa avenida... já era!
-Bom dia madame! Posso ajudar em alguma coisa?
-Sim, claro. Quero saber se já cheguei.
-Bom, disse o homem da lei, depende de onde a senhora quer chegar.
Helena sorriu como que por misericórdia. Como aquele jovem fardado sem o menor senso de direção, poderia então “ajudá-la em alguma coisa”?
Agradeceu mesmo assim, desvencilhou-se da mão que insistia em segurá-la e como guiada agora por outra mão, a mão firme de seu protetor, São Sebastião, sentiu que poderia continuar andando.
Deu dois passos e o barulho que ouvira virou uma tempestade: raios e trovões, gente correndo em sua direção e de novo aquelas expressões que insistiam em perseguí-la.
Seus ouvidos, que até então pareciam tapados, subitamente abriram-se e ela pode ouvir frases desconexas como: “vai ser atropelada”, “como alguém sai de casa com essas roupas”, “coitada”, “cadê a família”...
Achou tudo muito confuso, mas conveniente porque foi apenas abrir os olhos que instintivamente haviam se fechado e chegar onde queria e não sabia.
-Finalmente! suspirou Helena.
Já era hora de poder se lavar. Fazia isso há sessenta e dois anos, desde o dia em que deixou para trás as Minas Gerais profunda - onde a maior água é a do velho Chico - para viver bem perto das “águas que não tem fim” como dizia alguém que agora não se lembrava quem.
Começou a tirar o que vestia e estava grudado em seu corpo tão úmido quanto o ar que respirava com dificuldade irritante.
Quase flutuando (era sempre assim) passou pelo que chamava de “colchão mais quente dessa terra tão quente” e extasiada, se deixou levar pelo abraço da água que sabia salgada.
Sabia e sentia mais.
Sabia que a água estava gelada e por isso, sentia raiva.
Sempre que essa espécie de frio cínico invadia suas entranhas, sentia raiva. Muita raiva. Gélida raiva. Mas nunca resistia. Aceitava essa invasão com altivez estudada, quase decorada por alguma parte de sua mente que se ocupava em colocar suas temperaturas emocionais num grau socialmente aceitável.
Mas agora alguma coisa parecia ter mudado.
Não sabia o que viria depois da raiva, o que deveria fazer depois dela passar, se é que ela passaria... E então veio o nada.
E Helena percebeu que o nada era um desconhecido.
Começou a mover o corpo não só para esquentá-lo, mas para poder, quem sabe, deixar o nada mais à vontade (essa era também a tática que usava para raiva).
Do nada para esquerda.
O que viu encheu seus olhos. Uma grande construção, do tempo em que o tempo apagou de sua mente. Tão grande pensou, como um grande pai, corajoso e forte. Forte. Era esse o nome que sabia daquela estrutura encravada nas pedras.
E Helena sentiu-se forte por ver e reconhecer.
Ver com sentido. Ver entendendo como parte de sua vida espaços que a cercavam.
Mas isso durou pouco. Durou duas palavras, dez letras: d u r o u p o u c o.
O nada voltou e do nada foi tirada pelo susto.
Assustou-se com uma figura jovem apoiada no que considerou ser “uma tábua de passar roupa flutuante”. Ao tentar aproximar-se percebeu que sua camisola (só agora percebia que estava com a camisola azul bebê que tanto gostava) havia se enroscado naquele estranho tipo de bóia.
-Desculpa aí! Foi mal...
E o rapaz, meio sem jeito, como que adivinhando a necessidade do outro se encontrar, enunciou mais uma vez, o que para Helena ainda fazia parte do desconhecido.
-Acho que a senhora precisa de ajuda.
Helena não entende e pensou:
“Ajuda? Não entendi. De novo. Não entendi nada.”
Puxou a ponta de seu traje longo, deu dois passos para frente e parou. Foi parada. Pelo chão que afundava bem embaixo de seus pés. Pela água, que orgulhosa de ser água, afundava aquele que não conseguia saber quem era.
“Como minha vida", pensou alto Helena.
E como já tinha feito tantas vezes em sua vida (apesar de agora não fazer a mais pálida idéia disso), decidiu reagir e seguir em frente.
Pisou novamente no “colchão quente”. Só que dessa vez tinha os pés gelados, o que facilitou o que encarava como uma verdadeira jornada para onde não sabia.
E quando estava quase chegando, reconheceu uma voz.
- Mãe!
Foi como a ducha fria, de água doce, que ela tanto gostava de tomar quando voltava para casa. Alívio. Porto seguro. Entrega.
- Mãe, eu sei aonde a senhora quer ir. Vamos lá, eu ajudo.
E assim as duas mulheres, uma tão velha e fluída e outra tão jovem e tensa, chegaram trôpegas pelo calor e pela vida, ao banco onde o silêncio as esperava.
Helena sentou-se com a elegância de uma verdadeira dama. Olhou para Drummond congelado e, exausta, balbuciou o segredo que se desvendava a cada encontro.
- Não posso mais te encontrar. Tem um homem, acho que um alemão, um tal de Alzeimeher, que não me deixa mais sozinha, tenta me prender em casa. Ele não quer que eu ande mais por .... Como é mesmo o nome dessa praia?


Maria Antonia Demasi
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